Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

DIRETóRIO ACADêMICO > ANOS FHC

‘Quanto pior, melhor’

Por Eduardo Guimarães em 26/06/2007 na edição 439

‘Quanto pior, melhor’ era a expressão amplamente difundida pela imprensa tucana na época em que o PT era oposição e o PSDB, governo. A imprensa toda repercutia o tempo todo a afirmação de que o PT fazia denúncias de corrupção contra o governo FHC por achar que quanto pior ficasse o país, melhor seria para a oposição, e a forma de conseguir que piorasse seria gerar crises políticas, que, àquele tempo, faziam a bolsa cair e o dólar disparar.

Veículos de comunicação como os jornais O Estado de S.Paulo, O Globo ou revistas como a Veja, ou tevês como a Globo, além de reproduzirem a teoria tucana sobre Lula ser partidário do ‘quanto pior, melhor’, endossavam essa crítica do governo à oposição. Esses veículos faziam isso inclusive em editoriais e em opiniões manifestadas por ‘analistas políticos’. Outros veículos, tais como a Folha de S.Paulo, repercutiam sistematicamente a teoria da oposição, mas evitavam endossá-la, sem, no entanto, divergir dela como o jornal diverge hoje – porém, eventualmente, a própria Folha endossava a teoria, inclusive em editoriais. 

Não tenho acesso aos arquivos do Estadão ou da Veja ou do Globo para garimpar textos deles que mostrariam quanto esses veículos manifestaram opinião própria endossando a teoria que hoje tanto combatem, de que as denúncias de corrupção da oposição têm ‘objetivos políticos’, descredenciando tais denúncias in limine. Tenho acesso aos arquivos da Folha, por ser assinante do UOL, e repasso aqui notícias que mostram durante quanto tempo – e com que intensidade – aquele jornal deu espaço para os partidários de FHC e para o próprio no sentido de que se fixasse a teoria do ‘quanto pior, melhor’ na cabeça do público, e que mostram que o jornal não defendia a tese que defende hoje com tanto ardor, de que o denuncismo das oposições é correto, e que, por isso, o jornal o adota, sendo autor de um número de denúncias contra o governo Lula que, apesar de serem feitas em mesmo volume pela oposição petista na época em que FHC governava, eram sempre tratadas, no mínimo, com reserva pelo veículo.

A teoria de que fazer denúncias de corrupção contra o governo era apostar no ‘quanto pior, melhor’ começou a ser difundida pela mídia tucana em 1994 e atravessou os anos sendo martelada por ela. A Folha, então, quase sempre repercutia, repercutia, mas sem se comprometer muito, porém cometendo deslizes como em artigo de opinião de Gilberto Dimenstein naquele ano, que dava razão a tal teoria, ou em artigo de Clóvis Rossi, que ficava em cima do muro mas repercutia e repercutia que a imagem do oposicionista e então candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva era a de apostar no ‘quanto pior, melhor’.

***

Folha de S.Paulo, 18/05/94
FHC desafia Lula para debater Plano Real
Editoria: BRASIL Página: 1-9
Edição: Nacional MAY 18, 1994
Primeira: Chamada
Arte: CHARGE
Chapéu: ESTRATÉGIA DE CAMPANHA
Selo: ELEIÇÕES GERAIS
Assuntos Principais: ELEIÇÕES 94; CANDIDATO

‘(…) FHC pretende se firmar como o candidato que aposta no otimismo, na derrubada da inflação, enquanto Lula, segundo a tese dos tucanos, seria o do ‘quanto pior, melhor’. Mostrando uma sintonia de discurso, a expressão ‘quanto pior, melhor’ foi usada ontem pelo presidente do PFL, Jorge Bornhausen, para definir Lula (…)’.

Folha de S.Paulo, 06/07/94
Petistas vão defender estabilização da economia
Autor: CARLOS EDUARDO ALVES
Editoria: BRASIL Página: 1-5
Edição: Nacional JUL 6, 1994
Da Reportagem Local

‘O PT decidiu que continuará com o discurso crítico em relação ao Plano Real, mas a partir de agora ressalvará que não é contra a estabilização econômica do país. A ênfase para negar que aposta no ´quanto pior, melhor` foi adotada depois que a cúpula do partido examinou os últimos movimentos da campanha de Fernando Henrique Cardoso (PSDB)’.

