Segunda-feira, 17 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Serra critica imprensa por denúncias sobre escolas estaduais

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 19/02/2009 na edição 525

Leia abaixo a seleção de quinta-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009


 


SÃO PAULO
Folha de S. Paulo


Serra critica imprensa e diz que problema em escolas é residual


‘O governador José Serra (PSDB) afirmou ontem que o problema de dez escolas estaduais que possuem salas de aula improvisadas -construídas com madeirite em pátios e quadras esportivas- é ‘muito residual e pequeno’. Ele classificou o assunto como ‘um problema de prioridade jornalística’.


Na última terça-feira a Folha revelou que o Estado determinou a construção de ao menos 40 salas de aula feitas com compensados, um tipo de madeira prensada usado para cercar locais de obras, a fim de aumentar o número de vagas em dez escolas públicas.


Um dos problemas das salas feitas com compensados pode ser o isolamento acústico, pois os ambientes serão usados por turmas geralmente barulhentas, de alunos com idades entre sete e dez anos.


‘O noticiário está dando um espaço imenso a um problema que do ponto de vista quantitativo é pequeno, embora seja um problema que ao meu ver cabe resolver’, disse Serra.


Ele estava na Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas, na zona norte, onde participou de um evento para anunciar a liberação de R$ 13,4 milhões para investimento em saúde para 523 cidades.


Serra afirmou também que hoje há 40 salas de aula feitas de madeirite em um universo de 70 mil salas convencionais em todo o Estado.


Serra também criticou o fato de a imprensa ter dado destaque à questão das salas de aula de madeirite em vez de priorizar uma cerimônia à qual ele compareceu anteontem, na qual oito hospitais foram premiados por realizar transplantes de órgãos e tecidos.


‘Alguns grandes jornais de São Paulo não deram uma linha a respeito da questão dos transplantes e dedicam páginas a esse assunto que envolve menos de 0,1% das escolas.’


Ao encerrar a entrevista coletiva, Serra afirmou: ‘Uma repórter da Folha diz que procurou a Secretaria da Educação e mentiu, porque não procurou. E aí vai fazendo a onda, para você saber, essa tal de Capriglione, ela mentiu que procurou a secretaria e que não houve resposta’.


A repórter Laura Capriglione telefonou às 22h de anteontem para a assessoria de imprensa da Secretaria da Educação. Naquele momento, acompanhava os momentos finais de um protesto realizado por cerca de mil pais, alunos e funcionários da Escola Estadual Ayres Neto contra a construção das salas com compensados.


Na reunião foi decidido que professores, alunos e pais impedirão a entrada de operários e tratores na escola, uma vez que a construção das salas de madeirite implica a derrubada da cozinha, de um banheiro, de laboratórios e da cantina.


Ao telefonar para a secretaria, a repórter não conseguiu falar com nenhum funcionário do órgão e a secretária eletrônica da assessoria de imprensa não mencionava um telefone de emergência para contato.’


 


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Sobe-e-desce


‘O site do ‘Wall Street Journal’ até que se animou com o plano de apoio aos mutuários anunciado por Obama, ‘o esforço mais agressivo até agora para lidar com a crise das execuções de hipoteca’, no texto de sua manchete, à tarde. Também o ‘New York Times’, descrevendo como um ‘plano mais ambicioso do que os analistas esperavam’.


Mas logo o ‘WSJ’ desistiu e puxou para a manchete que o ‘Fed agora espera contração mais profunda’ nos EUA, de 1,3% no ano.


Pior, mais um tempo e o ‘WSJ’ voltou à rotina dos escândalos financeiros, com manchete para o acordo feito pelo suíço UBS com os EUA. O banco ‘admite ter ajudado contribuintes a esconder contas bancárias do IRS’, a receita americana. Vai pagar multa e ‘passar aos EUA a identidade dos clientes’.


SOBE


Nas manchetes dos portais UOL e Terra, ao longo da tarde, ‘Governo registra recuperação modesta na economia, diz Guido Mantega’, o ministro da Fazenda.


Nas buscas de Brasil pelo Google, destaque para despacho da Reuters, ‘Ipea: Dezembro negro não se repetirá no primeiro trimestre’.


Na manchete do ‘Valor’ de papel e na manchete on-line de ‘O Estado de S. Paulo’ à tarde, ‘Capital externo volta’ e ‘Estrangeiros voltam a injetar dólares’.


DESCE


Nas manchetes de Valor Online e Reuters Brasil, no fim do dia, ‘Confiança cai na América Latina diante de cenário recessivo’, segundo estudo da FGV sobre o ‘clima econômico’.


Na home do ‘Financial Times’ e pelas agências, a maior fabricante mundial de equipamento agrícola ‘alerta sobre vendas em emergentes’. A Deere, ‘cada vez mais dependente de mercados como Brasil e Rússia’, registrou ‘cancelamentos atípicos’ de compras por aqui.


MODELO SUECO


Nouriel Roubini escreveu no ‘WSJ’ o artigo ‘Existe virtude no vago plano bancário de Geithner’, argumentando que ‘pelo menos não dá garantia a mais dívida ruim’.


‘Dr. Doom’ voltou a propor a estatização dos bancos, no que foi ecoado por Alan Greenspan, que presidiu o Fed e levou o mundo à crise. Em entrevista que virou manchete ontem no ‘Financial Times’ (acima), ele admitiu a ‘nacionalização’ em alguns casos e ‘temporariamente’, mas dizendo com ironia que o controle estatal só seria aceitável ‘uma vez a cada cem anos’. O próprio Obama já defende o ‘modelo sueco’ dos anos 90, afirmou o jornal e destacou o Drudge Report: estatizar e depois vender.


