Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Quando menos é mais

Por Monitor de Mídia em 15/04/2008 na edição 481

Como o leitor já pôde reparar, o site do Monitor de Mídia mudou mais uma vez. As modificações são visuais e atingem também parte do conteúdo que oferecemos. Na aparência, o site fica mais enxuto, mais direto e rápido. Em termos de cores, passamos do azul suave a um bordô vibrante e robusto, seguindo o novo padrão das páginas eletrônicas linkadas ao Portal Univali. A adoção desse novo desenho de página dá unidade aos muitos conteúdos do portal e reforça uma mesma identidade gráfica.

O leitor vai perceber também que ficou mais fácil navegar pelo Monitor de Mídia. Simplificamos o menu e limpamos o espaço de leitura, de forma a valorizar ainda mais os textos publicados. Por falar em textos, a partir desta edição, reorientamos nossos esforços para a elaboração de reportagens multimídia e para os diagnósticos de mídia. Com isso, não mais alimentaremos com novos textos as seções fixas do site. O objetivo é fixar a produção da equipe na experimentação de linguagens no jornalismo e na análise e pesquisa científica, as vocações mais imediatas do Monitor de Mídia.

O leitor perde com isso? Não. Na verdade, ganha. Ganha porque a equipe vai se dedicar mais concentradamente na observação da mídia e no jornalismo que busca a excelência técnica. O leitor também ganha porque os mais de duzentos textos que recheiam as extintas seções do site vão se converter em livros temáticos a serem disponibilizados muito em breve. A idéia é sistematizar os conteúdos dispersos, organizá-los e editá-los na forma de e-books, livros eletrônicos que poderão ser baixados gratuitamente. Com isso, o leitor terá acesso a um material mais bem acabado, reunido por temas e num formato mais cômodo para a leitura.

Uma orientação básica guia a equipe do Monitor de Mídia nesta nova fase: menos é mais. Em nossa redação, a expressão ‘menos é mais’ virou uma espécie de mantra. Mais do que um slogan, a curta frase encerra em si um programa de trabalho: concentramos esforços para facilitar as coisas para o leitor, com o objetivo de oferecer um site com simplicidade, agilidade e conteúdo altamente confiável. Trabalhamos muito para que o leitor tenha menos trabalho por aqui.

Numa época em que o problema da informação não é acessá-la, mas selecionar o que interessa, o que buscamos é contribuir para que o público chegue mais rápido à satisfação de suas demandas. ‘Menos é mais!’ é uma frase curta, mas dá um trabalho!

***



O desenvolvimento no espaço opinativo catarinense

Os jornais deixaram há muito tempo de ser a fonte exclusiva de informação. Os adventos do rádio e da televisão não foram suficientemente fortes para comprometer o futuro do jornalismo impresso, mas a adesão da internet consolidou este risco na atualidade. Um dos caminhos discutidos por jornalistas e estudiosos da comunicação, que visa evitar essa possibilidade de extinção, se pauta na capacidade dos jornais oferecerem ao público visão, cobertura e abordagem diferenciadas dos outros meios. O jornalismo opinativo não é, historicamente, uma saída para a crise que se vive atualmente, mas figura como um dos grandes trunfos e diferenciais do jornal impresso, uma tendência explorada nos jornais catarinenses.

A opinião e o jornalismo possuem uma relação intrínseca. Ela pode ser resultante do trabalho de um levantamento de informações pelo repórter, ou mesmo o mecanismo utilizado pelo jornal para expor o seu posicionamento diante dos mais variados fatos. Luiz Beltrão afirma que

o jornal tem o dever de exercitar a opinião: é ela que valoriza e engrandece a atividade profissional, pois quando expressa com honestidade e dignidade, com a reta intenção de orientar o leitor (…) se torna fator importante na opção da comunidade pelo mais seguro caminho à obtenção do bem-estar e da harmonia do corpo social (1980, p. 14).

Opinar consiste em expor juízo ou posicionamento sobre determinado assunto após adquirir informação suficiente sobre ele. Dar opiniões é algo inerente ao ser humano e, para Beltrão, é também função vertical do jornalismo, uma vez que a informação é a matéria-prima do jornalismo e a base formadora de opinião.

Mesmo havendo imposição editorial por parte do(s) proprietário(s) do veículo, o posicionamento do jornalista à disposição da empresa poderá ser encontrado em cada etapa da edição, seja no próprio espaço opinativo do jornal ou nas reportagens (já que cabem ao jornalista algumas decisões desde a escolha da pauta à hierarquização do conteúdo publicado). Os jornais possuem, ainda, os denominados opinantes profissionais: comentaristas ou cronistas de política, economia, esporte, variedades, sociedade, entre outros.