Folha de S.Paulo, 16/07/94
Fernando Henrique virou favorito
Autor: GILBERTO DIMENSTEIN
Editoria: OPINIÃO Página: 1-2
Edição: Nacional JUL 16, 1994
Seção: BRASÍLIA

‘(…) Se o PT bate no plano [Real], abre espaço para ser acusado de optar pela tática do ´quanto pior, melhor` – o que é péssimo ao eleitor, que não suporta mais tanta instabilidade’.

Folha de S.Paulo, 05/09/94
PT usa imagens de Ricupero na TV
Autor: CARLOS MAGNO DE NARDI
Editoria: CADERNO ESPECIAL Página: ESPECIAL-5
Edição: São Paulo SEP 5, 1994
Partido veicula no horário gratuito eleitoral trechos da conversa entre ex-ministro e jornalista da Globo
CARLOS MAGNO DE NARDI
Da Reportagem Local

‘O candidato Fernando Henrique Cardoso usou o horário eleitoral gratuito de ontem para rebater críticas de que o governo federal estaria favorecendo sua candidatura. Segundo o candidato tucano, seus adversários continuam apostando no ´quanto pior, melhor` ‘.

Folha de S.Paulo, 01/10/94
Beijos ou algo mais?
Autor: CLÓVIS ROSSI
Editoria: OPINIÃO Página: 1-2
Edição: Nacional OCT 1, 1994
Seção: SÃO PAULO

‘(…) No caso de Lula, um dos mais óbvios motivos de suas dificuldades é a imagem de ´quanto pior, melhor` que se associou [a ele], justa ou injustamente(…)’

***

Viram a isenção de Rossi? Que diferença de hoje, não?

Vamos em frente. Agora estamos em 1997, ano anterior à reeleição de FHC, no qual foi aprovada a emenda, e no qual a Folha denunciou a compra de votos para a reeleição do tucano divulgando transcrição de gravações que mostravam deputados do PFL do Acre confessando que haviam vendido seus votos favoráveis à emenda da reeleição para Sergio Mota, então ministro das Comunicações de FHC. Contudo, o jornal abandonou o caso em tempo recorde: dois meses. Que diferença de hoje, quando as denúncias da Folha contra o governo Lula perduram por anos.

***

Folha de S.Paulo, 29/11/97
FHC critica aposta no fracasso do Real
Origem do texto: Da Agência Folha em Belo Horizonte
Editoria: BRASIL Página: 1-8 11/13912
Edição: Nacional Nov 29, 1997

‘(…)’Não por acaso, a oposição se dividiu. Os partidos de maior expressão _PT, PPS e PSB_ parecem estar inclinados a colocar a estabilidade como valor essencial e prioritário. O PDT e o PC do B não se revelam dispostos a seguir o mesmo caminho. Cedo ou tarde, descobrirão o erro de apostar na velha teoria do ´´quanto pior, melhor´´. Contudo a atitude não deixa de preocupar(…)’.

Folha de S.Paulo, 04/11/97
Crash acaba em filme ´O Especulador do Futuro´
Autor: ARNALDO JABOR
Origem do texto: Da Equipe de Articulistas
Editoria: ILUSTRADA Página: 4-9 11/1594
Edição: Nacional Nov 4, 1997

‘(…) O crash pode ser bom para injetar no FHC mais militância e imaginação. O crash é bom também para vermos a escrotidão da oposição do ´quanto pior, melhor` (…)’.

Folha de S.Paulo, 24/07/97
AMEAÇA DE ANARQUIA
Editoria: OPINIÃO Página: 1-2 7/11642
Edição: Nacional Jul 24, 1997
Seção: EDITORIAL

‘(…) Esses segmentos da [oposição de] esquerda [encabeçada pelo PT] aumentam inadvertidamente o caldo da cultura da ilegalidade e apostam no ´´quanto pior, melhor´` como forma de ação política’.

Folha de S.Paulo, 16/06/97
Coalizão dos sem-barriga
Autor: JOSÉ SERRA (colunista da Folha)
Editoria: OPINIÃO Página: 1-2 6/7806
Edição: Nacional Jun 16, 1997

‘(…) A oposição [encabeçada pelo PT] permanece apegada à visão do mundo como ele era há três décadas; é prisioneira do corporativismo da área pública; tem ojeriza à política do mundo real e é pautada pelo comportamento do ´quanto pior, melhor` (…)’.