‘PARTNER’


O ‘Valor’ anunciou na capa um seminário em conjunto com o ‘WSJ’, em Nova York, ‘com Lula’. Também Dilma Rousseff, Roberto Setubal (Itaú), Roger Agnelli (Vale) etc. O nome é ‘Brasil: Global Partner in a New Economy’, parceiro global em uma nova economia. Coincide com o encontro de Lula e Obama.


Ao fundo, editorial do ‘FT’ criticou ontem a política econômica de Hugo Chávez -e sugeriu, como alternativa, a política que permitiu a Lula ‘canalizar superávits para gastos públicos como Bolsa Família, que faz desembolsos em troca de manter crianças na escola’.


OBAMA NO CORPO


Em meio à crise, Huffington Post e Drudge Report estão na expectativa do Carnaval no Brasil. O primeiro saudou que ‘a festa continua’, ontem em seu post ‘Carnaval do Brasil: envie-nos suas fotos’. O segundo, em enunciado logo abaixo da manchete, ‘Rainha do Carnaval do Brasil vai pintar Obama em seu corpo’, sobre Viviane Castro, rainha da bateria da X-9 Paulistana.


‘NOBRE SENADOR’


Na polarizada imprensa local, ontem, o ‘Correio da Paraíba’, do suplente de José Maranhão, também dono da repetidora da Record, festejou o novo governador. Mas o novo senador já é citado na Veja.com por acusações como ‘estelionato, formação de quadrilha’


O PROTÓTIPO


A ‘Time’ soltou ontem sua lista com ‘os melhores blogs’ americanos. Em primeiro lugar, o Talking Points Memo de Joshua Marshall, que vem de ganhar um prêmio Pulitzer e ‘se tornou o protótipo do que uma organização de notícias baseada na internet deve ser no futuro’, segundo a revista.


Outra novidade é que dois blogs de sites de jornal, o Freakonomics e a página do economista Paul Krugman, ambos no ‘NYT’, entraram nos dez mais. E o veterano Andrew Sullivan continua.’


 


 


PREMIAÇÃO
Folha de S. Paulo


Série sobre a cidade de São Paulo ganha o Prêmio Folha de 2008


‘Ao longo de dois meses, a série ‘DNA Paulistano’ examinou criticamente os 96 distritos da capital, revelando o perfil dos moradores de São Paulo e o que eles pensam das carências e virtudes de cada local. O trabalho rendeu aos jornalistas Evandro Spinelli, Laura Salaberry, Mariana Barros e Samy Charanek o Grande Prêmio Folha de Jornalismo de 2008.


O levantamento se baseou na maior pesquisa já realizada pelo Datafolha na cidade de São Paulo -que marcou o aniversário dos 25 anos do instituto. A coleta de dados envolveu 114 profissionais e ouviu 28.389 pessoas de fevereiro a julho.


A série revelou, por exemplo, que a falta de iluminação pública e os buracos nas ruas são os principais problemas das áreas mais pobres, enquanto o trânsito e a poluição sonora incomodam os distritos mais ricos.


Todo esse esforço permitiu que, durante a campanha eleitoral, o jornal confrontasse as promessas genéricas dos candidatos à Prefeitura de São Paulo com as demandas específicas dos paulistanos de cada região.


Demais prêmios


Criado em 1993, o Prêmio Folha é entregue anualmente aos melhores trabalhos produzidos por profissionais da Empresa Folha da Manhã S.A., que edita a Folha, o ‘Agora’ e o site Folha Online. Em 2008 concorreram 405 trabalhos.


O repórter Mário Magalhães e o fotógrafo Joel Silva ganharam na categoria Reportagem por desvendarem as condições de vida dos cortadores de cana no interior paulista. A reportagem também recebeu os prêmios Every Human Has Rights, em Paris, e Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.


Caio Guatelli venceu na categoria Fotografia com a imagem da queda de Diego Hypólito, até então favorito para ganhar medalha de ouro em Pequim.


O prêmio de melhor Edição ficou com o editor e a editora-adjunta de Cotidiano, Rogério Gentile e Denise Chiarato, e com o editor e o editor-adjunto de Arte, Fabio Marra e Mário Kanno, pela cobertura do terremoto que atingiu São Paulo.


Uma reportagem do caderno Equilíbrio com 100 boas ideias para melhorar a vida dos idosos deu o prêmio na categoria Serviço a Beatriz Peres, Amarílis Lage, Julliane Silveira, Flávia Mantovani e Clauton Danelli.


Mário Kanno e Erika Yisset Díaz Gómes ganharam na categoria Arte com uma explicação didática e objetiva sobre as origens da crise financeira global.


Na categoria Especial, o prêmio ficou com o caderno ‘Jovem século 21’, de Renata Steffen, João Wainer, Flávia Mantovani, Ivan Finotti e Glauco Diógenes, que traçou o perfil dos brasileiros de 16 a 25 anos.


A Comissão Julgadora -Ricardo Melo (secretário-assistente de Redação da Folha), Carlos Eduardo Lins da Silva (ombudsman da Folha), Rosely Sayão (colunista da Folha) e Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque (então colunista da Folha)- concedeu menções honrosas ao ‘Blog Pé na África’, de Fábio Zanini, na Folha Online, ao texto ‘Massacre virtual’, de Rafael Balsemão, na Revista da Folha, e à reportagem ‘Para entender a crise global’, de Gustavo Patu, no caderno Dinheiro.’


 


 


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Folha ganha quatro prêmios de design


‘A Folha recebeu quatro prêmios de excelência gráfica na 30ª edição do Best Newspaper Design -O Melhor do Design de Jornais- por páginas publicadas no ano passado.