O espaço opinativo

Este Monitor de Mídia analisou durante uma semana, de 03 a 09 de março de 2008, o espaço opinativo dos três principais jornais do estado – A Notícia, Diário Catarinense e Jornal de Santa Catarina – com a finalidade de verificar quais foram os temas mais pautados pelos colunistas e articulistas e se estes expõem com clareza e evidência a sua opinião nos assuntos abordados. Foram desconsiderados os editoriais, os espaços dedicados à opinião do leitor e as charges. Houve a preocupação, por parte deste grupo, em identificar temas ligados aos 8 Objetivos do Milênio propostos pela Organização das Nações Unidas (ONU): acabar com a fome e a miséria; educação básica de qualidade para todos; igualdade entre sexos e valorização da mulher; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde das gestantes; combater a aids, a malária e outras doenças; qualidade de vida e respeito ao meio ambiente; todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento.

O foco dos jornais, no espaço opinativo, foi amplo, mas os assuntos aproximaram-se mais pela relevância social que carregam do que por um perceptível esforço de redação. Salvo em casos em que a abordagem dos temas era exclusivamente individual (moda, cinema, música, etc), foi dada visibilidade à grande parte das temáticas mais urgentes em nosso país de forma coletiva.

Educação, um dos 8 Objetivos do Milênio, foi o assunto mais abordado nos artigos e textos de opinião no período analisado, e discutiu-se principalmente qualidade e acesso a ela. Política e Economia foram os segundos temas mais pautados nos artigos publicados, que tiveram, entre os já citados, mais oito temas desenvolvidos: Administração Pública, Ciência, Trânsito, Comportamento, Direito, Gênero e Meio Ambiente (estes dois últimos também presentes na lista dos oito jeitos de mudar o mundo recomendados pela ONU).

O artigo como gênero opinativo

Segundo Marques de Melo, (2003), o termo artigo pode ser empregado de duas maneiras. O público, geralmente, denomina grande parte dos textos veiculados pela imprensa como artigo, mas, para os próprios veículos, ele compõe um gênero particular dentro da produção. Escritos por jornalistas ou por pessoas com as mais diversas profissões, eles são textos nos quais se desenvolvem idéias e se apresentam opiniões.

Os textos analisados nos jornais, de uma forma geral, foram de fácil compreensão e trouxeram, dentro dos temas propostos, questões que buscam por soluções na sociedade, como ocorre com a aprovação da Lei de Biossegurança, a corrupção e a degradação do meio ambiente. Dada esta variedade de temas, cabe colocar o conceito que Vivaldi, (apud Marques de Melo, 2003, p. 122), define da seguinte forma ao artigo jornalístico, especialmente da maneira como ele existe no Brasil: ‘de conteúdo amplo e variado, de forma diversa, na qual se interpreta, julga ou explica um fato ou uma idéia atual, de especial transcendência, segundo a conveniência do articulista’.

Dentro dessa abordagem, ainda de acordo com Vivaldi (op.cit), fica possível apontar dois elementos presentes nos artigos que são a atualidade – quando quem escreve deve se pautar em assuntos que remetem ao período histórico vivido –, e opinião – quando o posicionamento do autor associa-se, diretamente, a sua opinião, ou seja, as pessoas procuram por ele em particular para saberem suas apreciações.

A maneira como os artigos são tratados – fatos, idéias e argumentação – faz deles uma especialidade do jornalismo impresso. O fato deste estilo de texto ouvir a opinião de outros setores da sociedade, saindo da esfera jornalística, figura como uma das maneiras mais eficazes de democratizar a opinião, já que ela deixa de ser apenas um privilégio dos profissionais da comunicação. Assim sendo, a coerência das opiniões e juízos publicados deve estar ao encontro do compromisso que o jornalismo assume, sejam eles escritos por jornalistas, médicos, economistas etc.

A coluna jornalística: informação em primeira mão

Para Marques de Melo (2003), colunas são seções especializadas presentes em jornais e revistas, com publicação regular, assinadas e redigidas de modo mais livre ou pessoal. Estruturalmente, elas são uma espécie de mosaico de várias informações. De acordo com Bond (1962), as colunas surgiram no século XIX, dentro da imprensa norte-americana, quando houve a necessidade de se elaborar textos com personalidade. Consolidam-se no Brasil apenas do século XX, na década de 50, e os novos espaços possuíam, além de informações, impressões pessoais de quem os escrevia. A peculiaridade da coluna, no entanto, não se dá apenas pelo fato dela conter o julgamento dos escritores. A descoberta e divulgação de furos, que cabia ao jornalismo impresso antes do surgimento do rádio e da televisão, é hoje uma de suas funções e, ainda, as colunas desempenham o papel de guiar a opinião dos receptores.