***

1998, ano de eleição presidencial. Continua a lavagem cerebral da imprensa no sentido de fixar na mente do eleitorado a teoria do quanto pior melhor.

Folha de S.Paulo, 06/09/98
Empresários não vêem ameaça
Autor: ANTONIO CARLOS SEIDL
Origem do texto: Da Reportagem Local
Editoria: CADERNO ESPECIAL Página: Especial-2 9/2412
Edição: Nacional Sep 6, 1998

‘O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha de São Paulo, Ingo Ploger, disse que FHC ganha com a crise porque o PT está completamente equivocado em apostar no ´quanto pior, melhor` ‘.

Folha de S.Paulo, 24/08/98
Editoria: BRASIL Página: 1-4 8/10185
Edição: Nacional Aug 24, 1998
Seção: PAINEL

‘Quanto pior, melhor

Em reunião ontem no Alvorada, o conselho político de FHC concluiu que Lula cometerá um erro se usar a crise das bolsas contra o tucano. O efeito seria o oposto: se a crise se agravar, será mais fácil vender FHC como o único capaz de enfrentá-la’.

Folha de S.Paulo, 08/08/98
Mal secreto
Autor: MARIO AMATO
Editoria: DINHEIRO Página: 2-2 8/2964
Edição: Nacional Aug 8, 1998
Seção: ARTIGO

‘(…) O que a sociedade recusa é a oposição que somente perturba, que se escuda na falsa lógica do ‘quanto pior, melhor’, para alcançar os seus objetivos (…).

Folha de S.Paulo, 01/08/98
Lula comete gafe e defende desemprego
Autor: PATRÍCIA ANDRADE
Origem do texto: Da Reportagem Local
Editoria: BRASIL Página: 1-6 8/205
Edição: Nacional Aug 1, 1998

‘Depois da gafe, Lula esforçou-se para explicar sua declaração, numa tentativa de fugir do estereótipo do político que abraça a tese do ‘quanto pior, melhor’.

Folha de S.Paulo, 01/07/98
Editoria: BRASIL Página: 1-6 7/128
Edição: São Paulo Jul 1, 1998

‘Mario Amato, 79, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – ´´Tínhamos uma inflação galopante, não temos mais bandalheira, temos pessoas do melhor coturno administrando o Brasil. Isso tudo se deve ao Plano Real. É verdade que os empresários estão passando dificuldades, mas isso é no mundo inteiro. Os negócios aumentaram, mas os lucros diminuíram. É preciso ter espírito de brasilidade e não pensar que quanto pior, melhor’

Folha de S.Paulo, 25/02/98
Autor: CAIO LUIZ DE CARVALHO
Editoria: OPINIÃO Página: 1-3 2/12984
Edição: Nacional Feb 25, 1998

‘(…) Queiram ou não os que apostam na tese do ‘quanto pior, melhor’ [os petistas], amargurados diante dos primeiros resultados das ações implementadas a partir de 1994, a captação de turistas estrangeiros expandiu-se 70% entre 1993 e 1996 (…)’

***

Em 1999, o país havia quebrado depois de FHC vencer a eleição do ano anterior negando as acusações de seu oponente Lula, de que o país quebraria no ano seguinte e que o tucano teria que fazer uma maxidesvalorização do real, o que de fato ocorreu dois meses depois da eleição. Apesar disso, a mídia continuava batendo forte na tecla do ‘Quanto pior, melhor’.

***

Folha de S.Paulo, 23/10/1999
Autor: ALOYSIO NUNES FERREIRA
Editoria: OPINIÃO
Página: 1-3 10/8853
Edição: Nacional Tamanho: 4629 caracteres
Oct 23, 1999
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES

‘(…) Tem-se agido com muita leviandade, a partir de um discurso sem compromissos, na base do ´Quanto pior, melhor` ‘.

