Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

DIRETóRIO ACADêMICO > NEGÓCIOS NA NET

Quem tem medo do Google?

Por The Economist em 04/09/2007 na edição 449

É um caso raro, se não único, uma empresa crescer de modo tão rápido, e tão diversificado, quanto o fez o Google, a mais popular ferramenta de busca do mundo. E isto é verdadeiro praticamente em todos os sentidos: o crescimento em seu valor de mercado e em seu lucro; no número de pessoas clicando em busca de notícias – da pizzaria mais próxima à imagem por satélite do jardim do vizinho; no volume de anunciantes; ou no número de seus advogados e lobistas.

Tal ascensão é suficiente para sugerir preocupações – tanto paranóicas, quanto justificáveis. A lista de pessoas ou empresas que odeiam ou temem o Google cresce semanalmente. Redes de televisão, editoras e donos de jornais entendem que o Google cresceu devido ao uso gratuito que fez de seus conteúdos.

Redes telefônicas como as norte-americanas AT&T e a Verizon se irritaram porque, para elas, o Google prosperou navegando gratuitamente na banda larga que elas provêm; e ainda está em vias de disputar com elas o espectro de rádio digital, numa licitação prestes a ocorrer. Muitas pequenas empresas detestam o Google porque confiaram em explorar fórmulas de buscadores para garantir suas posições no ranking e caíram para o equivalente ao inferno da internet quando o Google beliscou aqueles algoritmos.

E agora é a vez dos políticos. Os anarquistas não gostam dos acordos do Google com os censores da China. Os conservadores resmungam contra seus vídeos não censurados. Mas o grande medo que surge é em relação à privacidade de seus usuários. O modelo de negócios do Google pressupõe que as pessoas confiem nele, oferecendo cada vez mais informações sobre suas vidas, as quais serão armazenadas na ‘nuvem’ de computadores sigilosos da empresa. Essas informações começam com uma lista das buscas feitas pelo usuário (na realidade, um relatório de seus interesses) e suas reações aos anúncios. Muitas vezes, prosseguem com o correio eletrônico do usuário, o calendário, contatos, documentos, planilhas eletrônicas, fotos e vídeos. Poderiam até vir a incluir, em pouco tempo, dados sobre a saúde e a localização exata (através de seu telefone celular) do usuário.

Mais para Morgan do que para Gates

O Google é freqüentemente comparado com a Microsoft (outros inimigo, por falar nisso); mas, na realidade, sua evolução está mais próxima daquela da indústria bancária. Assim como as instituições financeiras cresceram para se tornarem repositórios do dinheiro das pessoas – e, portanto, guardiões de informações particulares sobre suas finanças –, o Google vem se tornando um depositário de uma faixa muito mais abrangente e íntima sobre as pessoas. Sim, e isso procede em relação a concorrentes como o Yahoo! E a Microsoft. Porém, exclusivamente devido à velocidade com que acumula o tesouro da informação, será o Google que irá testar os limites daquilo que a sociedade pode tolerar.

De nada adianta que o Google seja, às vezes, considerado arrogante. É verdade que essa reclamação vem quase sempre de concorrentes menosprezados. Mas muitos outros ficam desconcertados com a presunção da confiança do Google em sua santidade – como se merecesse um crédito inquestionável. Afinal, esta é a empresa que escolheu como lema ‘Não seja maldoso’ e que proclama, explicitamente, como diz seu dono, Eric Schmidt, que sua meta ‘não é ganhar dinheiro’, mas ‘mudar o mundo’. A estrutura de sua propriedade foi projetada para proteger essa visão.

Ironicamente, há algo de nebuloso em relação às inúmeras reclamações sobre o Google. A melhor forma de abordar a questão é dividindo-a em duas: um conjunto de argumentos ‘públicos’ sobre como regulamentar o Google; e um conjunto de argumentos ‘privados’ para os administradores do Google, em relação à estratégia de que necessita a empresa para enfrentar a tempestade que se aproxima. Em ambos os casos – e contrariamente ao que proclama sua propaganda – o Google é avaliado como sendo apenas mais uma ‘malvada’ empresa cata-dinheiro.

Pegue a grana

Isto porque, do ponto de vista público, a principal contribuição das empresas para a sociedade está nos lucros que ela faz – e não, em doações. O Google é um bom exemplo disso. A origem de sua ‘bondade’ tem menos a ver com aquela bobagem sobre altruísmo empresarial do que com a mão invisível de Adam Smith. Oferece um serviço que é considerado muito útil – especificamente, ajudando as pessoas a encontrarem informação (gratuita) e permitindo aos anunciantes que promovam suas mercadorias junto a essas pessoas de uma forma muito bem dirigida.

Assim, o ônus da prova – explicitar o que está sendo feito errado – cabe aos advogados de acusação do Google. Devido à lei antimonopólios, o preço que o Google cobra de seus anunciantes é definido por licitação e, portanto, sua influência enquanto cartel é limitada; e ainda tem que utilizar o seu predomínio num mercado para abrir caminho para outros, tal como fez a Microsoft.

A mesma presunção de inocência cabe aos direitos autorais e à privacidade. A ferramenta de busca por livros do Google, por exemplo, ajuda mais do que prejudica editoras e autores, na medida em que resgata livros da obscuridade e incentiva os leitores a comprarem exemplares com direitos autorais. E, apesar dessa conversa toda de ‘Big Brother’ sobre o conhecimento das opções que as pessoas farão amanhã, o Google não traiu a confiança de seus usuários em relação à sua privacidade. Se algo se pode dizer é que tem enfrentado melhor que seus concorrentes a espionagem de governos – tanto dos Estados Unidos, quanto da China.

Um slogan trivial

Posto isto, os conflitos de interesses se tornarão inevitáveis – principalmente com a privacidade. Na realidade, o Google controla um medidor que, à medida que vende mais serviços ao usuário, pode ser dirigido em duas direções. Ajustado para uma delas, o Google poderia destruir, rápida e voluntariamente, toda e qualquer informação de usuários coletada. Isso garantiria a privacidade, mas limitaria os lucros que o Google obtém ao vender aos anunciantes informações sobre o que você faz, tornando esses serviços menos úteis. Ajustado para a outra direção, o Google retém as informações e os serviços serão mais úteis – porém, poderiam ocorrer algumas invasões de privacidade bastante desagradáveis.

A resposta – como ocorreu com os bancos no passado – deve estar num meio termo; e a direção correta do mecanismo deverá mudar, à medida em que mudarem as circunstâncias. Será esse o maior interesse público no Google. Porém, como podem confirmar os banqueiros (e Bill Gates), o exame público minucioso também cria um desafio privado para os administradores do Google: como deverão apresentar o seu caso?

Uma estratégia óbvia para diminuir as preocupações em relação à confiança oferecida pelo Google é tornar-se mais transparente e submeter a exame seus processos e projetos. Mas também é necessária uma mudança mais profunda no cerne da questão. Fingir – só porque seus fundadores são jovens e simpáticos e doam inúmeros serviços – que a sociedade não tem o direito de questionar os motivos da empresa deixou de ser sensato.

O Google é uma ferramenta capitalista – e muito útil. Seria melhor, com certeza, enfrentar a tempestade que se aproxima com base nesse argumento do que com um slogan trivial que poderia ser fatal.

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www.economist.com

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