O júri da SND concedeu o prêmio de excelência à Folha pelo caderno Racismo (23/11), pela cobertura da Olimpíada de Pequim 2008, pela contracapa ‘Sexo em silêncio’ (Esporte, 10/8) e pelas páginas centrais ‘O futuro faz 25 anos’, do caderno Informática de 19/3.


‘A união harmônica entre o conteúdo e a forma visual é a busca constante de quem trabalha com design da informação. O leitor ganha com reportagens bem apuradas e páginas graficamente bem construídas’, disse Fabio Marra, editor de Arte da Folha.


A competição é promovida desde 1979 pela Society for News Design (SND), entidade internacional com sede nos Estados Unidos que congrega cerca de 2.600 profissionais de desenho gráfico de jornais, que atuam em mais de 50 países.


A Folha já havia sido premiada em outras dez edições do concurso -o mais importante em sua área. Neste ano foram inscritos 10.725 trabalhos de 346 publicações.


Ao todo, os jornais brasileiros receberam 23 distinções. A Folha foi o veículo brasileiro mais premiado entre os jornais com circulação diária superior a 175 mil exemplares. Em segundo ficou o ‘Extra’, do Rio de Janeiro, com três prêmios.


Dentre os veículos com circulação entre 50 mil e 175 mil exemplares, o jornal ‘O Dia’, do Rio de Janeiro, recebeu cinco prêmios; o ‘Correio Braziliense’, do Distrito Federal, ganhou quatro; e o ‘Estado de Minas’, de Belo Horizonte, recebeu três prêmios.


Entre os jornais de menor circulação, os jornais ‘Correio’ (Salvador), ‘Diário de Pernambuco’ (Recife), ‘A Tarde’ (Salvador) e ‘O Povo’ (Fortaleza) ganharam um prêmio cada um.


Para a SND, os jornais mais bem desenhados do mundo são ‘Akzia’, de Moscou; ‘Eleftheros Tipos’, de Atenas; ‘Expresso’, de Paço de Arcos; ‘The News’, da Cidade do México; e ‘Welt am Sonntag’, de Berlim.’


 


 


PROFISSÃO PERIGO
Folha de S. Paulo


No Paquistão, jornalista é morto ao cobrir marcha pró-Taleban


‘Um repórter da TV Geo, principal rede paquistanesa, foi morto a tiros ontem no vale do Swat, no norte do país. Musa Khan Khel, 32, estava no Swat para cobrir uma ‘caravana pela paz’, organizada por clérigos radicais após acordo com o governo que declarou cessar-fogo na última segunda-feira e permitiu a adoção da sharia (lei islâmica) na região.


O jornalista foi encontrado morto horas depois de separar-se da equipe. Ele foi baleado várias vezes e teve a garganta cortada. O crime, ainda não esclarecido, provocou comoção no país. O presidente e o premiê enviaram condolências.


A marcha no Swat foi convocada por Sufi Muhammad, ex-dirigente do Taleban e sogro do atual líder do grupo, Fazlullah, para angariar apoio do genro ao plano de paz na região. O vale passou de reduto turístico a zona conflagrada com a adesão de Islamabad às políticas antiterrorismo dos EUA e acirramento do impasse sobre a sharia.


O cessar-fogo foi criticado pela Otan (aliança militar ocidental), que teme fortalecimento do Taleban. Os EUA não comentaram o acordo.


Com agências internacionais’


 


 


CASO PAULA OLIVEIRA
Marcelo Ninio


Suíça proíbe brasileira de deixar o país


‘A pernambucana Paula Oliveira, 26, passou oficialmente ontem de vítima a suspeita. O Ministério Público de Zurique abriu um processo penal contra ela por falsa denúncia, depois que exames mostraram que Paula não estava grávida no momento da suposta agressão sofrida na semana passada, como ela tinha declarado às autoridades. Com a decisão, Paula não poderá deixar o país até o fim das investigações.


Também ontem, uma revista semanal de Zurique afirmou que Paula já teria confessado à polícia que forjou a gravidez e que ela própria produziu em seu corpo os cortes que atribuiu a três neonazistas. De acordo com a publicação, que é próxima da direita nacionalista, o motivo seria receber ‘uma gorda indenização’ do Estado.


O passaporte da brasileira foi apreendido ontem. Segundo o procurador Marcel Frei, responsável pelo caso, Paula foi enquadrada no artigo 304 do código penal suíço -’tentativa de enganar autoridades’.


‘Pela lei da Suíça, esse delito prevê pena de três anos de prisão ou pagamento de multa’, disse Frei à Folha, reiterando que a apreensão do passaporte não se deveu às notícias de que ela pretendia voltar ao Brasil. ‘Trata-se de um procedimento normal nessas situações.’


Frei informou ainda que Paula e o namorado dela, o economista suíço Marco Trepp, voltarão a ser interrogados nos próximos dias. Os dois já haviam prestado depoimento logo após a suposta agressão.


Pela versão de Paula, três neonazistas a atacaram na segunda, dia 9, no subúrbio de Dübendorf, perto de Zurique. Ela, que dizia estar grávida de gêmeas, afirmou que abortou após as agressões. Em seu corpo, contou Paula, os neonazistas fizeram vários cortes com um estilete e inscreveram as siglas do partido ultranacionalista SVP (Partido do Povo Suíço).


Mas, após o exame de um legista independente, a polícia de Zurique descartou na última sexta-feira que Paula estivesse grávida no momento da suposta agressão. O laudo apontou ainda indícios de que os cortes foram produto de automutilação, considerando remota a possibilidade de que ela tenha sido agredida.