Folha de S.Paulo, 27/09/1999
Autor: FERNANDO CANZIAN
Origem do texto: Editor de Brasil
Da Reportagem Local
Editoria: BRASIL
Página: 1-6 9/10497
Edição: Nacional
Seção: ENTREVISTA DA 2ª

Pergunta da Folha a Ciro Gomes: ‘O sr. concorda com a tese de que quanto pior, melhor para sua candidatura?’

Folha de S.Paulo, 31/08/1999
Romper o sítio
Autor: ALBERTO GOLDMAN
Editoria: OPINIÃO 
Edição: Nacional
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES

‘(…) Junto com essas forças e, às vezes, como seus porta-vozes, os grupos de oposição política, jogando no quanto pior, melhor’.

Folha de S.Paulo, 28/05/1999
Origem do texto: Da Sucursal de Brasília
Editoria: BRASIL
Edição: Nacional 

‘Os que participam desses ataques, em vez de juros menores e, portanto, de mais consumo, de mais produção, de mais investimento e de mais empregos, parecem preferir justamente o contrário. Apostam no quanto pior, melhor´´

Folha de S.Paulo, 27/02/1999
Editoria: BRASIL Página: 1-4
Edição: Nacional
Seção: PAINEL; TIROTEIO

‘Lula e Zé Dirceu estão contrariados com Tarso Genro, que apresentará proposta formal ao Diretório Nacional do PT, neste fim-de-semana em SP, para o partido liderar campanha pela renúncia de FHC. Acham que Genro reforça o carimbo de uma sigla irresponsável e que aposta no quanto pior, melhor´´

***

A partir do primeiro ano do segundo governo de FHC, com a quebra de milhares de empresas, perda de milhões de empregos, aumento da pobreza, da violência urbana, da desigualdade, efeitos deletérios gerados pelo colapso da fantasia do real ‘forte’, a direita tucana e a mídia, que em 1998 haviam endossado em uníssono a acusação de que Lula falava que o país ia quebrar e o real se desvalorizar depois das eleições porque era adepto do ‘Quanto pior, melhor’, tucanos e mídia entraram num processo acelerado de desmoralização que levaria à eleição de Lula três anos depois, ao fim do segundo mandato dos tucanos na Presidência da República.

Pessoas honestas e com um resquício de memória, diante de tudo o que acabo de demonstrar, deveriam se render ao fato de que mídia, na época em que os tucanos eram governo, fazia o oposto do que faz hoje, ou seja, criticava a oposição em benefício do governo, alegando que ela pedia CPIs (que dificilmente eram instaladas, até por pressão da própria mídia) porque queria que denúncias e investigações atrapalhassem o governo e desestabilizassem o país. Quanta diferença de hoje, não?

******

Comerciante, São Paulo, SP; http://edu.guim.blo.uol.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/06/2007 Ivan Moraes

    Os confiscos do dinheiro? As taxas? As arbitrariedades governamentais, judiciarias? A inseguranca? O medo, repressao? O desaparecimento do dinheiro de um pais inteiro? Tudo que aconteceu no Brasil aconteceu antes nos EUA, e levou aa Segunda Grande Guerra na Europa, que eventualmente envolveu os EUA tambem. A ideia dos bancos internacionais era levar a America Latina a uma guerra controlada e existem milhares de pequeninissimas pistas disso espalhadas em todo o mundo. Chavez soube disso (embora esteja acusando os EUA). Porque os brasileiros nao podem saber?

  2. Comentou em 28/06/2007 Ivan Moraes

    Os confiscos do dinheiro? As taxas? As arbitrariedades governamentais, judiciarias? A inseguranca? O medo, repressao? O desaparecimento do dinheiro de um pais inteiro? Tudo que aconteceu no Brasil aconteceu antes nos EUA, e levou aa Segunda Grande Guerra na Europa, que eventualmente envolveu os EUA tambem. A ideia dos bancos internacionais era levar a America Latina a uma guerra controlada e existem milhares de pequeninissimas pistas disso espalhadas em todo o mundo. Chavez soube disso (embora esteja acusando os EUA). Porque os brasileiros nao podem saber?

