Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

DIRETóRIO ACADêMICO > BRAZILIAN JOURNALISM RESEARCH

Revista brasileira discute jornalismo e apresenta idéias

Por Luiz Gonzaga Motta em 13/11/2007 na edição 459

O que é o jornalismo? Numa época em que o jornalismo se desloca das páginas e telas para blogs e websites, qual é o perfil dessa atividade na sociedade contemporânea? Por que estudar o jornalismo? Qual a importância do jornalismo no mundo globalizado? Os jornais brasileiros estão discutindo a sua função na sociedade?


Perguntas como essas, inevitáveis para profissionais e estudiosos do jornalismo, estão em debate na nova edição da revista Brazilian Journalism Research (Volume 3, Número 2, 2º semestre 2007) que acaba de ser publicada pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor).


Por que, afinal, o jornalismo é tão questionado? Na nova edição da BJR, publicada em língua inglesa como os números anteriores, pesquisadores reconhecidos internacionalmente como Barbie Zelizer, Steve Reeves e Thomas Hanitsch, Denis Ruellan e alguns autores brasileiros discutem qual é o papel do jornalismo na política e na história. Ao fazê-lo, eles questionam também os estudos sobre o jornalismo que proliferaram nos centros de pesquisa e cursos de pós-graduação.


Autores brasileiros e estrangeiros debatem na nova edição da BJR os principais paradigmas, conceitos e tendências dos estudos do jornalismo questionando sua validade diante da atividade profissional. Quais os pesquisadores ou centros de estudos deram melhor contribuição para entender o jornalismo no mundo? A professora Barbie Zelizer, da Universidade da Pensilvânia (EUA), sugere que não existe um pesquisador nem tampouco uma ‘escola’ que tenha hoje um pensamento hegemônico ou uma autoridade maior nos estudos sobre o jornalismo. Para ela, vozes múltiplas podem oferecer visões mais completas do que é hoje o jornalismo, cada uma oferecendo a sua parcela de contribuição.


Soluções criativas


A professora Zelizer reconhece que todos os envolvidos (jornalistas, professores e pesquisadores) estão permanentemente em conflito: os profissionais dizem que os professores de jornalismo não preparam os ‘focas’, os professores dizem que os pesquisadores estão sempre no mundo da lua, e os pesquisadores dizem que ambos são insuficientemente teóricos. Essas disputas, diz ela, contribuem para que todos percam, deixando à margem discussões importantes a respeito do que o jornalismo realmente significa.


Ela divide os estudos do jornalismo em cinco grupos: estudos sociológicos, históricos, de linguagem, ciência política e estudos culturais. Reunir as contribuições de cada um desses grupos num conjunto coerente de conhecimentos sobre o jornalismo é difícil, continua a professora, porque não há estado-da-arte suficientemente abrangente e nenhum destes grupos cobre o suficiente sobre o que o jornalismo realmente é. Isto não é motivo para alarme, entretanto. Revistas específicas sobre os estudos do jornalismo e centros que partem de estudos conceituais para aplicá-los à profissão estão sendo criados em várias partes do mundo. ‘O que todos nós precisamos pensar’, conclui Barbie Zelizer, ‘é antecipar-nos sobre o que fazer com o jornalismo e sugerir soluções criativas’.


Proposta de pesquisa


Steeve Reese, professor da Universidade do Texas, amplia essa discussão em artigo na Brazilian Journalism Research que acaba de sair. Diz ele que o jornalismo, como qualquer outra área, não ficou imune ao processo de globalização, transformando-se numa ‘arena noticiosa global’ desvinculada dos velhos processos de produção da notícia.


A globalização possibilitou a confrontação das notícias de maneiras mais transparentes e o seu cotejo com padrões mais universais. A proximidade com que as organizações noticiosas estão trabalhando a partir dos processos de globalização obriga-as a repensar os valores notícia e as rotinas produtivas, pois os produtores e consumidores de notícias não estão mais orientados nacionalmente. Por isso, conclui em seu artigo, os pesquisadores do jornalismo não podem mais permanecer isolados, necessitam organizar pesquisas ‘cross-nacionais’. Ele cita como exemplo de pesquisa internacional um projeto que analise a cobertura de um evento significativo para a comunidade mundial, que é sempre filtrado por valores jornalísticos de organizações noticiosas locais.


O pesquisador alemão Thomas Hanitsch, hoje professor na Suíça, advoga ardentemente em artigo na BJR a criação de projetos permanentes de pesquisa comparativa ‘cross-nacionais’ que formulem teorias gerais sobre o jornalismo e validem universalmente resultados de estudos nacionais. Apesar da grande quantidade de dados, diz ele, muitas questões sobre o jornalismo permanecem não resolvidas. ‘Que varáveis conformam as notícias? Até que ponto os valores ocidentais da objetividade do jornalismo se ajustam às culturas não ocidentais?’, pergunta. E cita como exemplo o ‘World Value Survey‘, um projeto que estuda as mudanças nos valores dos habitantes de 80 países de todos continentes. Hanitsch propõe em seu artigo uma ‘World Journalism Survey’ capitaneada pelo grupo de estudos sobre o jornalismo da International Communication Association, do qual ele é o atual coordenador.


Disciplina acadêmica


A revista traz ainda uma interessante análise do conteúdo de 53 jornais e quatro revistas semanais brasileiras veiculados entre 2003 e 2005 a respeito de temas relativos à própria mídia, tais como mídia e democracia, regulamentação da televisão e concentração da propriedade entre organizações da mídia. A análise apresentada em artigo do pesquisador Guilherme Canela pretendia descobrir até que ponto a mídia contribui para ampliar a discussão pública a respeito das políticas sobre a própria mídia. O artigo mostra que a mídia não discute regularmente políticas públicas de comunicação e só noticia a si própria em momentos emblemáticos e pontuais, por exemplo, no affair Gugu-PCC ou quando o governo sugeriu a criação do Conselho Federal de Jornalistas.


A mídia, conclui Canela, é central para o funcionamento das democracias, mas seu funcionamento precisa ser exposto ao público através da própria mídia para que a população possa influir nas políticas para o setor. A relação extremamente sensível entre o jornalismo e as organizações da mídia, entretanto, conclui Canela, impede um debate mais franco e aberto.


Com esta edição, a Brazilian Journalism Research está completando seis números em três anos de existência (2005-2007). A revista é publicada semestralmente em língua inglesa com a finalidade de fazer a pesquisa realizada sobre o jornalismo no Brasil chegar até a comunidade científica internacional. Neste período, a revista publicou 64 artigos escritos por 92 pesquisadores (muitos artigos são assinados por mais de um pesquisador). Setenta e dois autores são brasileiros e dezesseis estrangeiros. A maioria dos artigos discute uma teoria da notícia ou do jornalismo, questionando os problemas fundamentais da profissão. Mas, há artigos sobre o jornalismo como processo cognitivo de construção da realidade, sobre liberdade de imprensa, ética e responsabilidade na profissão, pluralismo de fontes, jornalismo digital, cobertura da violência e segurança pública, e outros temas.


Embora editada em inglês, a revista se consolidou entre pesquisadores do jornalismo brasileiro como um espaço que ajuda a institucionalizar o jornalismo não apenas como uma profissão e atividade essencial na sociedade, mas também como uma disciplina acadêmica que pensa regularmente o jornalismo e contribui para o seu aprimoramento nas modernas democracias.


Informações sobre a revista no site da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor).

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Jornalista, professor da Universidade de Brasília, coordenador do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política e editor da Brazilian Journalism Research

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