Ato premeditado


Ontem, a revista ‘Die Weltwoche’ foi além, afirmando que foi um ato premeditado destinado a obter uma indenização. De acordo com a publicação, Paula assinou uma confissão à polícia na sexta-feira 13, duas horas antes da divulgação do laudo do legista.


A revista afirma que, após várias versões desencontradas, a pernambucana confessou, chorando muito, que toda a história havia sido inventada.


‘Em nenhum momento em sua vida houve skinheads, muito menos gêmeos’, disse a revista, segundo a qual Paula afirmou ter agido sozinha.


A suposta confissão de Paula abriu o noticiário principal do canal local TeleZurich. Segundo a emissora, Paula esperava receber entre US$ 50 mil e US$ 100 mil de indenização.


Paula recebeu alta anteontem e seguiu para seu apartamento. Ninguém da família se pronunciou ontem. Anteontem, o pai da brasileira, Paulo Oliveira, disse que as conclusões da polícia suíça deixaram Paula ‘indignada’.


Governo brasileiro


O Itamaraty informou ontem que Paula continuará contando com a assistência do governo brasileiro independentemente de ter sido protagonista ou não de uma farsa.


O chanceler Celso Amorim, após reunião no começo da tarde com o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), não manifestou surpresa com a decisão do Ministério Público da Suíça: ‘Nós manifestamos nosso desejo que houvesse uma apuração, (…), eles garantiram que haveria apuração e é isso que está ocorrendo’.


Amorim diz que o governo brasileiro continuará dando apoio a Paula, que conta com um defensor público suíço. Ela recusou as opções de advogado que o consulado ofereceu.


Colaborou a Sucursal de Brasília’


 


 


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Revista que cita suposta farsa é ligada a partido


‘A revista semanal suíça ‘Die Weltwoche’, que noticiou a versão de que a brasileira Paula Oliveira confessou ter mentido à polícia suíça, tem claros laços ideológicos com o partido ultranacionalista SVP (Partido do Povo Suíço), cuja sigla foi escrita com um objeto cortante na pele da brasileira.


Considerada há uma década a publicação preferida da elite intelectualizada de esquerda da Suíça, nos últimos anos ela começou a se inclinar para a direita, e hoje sua linha editorial é alinhada com a ideologia do SVP. A guinada se consolidou com a compra da revista, em 2006, pelo empresário conservador suíço Roger Köppel.


Até hoje persistem os rumores, não comprovados, de que o semanário é financiado pelo magnata Christoph Blocher, um dos homens mais ricos do país e que está entre os principais dirigentes do SVP.


Na guerra de mídia em que se transformou o caso Paula Oliveira, com ataques constantes na Suíça ao comportamento do governo e da imprensa brasileiros no episódio, a reportagem do ‘Die Weltwoche’ assume um tom de que desvendou a farsa montada pela brasileira. Mas em nenhum momento cita a fonte de suas informações.


Para muitos suíços, o primeiro indício de que Paula estava mentindo foi a associação entre o SVP e neonazistas, que lhes parece exagerada. Mas não faltam imigrantes para dar exemplos de xenofobia na Suíça, alguns violentos.


‘Fui agredido por homens de cabeça raspada, só por ser estrangeiro’, contou o mecânico brasileiro Warley Alves Pinto, 19, que mora em Dübendorf, perto de Paula. ‘Me falaram que aqui não é meu país e começaram a me bater.’’


 


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Milton Neves acusa Roberto Justus de fraude


‘Em ação judicial distribuída na última segunda, o apresentador Milton Neves acusa Roberto Justus de ‘fraude’ e insinua que Clodoaldo Araújo, vencedor de ‘O Aprendiz 5 – O Sócio’, apresentado pelo publicitário, foi usado como ‘laranja’.


Na ação, Neves pede indenizações de pelo menos R$ 62,8 milhões pelo fato de Justus, por meio da produtora Brainers, tê-lo convencido a romper contrato com a Record, em fevereiro de 2008, para assumir dois programas na Band. Neves deixou a Record, mas a negociação da Brainers com a Band falharam.


Em setembro, Justus admitiu Araújo como sócio da Brainers. Deu-lhe 49% das cotas e o cargo de ‘sócio administrador’. Na ação, Neves diz que isso foi uma ‘designação maliciosa’, porque Araújo, que recebeu R$ 2 milhões da Record, pode assumir no futuro parte de uma dívida muitas vezes maior.


Segundo Neves, Justus cometeu ‘fraude’ ao fechar a Brainers, em outubro, sem procedimento de liquidação, prejudicando terceiros (como ele).


Justus afirma que Neves terá resposta na Justiça. ‘A Brainers foi liquidada oito meses depois desse contrato, em que havia cláusulas que me dava o direito de desistir do negócio. Que fraude há em fechar uma empresa que não tem atividade? Tudo o que fiz é legal’, diz.


Araújo defende Justus. Diz que a Brainers fechou porque eles decidiram investir numa outra empresa, do ramo de aço.


SEM ESTRATÉGIA 1


Uma das maiores audiências da Record, o reality show ‘Troca de Família’ é um fiasco comercial. O programa, com mais de 60 minutos de duração, tem apenas dois intervalos, boa parte deles ocupada por chamadas de programação.


SEM ESTRATÉGIA 2


Segundo avaliação de um especialista, ‘Troca de Família’ faturou na semana passada no máximo R$ 261 mil líquidos. Esse valor mal pagaria os custos do programa -só de prêmios, são R$ 50 mil semanais.