  3. Comentou em 27/06/2007 Ivan Moraes

    Como eh que se explica que uma mineradora inglesa ‘investe’ 130 milioes de dolares ‘em Minas’ e termina exportando 3 MILIOES DE TONELADAS de minerio por ano? Quanto custou essa mineracao, 65 centavos? AOnde esta o dinheiro? Alem do mais, todos os paises ocidentais teem ‘profecia’ urbana correndo solta a respeito de 2012. Eh pra 2012 que o grande crash da bolsa de valores mundial esta programado? Pequena caida em 2009, crash mundial em 2012, eh assim que foi programado? Porque os ingleses estariam ‘pagando’ pelos ‘servicos’ que a Amazonia fornece ‘ao mundo’ quando o Brasil exporta ate as calcas e ninguem ve dinheiro algum? E porque os ingleses? Nos nao estavamos todos pensando que eram os americanos no final das contas? As, mas os americanos tambem devem ate as calcas ao sistema bancario mundial, nao eh?

  4. Comentou em 23/04/2007 Rogério Delamare Ruas Ruas

    Prezados;
    Morei alguns anos no Rio de Janerio e há um ano retornei a Minas Gerais, espcificamente a Belo Horizonte.

    O que me chama a atenção é que as grandes questões que são colocadas como graves em São Paulo e Rio de Janeiro em Minas sequer ouvimos comentar.

    Me chamou a atenção quando vi em uma apreseentação da Secretaria adjunta de planejamento do estado que em Minas se gasta mais em Segurança do que em educação. O que fico impressionado é o gau de normalidade com que as pessoas vêem isso.

    O sentimento é como se vivessemos em uma ilha e que tudo que se faz de certa forma é possível ser controlado pelo estado. Ano passado os fornecedores de alimentação do sistema prisional chegaram a ficar sete meses sem receber pagamento e nada foi comentado.

    Nesta semana passada, policia esteve aquartelada e agora sabe-se que o governador sairá de licença para tratamento de saude e nada da midia comentar. Bravo, viu!!!

    Sabe-se que os onvestimentos na saude ficaram abaixo do que estabelece a lei, a educação está o caos, no meu bairro escola está sob intervenção e com quem falo é como se estivesse tudo na mais perfeita normalidade.

    E a lista de furnas que por aqui todos sabem da sua existencia e a midia silencia.

    Que tempo é este que estamos vivendo, a situação fica mais dificl e os indices de popularidade aumentam!!!

    Ufa!!! que desabafo.

    Abraços

    Rogério Delama

PRIMEIRAS EDIçõES >

Quanto pior, melhor

Por lgarcia em 20/09/2000 na edição 98

JORNALISMO & QUALIDADE

Cláudio Weber Abramo

Como todos sabem, o predomínio do marketing sobre todas as outras coisas iniciou-se há uns quinze anos. Até essa época, o marketing das empresas, quando existia, era subsidiário: vendia os produtos que outras áreas definiam.

Para que tal metamorfose pudesse ter se concretizado, foi necessário proceder a uma alteração profunda de crenças e valores. Na base de tudo, o significado de uma única palavra: "qualidade". Compreende-se, pois no coração mais íntimo da concorrência capitalista está o binômio preço-qualidade.

Antes do dilúvio, "qualidade" significava "conformidade ao projeto". Um produto (um parafuso, um avião) tinha tanto mais qualidade quanto menos se desviasse das especificações que haviam sido planejadas para ele. Pesquisas de mercado alimentavam decisões sobre quais produtos fazer e como seriam configurados, mas tais dados eram contrapostos a considerações de natureza técnica-conceitual.

O conceito de qualidade entendido como conformidade ao projeto foi substituído pela qualidade enquanto aceitação pelo consumidor: se o consumidor compra um produto, ele é bom; se não compra, não é. Os economistas simpáticos a isso alegam que semelhante transformação semântica aproximou o processo produtivo do funcionamento ideal do mercado.

Por que, para os economistas dessa cor, a coisa deveria funcionar? Porque, para eles, as decisões de compra dos consumidores precisam ser imaginadas como inteiramente racionais: se o consumidor escolheu o produto A e não o produto B, é porque avaliou todas as vantagens e desvantagens relativas de um e outro (incluindo-se suas especificações técnicas, os efeitos secundários e terciários que seu uso pode acarretar e assim por diante) e se decidiu por aquele que lhe trará mais vantagens. O ato de compra é, assim, entendido como ato de avaliação objetiva da coisa comprada. Esse pressuposto é crucial para o liberalismo econômico.