Apesar da mesma natureza teórica, as diferenças entre as colunas analisadas neste diagnóstico – desconsiderando-se o tema – são facilmente percebidas, principalmente na argumentação adotada por cada colunista. As colunas de economia trouxeram, com freqüência, os investimentos e faturamentos das empresas estaduais que, de alguma maneira, têm se destacado no quadro da economia (a indústria têxtil é uma das que mais aparece). A questão tributária, o recente evento de moda ocorrido em Florianópolis (Floripa Fashion Donna DC) e o preço do petróleo e do gás também tiveram bastante visibilidade. As colunas, todavia, limitaram-se à descrição dos dados, foi raro observar argumentação ou opinião exposta. É o caso de Estela Benetti (Diário Catarinense), Cláudio Loetz (A Notícia) e Rafaela Martins (Jornal de Santa Catarina). O destaque nesse gênero é, mais freqüentemente, a informação privilegiada.

Colunas de um só esporte

Nas colunas esportivas, a variedade de assuntos é menor, mas, apesar disso, os colunistas expõem de maneira clara o seu posicionamento diante dos acontecimentos. Eles se mantiveram pautados quase que exclusivamente no futebol, como já havia apurado o Monitor de Mídia no diagnóstico ‘Jornais catarinenses vestem a camisa no futebol‘. Cada colunista trouxe, principalmente, notícias do time de sua região (Avaí e Figueirense no Diário Catarinense; Joinville no A Notícia e Metropolitano no Jornal de Santa Catarina). Quando o assunto é rivalidade entre atletas, torneios, alto preço dos ingressos ou investimentos na área esportiva, a modalidade por trás disso também é o futebol. A questão dos árbitros e sua divergência com jogadores e técnicos, assim como a violência dos estádios, foi muito comum nos jornais, mas o protagonismo da semana analisada ficou com o caso da bomba doméstica largada no jogo do Avaí x Criciúma.

As colunas políticas figuram como um meio termo entre as duas anteriores: economia e esportes. Aproximando-se das colunas de economia pela diversidade de assuntos, os colunistas políticos, por outro lado, se parecem com os esportivos pela clara presença de suas impressões nos texto que escrevem. Os casos mais relatados associam-se às Eleições 2008, Políticas Públicas em SC, os Investimentos do governo Lula no estado. Mudanças administrativas e sindicais em todos os setores, CPI das ONGs, greve dos professores, irregularidades cometidas por políticos, a duplicação da BR-101 trecho sul e, finalmente, a questão da Colômbia, Venezuela e Equador, também estiveram entre os temas mais citados. A linha argumentativa dos colunistas varia bastante. Moacir Pereira (DC e Santa), Cláudio Prisco (AN) e Roberto Azevedo (DC), por exemplo, sustentam seus textos de formas distintas entre si. Pereira traz uma menor quantidade de assuntos em sua coluna, mas, em contra partida, expõe seu posicionamento de uma maneira mais clara – ou menos sutil – que Prisco e Azevedo.

Coluna social – herança coronelista

O caso das colunas sociais é singular nos jornais de todo o país. Se encontramos por vezes apenas uma reunião de futilidades e mexericos, esta, segundo Gilberto Freyre, é característica social do povo brasileiro. Mas, em alguns poucos bons exemplos, o colunismo social assume ares do novo espaço detentor do furo jornalístico, papel desempenhado anteriormente pelas manchetes dos jornais. Estas, se tornaram apenas repetição do conteúdo eletrônico do dia anterior. Para Marques de Melo (2003), esta característica é única no Brasil, onde, por influência de nossa formação social, os mesmos freqüentadores das altas rodas sociais também circulam pelos gabinetes que decidem os rumos do país. Em nosso exame, encontramos uma coluna que se assemelha a essa descrição: é o espaço de Raul Sartori, em A Notícia, que mistura informação privilegiada, de bastidores, com as notícias da classe A catarinense.

É considerável, ainda, o número de colunas diárias assinadas que trazem, a cada edição, um assunto diferente. É o caso de Luiz Carlos Prates, Sérgio da Costa Ramos, ambos do DC, César Zillig, do Jornal de Santa Catarina, entre outros. O tema mais corriqueiro foi o Comportamento humano, os Vícios e virtudes da personalidade das pessoas. Educação e a condição feminina, em virtude da passagem do dia da mulher, foram temas também explorados.

Pela análise deste diagnóstico de mídia, pode-se considerar que os espaços opinativos cumprem, de certa forma, o papel destinado a eles: a condução de opinião pública e o preenchimento de um espaço que ficou vago com a formatação do texto jornalístico em um padrão que se pretende objetivo. A presença constante dos ODM em sua temática e a linguagem de fácil compreensão adotada são indicativos de um papel de transformação social efetivo adotado pelos jornais. Fica, porém, a impressão de que falta uma direção mais sistemática para essa temática que, muitas vezes, apenas acompanhou o calendário.

Referências

BELTRÃO, Luiz. Jornalismo Opinativo. Porto Alegre: Sulina, 1980.

BOND, Fraser. Introdução ao Jornalismo. Rio de Janeiro:Agir, 1962.

MARQUES DE MELO, José. Jornalismo Opinativo. São José dos Campos: Mantiqueira, 2003.

Jornais analisados: A Notícia, Diário Catarinense e Jornal de Santa Catarina – período de 03 a 09 de março de 2008.

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