CONFUSÃO


Andam tumultuados os bastidores da novela ‘Poder Paralelo’, próxima da Record. Roteiros de gravações têm mudado na última hora. Externas têm sido marcadas sem as devidas autorizações.


PALCO


A atriz que interpretará Helena, protagonista da próxima novela das oito da Globo, será escolhida por meio de testes. Taís Araújo foi descartada para o papel, de uma ex-modelo, casada com um fotógrafo.


ANO NOVO


O fim do horário de verão e as movimentações na grade (o ‘JN’ voltou para as 20h15 e ‘BBB’ e novela das oito entram mais cedo) não levantaram as audiências da Globo. A emissora só espera melhoras no Ibope depois do Carnaval.


ALFINETE


A Globo lança hoje na área de aplicativos do Orkut o ‘Vuddo Brother’, um joguinho em que o internauta espeta alfinetes em bonecos que representam os participantes de ‘Big Brother Brasil 9’.’


 


 


Fernanda Ezabella


Cultura conta história do bloco ‘Suvaco’


‘Eles não eram muito de samba, gostavam mesmo era de rock e bossa nova, mas resolveram mesmo assim fazer um bloco, logo ali, debaixo do suvaco do Cristo Redentor. Era 1985, nascia o bloco de foliões ‘Suvaco do Cristo’, com ajuda do ‘pessoal que batucava’, ou seja, do bloco da Força Jovem, que emprestava sua quadra na comunidade no alto do Horto.


As histórias do grupo, que começou entre 30 amigos e hoje leva 10 mil às ruas do Rio, são contadas em documentário da TV Cultura, amanhã. O programa foi feito em 2006, para celebrar o 20º aniversário.


No encontro marcado para a efeméride, fundadores e compositores relembram causos, como as rusgas com um padre por causa do nome ‘cristão’, brigas com a polícia e até mesmo a dificuldade de achar cerveja no Horto. O crescimento exagerado do bloco também é discutido, assim como os métodos de horários secretos para diminuir a multidão de foliões.


Sambas famosos do ‘Suvaco’, como ‘Divinas Axilas’ (1986), composto por 20 pessoas, são cantados no programa, com legendas. ‘Pirâmide’, outro hit do bloco, lembra o verão de 1988, quando latas de maconha foram despejadas na baía de Guanabara. ‘Quando chegará o dia?/ Tá lá, tá lá!/ (…) É presente de Iemanjá!’, diz a letra de Lenine e Mu Chebabi.


20 ANOS DE SUVACO


Quando: amanhã, às 22h40


Onde: TV Cultura


Classificação: livre’


 


 


BIOGRAFIA
Raquel Cozer


Todas as mulheres de Hitchcock


‘Alfred Hitchcock teve uma única mulher na vida e, segundo colegas, uma única relação sexual com ela em 53 anos de casamento. Mas por suas mãos passaram, e sofreram maus bocados, algumas das mais belas atrizes do século 20.


Um livro que sai agora no país vai além da repisada obsessão por louras do diretor inglês (1899-1980) para examinar seu amor e desprezo por estrelas que, não raro, ele próprio alçou a tal posição, como Grace Kelly (‘Disque M para Matar’, 1954) e Janet Leigh (‘Psicose’, 1960).


‘Fascinado pela Beleza: Alfred Hitchcock e Suas Atrizes’ (Larousse), do americano Donald Spoto, detalha o ‘sadismo’ do homem que, por exemplo, manteve a atriz Madeleine Carroll algemada até deixá-la cheia de hematomas, nas filmagens de ‘Os 39 Degraus’ (1935), e submeteu Tippi Hedren a um ataque de verdade em ‘Os Pássaros’ (1963), após dizer a ela que ‘evidentemente’ usaria aves mecânicas na cena.


Publicado no ano passado nos EUA, o livro encerra tardiamente uma trilogia iniciada em 1976. Naquele ano, após ‘muitas horas’ de conversa com o cineasta, Spoto lançou ‘The Art of Alfred Hitchcock’, comportada análise de filmografia que mereceu elogios do biografado.


O ‘lado sombrio do gênio’ ele preferiu contar só após a morte do cineasta, em ‘The Dark Side of the Genius: The Life of Alfred Hitchcock’ (1983). O que havia de mais nocivo ainda teve de esperar -ao menos até morrerem alguns entrevistados- e é o primeiro a sair no Brasil.


Spoto, 67, curiosamente também ex-monge e teólogo, autor tanto de biografias de estrelas quanto de livros como ‘Francisco de Assis: O Santo Relutante’ (Objetiva), conversou com quase todas as musas (ou nem tanto) do diretor, além de atores como James Stewart e Gregory Peck e roteiristas.


Foi o próprio Hitchcock, porém, quem o atraiu ao assunto. Em 1975, questionado sobre como conseguia atuações tão ‘magníficas’, ele dera ao biógrafo uma resposta enviesada: ‘Acho que tudo tem a ver com a forma pela qual elas são fotografadas’. Mérito dele, da câmera, do que fosse -não delas.


Ressentimento


O livro mostra desde um diretor ‘aterrorizado’, nos anos 20, com a ideia de uma estrela (Virginia Valli) descobrir que seria ‘dirigida por um iniciante’ até o veterano que, em 1964, achou normal exigir de Hedren que se tornasse ‘sexualmente disponível’, como ela conta.


‘Não chego a odiar as mulheres, mas certamente elas não são boas atrizes como os homens’, disse ele certa vez. ‘Nada me dá mais prazer que massacrá-las até destituí-las de toda a elegância.’ O diretor ‘se ressentia’ dos salários delas, às vezes maiores que o dele. Mas não humilhava na mesma medida atores que ganhavam mais. Era uma relação diferente, defende Spoto: eles eram o que o cineasta não podia ser; elas, o que nunca poderia ter.


Ainda assim, apaixonou-se por Grace, Hedren e Ingrid Bergman. Para outras, ofereceu apenas frieza -Doris Day, magoada, quis se demitir; Anne Baxter desconfiou de que ‘não era bonita o bastante’. Kim Novak, a segunda opção para ‘Um Corpo que Cai’ (1958), na opinião de Hitchcock só conseguia atuar quando estava morena e ‘não parecia tanto Kim Novak’. Ao ouvir do biógrafo que ela estava bem no filme, ele rebateu: ‘Talvez. Ao menos consegui jogar a novata na água’.’


 


 


 


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O Estado de S. Paulo


Quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009


 


CASO PAULA OLIVEIRA
Jamil Chade


Brasileira confessou farsa, diz jornal suíço


‘O jornal suíço Weltwoche revelou ontem que a pernambucana Paula Oliveira, que disse ter sido agredida por skinheads nos arredores de Zurique e abortado, já teria confessado à polícia local que o suposto ataque não passou de uma farsa e ela nunca esteve grávida. A rede de TV Telezurich reiterou a história. Ainda segundo a imprensa, ela teria assinado uma confissão. De acordo com o jornal, a polícia especula que o objetivo de Paula seria processar o Estado por causa da agressão para obter uma indenização que poderia chegar a R$ 200 mil.


Ontem, o Ministério Público suíço anunciou a abertura de um processo penal contra Paula, que está impedida de sair do país – seu passaporte foi retido. A brasileira terá agora de prestar depoimento e corre o risco de pegar até 3 anos de prisão por falso testemunho.


A Justiça optou por não se pronunciar sobre a revelação do jornal. Sem desmentir a notícia, o advogado de defesa de Paula, Roger Muller, alertou que a confissão só terá valor perante a Justiça. O Itamaraty diz desconhecer as revelações da imprensa suíça.


A brasileira disse ter abortado gêmeos após ser atacada por três neonazistas na semana passada, na estação de trem de Dubendorf. Ela teve seu corpo marcado com estilete com as letras do partido de extrema direita SVP (Partido do Povo Suíço). Mas o laudo médico concluiu que Paula não estava grávida no momento da suposta agressão.


Segundo o Weltwoche, Paula foi pressionada pela polícia e pelos médicos-legistas e acabou confessando a farsa ainda na sexta-feira – dia da divulgação do primeiro laudo pericial. Ela teria planejado o ato, comprado uma faca de cozinha na popular loja de departamentos Ikea, e levado ao trabalho na segunda-feira da semana passada. Na volta, teria entrado no banheiro da estação de Dubendorf e se cortado, simulando o ataque.


Paula teria tentado convencer a polícia de que fez testes de gravidez com material de supermercado e até um ultrassom, mas as fotos teriam sumido. O telefone da médica também teria desaparecido.


Pressionada, Paula chorou e confessou que a gravidez e o ataque dos neonazistas eram uma armação. Sobre as letras do partido em seu corpo, ela disse que apenas conhecida o SVP dos cartazes espalhados pela Suíça.Questionada sobre os motivos, disse: ‘Pergunte a um psiquiatra.’ Segundo a imprensa, Paula teria afirmado que fez tudo sozinha, sem a ajuda de seu namorado, o suíço Marco Trepp.


O histórico de Paula ainda incluiria outra notícia falsa. A de que teria sido casada no passado com um homem chamado François, supostamente morto em um acidente de avião da TAM.


SAÍDA DA SUÍÇA


Segundo o Estado apurou, o Ministério Público suíço, até ontem de manhã, estava disposto a aceitar que ela deixasse o país. Mas, após analisar o comportamento dos envolvidos, o promotor de Justiça de Zurique, Marcel Frei, decidiu reter o passaporte da brasileira. ‘O passaporte está comigo’, disse o promotor. Frei quer colher pelo menos um depoimento da brasileira antes de liberá-la. A confissão à polícia terá de ser repetida à Justiça para que seja considerada no processo penal.


‘Vamos pedir um depoimento dela para saber exatamente o que ocorreu’, afirmou Frei. ‘A acusação é de falso testemunho e, por enquanto, ela não pode sair. Mas isso pode mudar. Na minha avaliação, ela poderá deixar a Suíça em algum momento. Mas ainda é cedo para dizer’, explicou. ‘A lei diz que ela pode ficar até 3 anos presa, ou pagar uma multa. Essa multa pode ser de alguns milhares de francos suíços’, disse o promotor.


‘Cabe à Justiça provar que ela é culpada. Até que se prove o contrário, ela é inocente. Ela não está presa’, afirmou o advogado Roger Muller. Ele diz que tentará convencer a Justiça local para que Paula possa acompanhar o caso do Brasil. ‘Se ela retornar ao Brasil, eu serei seu representante legal aqui’, disse. O advogado não quis responder se tentaria justificar a fraude alegando que ela sofre de problemas psiquiátricos.


Ontem, Paula permaneceu todo o dia trancada em sua casa, com todas as janelas fechadas e sem atender ninguém. O local foi visitado pela imprensa suíça e por curiosos. A única pessoa que entrou foi um amigo do noivo de Paula, que tirou do apartamento o computador pessoal do suíço com seus e-mails.


O Itamaraty decidiu reforçar o consulado do Brasil em Zurique, enviando um diplomata de Brasília para cuidar exclusivamente do caso. A pacata cidade de Dubendorf transformou-se em notícia em todo o país. Os vizinhos de Paula admitiam que estavam surpresos com a história. O brasileiro Warlei Alves alerta que já foi alvo de um ataque de neonazistas na região onde Paula vive, três anos atrás. ‘Recebi socos e me ofenderam por ser estrangeiro’, afirmou o brasileiro, de 19 anos.


Ele conta que não apresentou denúncia, mas seus amigos confirmam a história. ‘Esses ataques ocorrem mesmo e, quando ouvi a história, pensei que era mais uma delas’, afirmou. Ontem, um carro com dois skinheads rodeou a casa de Paula, para a surpresa dos que estavam no local.


Mas, para brasileiros que vivem na vizinhança, a história é motivo de ‘vergonha’ para a comunidade na Suíça. ‘Nossa imagem está queimada’, disse Eliana Baptista, uma das 40 mil brasileiras que vive na parte de língua alemã da Suíça. Outra brasileira, que pediu para não se identificar, afirma que já sentiu uma diferença no tratamento de autoridades suíças em relação aos brasileiros.


Para alguns suíços, a decisão da Justiça já foi uma espécie de vingança contra as declarações de autoridades brasileiras que se apressaram em declarar o caso como um incidente de xenofobia.’


 


 


RACISMO
Reuters e AP


Tabloide relaciona Obama com macaco


‘Uma charge publicada ontem pelo jornal The New York Post causou a revolta de líderes de direitos civis e políticos – para quem ela reproduziu estereótipos racistas de negros e macacos. Segundo os críticos, o cartum refere-se claramente ao presidente americano, Barack Obama.


A charge mostra um chimpanzé morto e dois policiais, um deles armado. A legenda diz: ‘Eles terão de encontrar alguém para escrever o próximo pacote de estímulo.’


O desenho refere-se ao chimpanzé Travis, que foi morto pela polícia de Connecticut na segunda-feira após morder uma amiga de sua proprietária. Obama, o primeiro presidente negro dos EUA, assinou na terça-feira o plano de estímulo econômico de seu governo, no valor de US$ 787 bilhões.


O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, não quis comentar sobre a charge. ‘Não vi o cartum’, disse a jornalistas. ‘Mas não creio ser de grande importância ler o New York Post.’


Col Allan, editor-chefe do tabloide – do magnata Rupert Murdoch -, disse em um comunicado que o cartum era apenas ‘uma clara paródia’ da morte violenta do macaco e dos fatos sobre os esforços para salvar a economia.’


 


 


TELEVISÃO
Patrícia Villalba


Nos labirintos da Máfia


‘Muita água rolou embaixo da ponte da Record desde que o autor Lauro César Muniz foi contratado com grande alarde em 2005, quando resolveu deixar a Globo. Um dos maiores autores de novela do País, acostumado a inovar, causar barulho e conquistar a audiência, ele parte agora com grande entusiasmo para o seu segundo trabalho na emissora, Poder Paralelo. E, se em 2006, quando escreveu Cidadão Brasileiro, o objetivo era marcar posição no mercado e, quem sabe, ir modestamente bem no Ibope, agora a missão é estabelecer um padrão de qualidade próprio para a emissora, no esteio de produções como o seriado A Lei e o Crime.


História ambiciosa e frenética, Poder Paralelo promete explorar todo o potencial de produção dos estúdios Rec9 para falar das conexões criminosas entre a Máfia italiana e o narcotráfico na América do Sul. Dispense o clima de O Poderoso Chefão, mas não o charme potencial que os mafiosos costumam ter na dramaturgia. Em Palermo, Tony Castellamare (Gabriel Braga Nunes) é um mafioso que escapa da morte encomendada por um mafioso no Brasil – sua mulher e filhas não têm a mesma sorte. Ele jura, então, vingança e vem para cá, onde sua história se cruza com a de Téo, delegado da Polícia Federal que investiga a ligação entre mafiosos, traficantes e políticos corruptos.


Escrita com a colaboração de autores experientes – Mário Viana, Dora Castelar, Aymar Labaki, Newton Cannito e Rosane Lima -, Poder Paralelo, à moda das grandes produções da concorrente Globo, teve os primeiros capítulos gravados no exterior (Itália) e vai suceder Chamas da Vida na faixa das 22 horas, na segunda quinzena de março. Muniz queria que o título fosse Vendetta (vingança), mas a direção da emissora bateu o pé por um nome em português – e Poder Paralelo saiu de um concurso entre os funcionários da casa. Sobre esses detalhes de produção, além da nova trajetória da Record na teledramaturgia, o autor conversou com o Estado.


A novela não ia chamar-se Vendetta? Qual foi a dificuldade?


Por mim, seria Vendetta, gosto tanto desse título. Mas há um grupo dentro da emissora, com poder de decisão, que acha que uma palavra estrangeira pode criar ruído nas classes C, D e E, que são classes que a Record precisa privilegiar.


Como surgiu a ideia de misturar narcotráfico e Máfia numa novela?


A intenção era fazer uma outra novela, baseada na série chilena Machos, mas a Record não chegou a um acordo sobre os direitos autorais. Daí, me lembrei do livro Vendetta, do Silvio Lancelotti, que li há 20 anos, e retomei. Mas ele é insuficiente para uma novela – tem poucas personagens femininas. Então, bolei uma outra história, ampliando o universo feminino, e liguei à história do Silvio. Assim, nasceu a novela.


O livro tem 20 anos, mas a história se passa na atualidade, não?


O livro é a base. A sacada do Silvio foi trazer a história da Máfia ao Brasil. Tive de alterar algumas coisas básicas, porque não tinha como fazer hoje o que era a Máfia nos anos 80. Fiz uma pesquisa, e me vieram às mãos uns artigos do (professor de Direito) Walter Maierovitch. Grande pesquisador, ele descobriu, a partir de vários fatos depois do assassinato do juiz Falconi (1992), que o poder da Máfia era muito maior do que parecia.


Nesse contexto, os mafiosos de Poder Paralelo ficam muito distantes dos Corleone da trilogia Poderoso Chefão?


Não me interessa fazer algo tipo Poderoso Chefão 4. Quero falar da influência dos métodos mafiosos no narcotráfico sul-americano. Aquela Máfia do Coppolla passou, o romantismo da máfia já era. A Máfia hoje é uma coisa realmente pesada. São superbandidos tão poderosos que estão infiltrados no poder público, agindo claramente na corrupção do País – isso nos interessa. Qual é o nosso câncer? Não é a corrupção? Então não seria interessante fazer uma novela sobre isso? Claro que sem fazer discurso chato. Agora, quanto ao charme, é o mesmo. Só que vamos tocar num assunto absolutamente vivo e atual.


É uma história do mesmo universo de Gomorra, que teve repercussão mundial. É um assunto em pauta, que sorte a sua.


É, interessante, né? Mas eu vou passar longe da Camorra, viu? (risos) Não vi o filme nem li o livro. Mas é bom, é coisa que está no ar. Um dos meus colaboradores, o Mário Viana, leu o livro, mas disse que não gostou.


O Toni Castellamare, seu personagem principal, é herói ou vilão?


Eu evito bastante o maniqueísmo. É claro que num bandido o lado de vilania está mais acentuado. O Toni, a princípio, é uma mistura de herói e bandido. O telespectador vai ficar na dúvida, porque surge a possibilidade de ele ser um agente do DEA (o departamento antidrogas americano). Esse é o lado heroico dele. Muitas mulheres se apaixonam por ele na história, ele é atraente, fascinante.


Verdade que o Téo (Tuca Andrada) é inspirado no delegado Protógenes Queiroz, da Operação Satiagraha da PF?


Não. Ele é um personagem do livro do Silvio. A atuação do Protógenes pesa, mas não, ele não vai se ver refletido no Téo.


Depois de um a novela plácida como Cidadão Brasileiro, você vem com uma história que parece superágil e que combina com o que a Record tem investido com sucesso ultimamente. Acha que a emissora, então, já tem uma cara própria?


Já. A Record começou imitando a Globo. Agora, as novelas já têm a cara da emissora, são diferentes. Uma coisa bem interessante: a Record está fazendo cenas de ação melhor do que a Globo. Vi cenas de ação na novela do Aguinaldo (Silva, Duas Caras) que me deixaram espantado pela má qualidade. Não é que a Globo tenha piorado. É que a Record melhorou muito. Chamas da Vida tem cenas fantásticas com aqueles bombeiros. Quando vi, pensei: ‘a Globo não faz isso’. Mas ainda é pouco.


O que falta, então?


Falta a Record se conscientizar de que precisa estabelecer o seu padrão de qualidade. Primeiro, ela foi atrás do ibope. Agora, já sabe que precisa de qualidade, como foi com o seriado A Lei e o Crime. A Record entendeu que, se ficar fazendo novelas maniqueístas, vai seguir o mesmo caminho do SBT – é um caminho de morte. A Globo perdeu o padrão de qualidade que tinha até meados dos anos 90. Estamos com essa esperança: imprimir um padrão de qualidade. A gente sabe que alguma coisa que se assemelhe a arte – e é difícil fazer arte em telenovela – só se faz correndo risco. Vamos correr risco, então.


O AUTOR EM, SEIS TEMPOS


ESCALADA (1975): Grande produção da Globo, a novela contava a história do antigalã Antônio Dias (Tarcísio Meira), que se misturava à aventura da construção de Brasília. Arrojada em vários aspectos e perseguida pela censura, pôs na ordem do dia a discussão sobre a regulamentação do divórcio.


O CASARÃO (1976): Marco absoluto, misturava três épocas. Ainda está no imaginário noveleiro o desfecho, em que Carolina (Yara Cortês) finalmente encontra o amado João Maciel (Paulo Gracindo) na Confeitaria Colombo, no Rio. ‘Esperou muito?’, pergunta ela, atrasada para o encontro. E ele responde, ao som de Fascinação: ‘50 anos.’


RODA DE FOGO (1986): No embalo da abertura política, a novela expunha a ditadura do capital ao contar a história do inescrupuloso Renato Villar (Tarcísio Meira), que descobria ter uma doença incurável. De malvado (mas lindo demais), Renato quase é salvo pela audiência, que passou a implorar ao autor pela sua cura. Em vão.


O SALVADOR DA PÁTRIA (1989): Contava a história de um sujeito do povo que ascendia socialmente. Fez muito barulho e sofreu interferência direta do governo, que viu semelhanças entre Sassá Mutema (Lima Duarte) e o então candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


ZAZÁ (1997): A singela comédia que contou as aventuras fantasiosas de Mariza Dumont (Fernanda Montenegro, foto), suposta filha de Santos Dumont, mostrou a versatilidade de Muniz como autor. Mesmo com leveza, o tema da aids teve espaço na trama, atitude realmente corajosa no horário das 7.


CIDADÃO BRASILEIRO (2006): Na sua estreia na Record, Muniz voltou à novela-saga, para contar a história de Antonio Maciel (Gabriel Braga Nunes). Cheia de reviravoltas, a trama acompanhou o personagem e a história do Brasil de 1955 a 2006, bem ao gosto do autor.’


 


 


 


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