Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Se a união faz a força, vamos nos unir

Por Ana Purchio em 30/06/2009 na edição 544

Os comunicadores deste país agradecem a coerência do único homem correto e sensível que votou a favor da continuação do diploma de jornalista, o ministro Marco Aurélio Mello, no último dia 17 de junho.

A classe jornalística, em sua maioria, ficou indignada com a notícia. A reação já começou e convocamos todos os amigos de profissão para que façam uma corrente na internet e esta corrente consiga chegar aos juristas que decidiram o nosso futuro sem nos consultar. Sem nos perguntar quanto investimos em tempo, valores, dignidade, vontade para acreditar que podemos ser comparados a qualquer profissional. Afinal, se os cozinheiros podem escrever sobre cozinha, por que nós, jornalistas, não podemos sair por aí medicando, arrancando dentes e até decidindo leis no lugar dos juristas? Enfim, muitos de nós, além de jornalistas, somos também advogados, economistas, homens e mulheres de marketing. Podemos fazer tudo, então?

Os profissionais de comunicação merecem respeito dos governantes deste país. Nada contra cozinheiros (competentíssimos, por sinal!) e que estão com salários maiores que os nossos, sabiam? Jogadores de futebol (sem desmerecer esses atletas!) ganham mais que nós e ainda nas rádios e TVs deste país podem ser comentaristas e jornalistas, tirando nossas vagas. Já nos apercebemos disso, não? E cometem erros gravíssimos de português, via satélite! Que país é este?

Justiça e rigor

Vamos nos unir e argumentar com os outros sete juristas que votaram pelo fim do diploma de jornalismo – senhores Gilmar Mendes, Carmen Lucia, Eros Grau, Ricardo Lewandowski, Ayres Britto, Cezar Peluso, Ellen Gracie e Celso Melloque – que estão equivocados ou estão votando para se beneficiarem de algo que a nós não foi revelado.

Caro senhor Gilmar Mendes e equipe! Os senhores basearam-se na Constituição de 1988 para votar contra a obrigatoriedade de diploma. Em que ano estamos? Os senhores acreditam que o futuro de tantos profissionais pode ser baseado em uma lei de 88, somente na Constituição, com a velocidade das mudanças cotidianas? Achamos que os senhores estão muito mal informados e completamente desatualizados. E o que tem a ver o diploma com ‘liberdade de expressão’ e ‘ranço de ditadura militar’? Se os senhores que votaram contra não sabem a diferença, precisam de um diploma de Comunicação Social e viver o dia-a-dia da Comunicação e das redações de todas as mídias deste país, de Norte a Sul, para saber a diferença!

Senhores ministros da Justiça, quando um médico não faz uma cirurgia correta, o paciente morre ou fica com sequelas. Só que existem várias pessoas com sequelas e muitos médicos ainda não tiveram seu exercício de profissão cassados. Onde está a justiça e a rigorosidade nestes casos ‘técnicos’?

O jogo do pagante

Então, por que nós temos que dividir o nosso mercado de trabalho com pessoas que se acham capacitadas a escrever, exercerem o ‘intelecto’ e dizer o que lhes venha à telha? Ah, esquecemos talvez de um pequeno detalhe: hoje as mídias colocam que não se responsabilizam pela opinião de seus colaboradores. Responsabilidade zero! Não tem que ter técnica para escrever e nem para dizer o que bem se quer em favor de quem se queira? A informação é algo responsável, senhores juristas, e alguém precisa se responsabilizar!

Queremos dizer aos senhores que foram enganados ou se deixaram enganar, o que deve ser mais lógico, com argumentos ‘bem convincentes’ e corporativos, quem sabe, por políticos? As empresas de comunicação deste país querem o fim do diploma para não pagar horas extras, nem ter um profissional cumprindo jornada, com horário específico e seus direitos trabalhistas assegurados. E o primeiro poder quer o quarto enfraquecido para que denúncias não sejam mais mostradas nem cobradas em qualquer mídia que não se venda!

Hoje muitos de nós não temos contratos e ainda, se possível, trabalhamos em nossas residências, gastando o nosso telefone, luz e misturando nossa vida profissional com a pessoal. Os senhores sabem as consequências disto? E quantos de nós investigamos denúncias, falcatruas, roubos e somos acusados de que nossas manchetes e matérias morrem na praia porque nada acontece? E não acontece mesmo, somos impedidos por nossa técnica de escrever porque a verdade não interessa a empresas que beneficiam políticos. Então é melhor contratar um sem especificação técnica porque ele faz o jogo do pagante.

O que dizer aos estudantes?

Se este estado de coisas continuar, ficará fora do controle tanto para juristas como para pessoas de bom senso. A população não vai saber a verdade por profissionais gabaritados, responsáveis e que sabem o dever da profissão: falar a verdade, escrever a verdade, doa a quem doer.

Então, por que não fizeram uma pesquisa de quantos jornalistas hoje estão marginalizados no mercado? É mais fácil acabar com o diploma porque assim as faculdades fecham e cada um procura outra profissão porque ninguém mais vai querer ter esta profissão. Resolvido o problema da maneira mais cômoda. E se lá fora ninguém mais tem diploma, por que grandes empresas de comunicação estão se juntando e fechando suas portas? Precisamos copiar os erros dos outros? Somos os eternos ‘macaquitos’?

Pensem, senhores ministros do Supremo, se não foram imediatistas! E o que os senhores têm a dizer aos jovens que estão cursando neste exato momento uma faculdade de Jornalismo? Que eles vão investir quatro anos de sua vida acadêmica para não ter sua profissão validada?

Lei de 40 anos foi cumprida

Acho que está na hora de voltarmos aos tempos antigos, ao saudosismo, quando todos os profissionais deste país tinham carteira assinada, direitos trabalhistas respeitados. E isso não é só com a classe jornalística. Estamos sendo marginalizados e eu acredito que o futuro dirá que os sete senhores que votaram pelo fim do diploma vão arcar com suas decisões inconsequentes.

Este é apenas um texto de protesto. Talvez o ‘Quarto Poder’ esteja realmente enfraquecido, sem forças para lutar contra os desmandos desta República. Profissionais deste Brasil, os mesmos juristas que nos tiraram o diploma absolvem ou arquivam processos dos verdadeiros lacaios. Vamos defender até a morte o nosso diploma, a nossa honra, a nossa ética e reconquistar o respeito que nos foi tirado.

A maioria de nós pagou seus estudos, passou dificuldades, deixou suas famílias para cumprir jornadas duplas, triplas, viu seus direitos trabalhistas perdidos e hoje está completamente indignada com essa decisão arbitrária. O que fizemos foi cumprir a lei de 40 anos e agora o mesmo Estado que nos obrigou a cumpri-la para exercermos a profissão, nos tira a exigência da diplomação vergonhosamente.

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Jornalista

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