Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1025
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Quando o diploma fazença

Por Ana Paula Bravo em 07/07/2009 na edição 545

A discussão sobre o fim da obrigatoriedade do diploma está sendo observada pelos olhares das metrópoles e seus metropolitanos. Nesses lugares, ainda é possível (sabe-se lá até quando!) encontrar cidadãos bem preparados, vindos de excelentes universidades, independente do curso superior que fizeram.

Nos grandes centros, como no Rio e São Paulo, também Belo Horizonte e Brasília, é possível encontrar cidadãos com acesso livre à cultura, onde grandes mostras e espetáculos são assistidos gratuitamente, muitas vezes a céu aberto, em ruas, praças e praias, pela galera com ou sem diploma (de ensino fundamental, médio ou superior).

Lá também é comum entre ‘as gentes’ um bom debate político-econômico-socio-cultural em qualquer botequim da esquina. Ainda que seja sobre o último capítulo da novela das 8 ou a última partida do campeonato de futebol. As pessoas discutem Sociologia assim: esperando o ônibus no ponto, o pão na padaria, a ‘cerva’ gelada no boteco da esquina, a parada do trem do metrô.

Assessora ‘política’

Longe de querer questionar a capacidade e a qualidade do trabalho jornalístico de vários colegas desde há muito tarimbados na área (cito aqui os queridos Ivair Lima, Carlos Brandão, entre tantos outros, com os quais aprendi muito nas redações de Goiás), é preciso ter em mente que nem todo mundo ‘nasce’ com esse talento, com o jornalismo nas veias e um instinto investigativo, que busca incessantemente pela verdade, aliado a uma boa escrita e adestrado a um mínimo de técnica que exige a profissão.

Infelizmente, o que assistimos fora dos grandes centros é uma multidão de analfabetos funcionais que se auto-intitulam donos de jornais e jornalistas práticos, mas que mal sabem identificar onde está a notícia, quais seus desmembramentos e, muito menos, a relevância de tais fatos para a sociedade.

Nas últimas eleições, em 2008, fiz a minha estréia (e despedida!) como assessora de imprensa ‘política’ na campanha de um candidato a prefeito de um município a 30 km de Goiânia. Correto e comprometido com a população de sua cidade, via nele uma enorme capacidade para fazer diferença realmente na vida do seu povo. Infelizmente, ele perdeu as eleições. Pena para o povo que, no fim, tem sempre o governo que merece.

‘Arranjem uma prova’

A meu ver, no entanto, várias estratégias de ‘marketing-político’ utilizadas pelos ‘jornalistas sem-diploma’ locais levaram o meu candidato à derrota. Para citar apenas uma, conto aqui a história do filho do prefeito que frequentava bordel.

No auge da campanha, chego logo depois do almoço à cidade. Encontro a galera do comitê em polvorosa: foram divulgadas fotos do filho do prefeito (o atual) mantendo relações sexuais com uma bela moça dita de ‘vida fácil’.

Assim que cheguei, me enfiaram as fotos nariz abaixo, exigindo que eu fizesse uma matéria. Argumentei com os ‘sem-diploma’: ‘Ele pagou o programa com dinheiro da prefeitura? Se pagou, ponho a matéria no Jornal Nacional. Arranjem uma prova disso, uma cópia de cheque, uma nota promissória, qualquer coisa que relacione a prefeitura ao fato. Caso contrário, não temos nada com isso. Ele é um rapaz novo, saudável, solteiro e ninguém tem nada a ver com a vida dele. Em vez de derrubar o pai (o então prefeito), estaremos fazendo propaganda da fama de garanhão do moço, que, cá pra nós, `tava pegando um mulherão!’

Uma diferença fundamental

Até hoje não vi cheque ou qualquer documento que comprovasse o uso do dinheiro público nas aventuras sexuais do rapaz. No entanto, no dia seguinte, ao voltar à cidade, os ‘sem-diploma’ já haviam mandado fazer cópias e cópias das fotos ‘pornô-políticas’ e distribuído o material pela cidade.

É com comportamento assim que devemos nos preocupar!

É claro que ética você tem ou não tem, independente do seu ofício, nível social, cultural ou acadêmico. Há vários letrados, inclusive magistrados, que não a têm!

Como disse Marilena Chaui, filósofa e professora da Faculdade de Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH), ‘ética é não tratar o `outro´ como `coisa´’. Para quem não consegue nascer com a ética no DNA, passar por uma universidade, ler grandes autores e pensadores, ter contato com diversas culturas e opiniões, pode ser uma diferença fundamental na vida e na profissão de qualquer pessoa, principalmente, na do jornalista.

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Jornalista, Goiânia, GO

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