Diferença crucial

Suponhamos, por um instante, um mercado no qual os produtos oferecidos se transformam ao longo do tempo com base no critério de aceitação do mercado. Suponhamos, ainda, que esses produtos evoluam positivamente quanto à durabilidade, versatilidade, adequação às finalidades a que se destinam etc. Acostumado a essa evolução, o consumidor aprende a esperar que, a cada novo ciclo de renovação, os produtos serão melhores (melhores no sentido antigo). O mercado, funcionando.

Mas suponhamos, agora, um outro mercado, com outros consumidores, no qual os produtos oferecidos regridam. A expectativa do consumidor, formada por sua experiência passada, é de que a cada novo ciclo os produtos piorarão. Logo, o consumidor não enxerga nada de mais em produtos e serviços piores que venham a aparecer. Logo, ele compra esses produtos. Logo, estes têm boa qualidade, conforme a nova definição.

Imagine-se agora que este segundo mercado, no qual os produtos pioram na prática (embora melhorem na concepção economística), seja formado por indivíduos mergulhados nas profundezas da desinformação, impotentes ante o poder desmesurado da propaganda, e para os quais o mitológico cálculo atuarial do custo/benefício é ainda mais fantasmagórico.

Imagine-se, numa palavra, o Brasil. Nem falo do Brasil miserável, mas da classe média ignara. Quantos e quantos produtos materiais têm hoje qualidade real muito mais baixa do que no passado? Fiquemos num exemplo simples, entre milhares de outros: o copinho de plástico. Por que o copinho de plástico brasileiro tem espessura insuficiente para manter a forma e fornecer isolamento térmico adequado? Porque, na época do Plano Cruzado, as empresas que os fabricam resolveram enfrentar o congelamento de preços reduzindo a quantidade de matéria-prima empregada para fabricá-los. Como ninguém reclamou, assim ficou. Um produto consumido aos bilhões, portanto de qualidade excelente.

É evidente que, em se tratando de serviços (telefonia, por exemplo) e produtos intelectuais, o fenômeno se dá em grau muito mais intenso. Na melhor das hipóteses, sua especificação é vaga, além de cambiante. Antes da mudança semântica, a qualidade de jornais, livros, revistas era avaliada pelo exercício individual de competências pouco analisadas e compreendidas. Uma determinada responsabilidade ante o público leitor (quando presente, algo que, naturalmente, não se dava em todos os casos) fundamentava decisões. Depois da mudança, esse metro desapareceu, sendo transferido nominalmente para o mercado. Mas será, mesmo, que é assim?

Fechando sobre o jornalismo, que capacidade tem o leitor de avaliar se uma cobertura é melhor ou pior do que outra? Se uma reportagem deveria ter sido feita e outra não? Se o texto informa ou mistifica? Se o entrevistado apareceu lá porque tem algo a dizer ou porque o repórter está mirando alguma vantagem futura ou faz parte de uma camarilha? Etc. etc. etc. Acresce que o hábito de leitura de jornais costuma restringir-se a um único título: o leitor médio sequer tem como comparar produtos. No caso dos veículos de grande circulação, ele nem mesmo exerce uma decisão cotidiana de compra – assina-os uma vez por semestre ou por ano. E, não raro, assina-os porque recebeu brindes, cada vez mais suntuosos (os celulares do Valor, por exemplo).

Em outras palavras, se para uma economia atrasada o mercado é um juiz no mínimo duvidoso, a dúvida não cabe no jornalismo: não é o consumidor que orienta as decisões editoriais, mas o exercício do mesmo arbítrio individual que, antes, era assumido sem vergonhas. Com uma diferença crucial, porém: enquanto antes o princípio era de que o arbítrio profissional se exercia no interesse do público, hoje essa responsabilidade sumiu. O jornalista médio não exerce seu mister com o olho num leitor, mas num "mercado" sem rosto. Conforme frisado incessantemente pela publicidade, esse mercado é movido por afeições, gostos, taras, antipatias, mas não pelo intelecto.

Eis por que, na média geral, o jornalismo brasileiro piorou tanto.

Volta ao índice

Imprensa em Questão – bloco anterior

Imprensa em Questão – próximo bloco

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem