Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Só jornalistas produzem informação?

Por Maurício Tuffani em 28/10/2008 na edição 509

Cientistas, professores e especialistas de todas as diversas áreas do conhecimento não têm as qualificações profissionais necessárias para produzir informações sobre os assuntos aos quais se dedicam, pois essa é uma atribuição exclusiva de jornalistas. Isso é o que se deduz de afirmações feitas anteontem (terça-feira, 21/10/2008) pelo jornalista Rogério Christofoletti, professor de jornalismo da Univali (Universidade do Vale do Itajaí), com a postagem ‘Um estrabismo insistente estreita mais a razão’, em seu blog Monitorando, reproduzido neste Observatório.


Essa estranha tese da atribuição exclusiva dos jornalistas de produzir informações seria respaldada pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, das Nações Unidas, segundo o professor, que também é membro do Conselho Administrativo da SBPJor (Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo), assessor do Ministério da Educação para o Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) na área de jornalismo, membro de Comissão Verificadora de Curso do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina e ex-vice presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Santa Catarina.


Segundo o pesquisador, o documento das Nações Unidas, que foi assinado em 1948, tem de ser lido com atenção, especialmente no que se refere ao seu artigo XIX, cujo teor é o seguinte:




‘Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.’


Christofoletti ressalta, com negrito, que ‘o artigo não menciona ‘produzir’ ou ‘elaborar’ informações’. E acrescenta:




‘Isto é, o direito vige numa esfera ampla, generalista, e não restritiva ao mundo do trabalho. Jornalistas também são cidadãos, e também gozam do direito da livre expressão. Mas em sua condição profissional, produzem, elaboram, difundem informações com o propósito de abastecer a sociedade com dados que permitam uma compreensão melhor da realidade.’


Trocando em miúdos: quer dizer que informação, segundo esse documento das Nações Unidas, é só a informação jornalística?


Forçada de barra


É certo que o professor está completamente equivocado. Não vale a pena prosseguir repisando esse equívoco, que se deveu a uma forçada de barra para tentar refutar minha postagem ‘O diploma de jornalismo e o estreitamento da razão’ e, acima de tudo, para justificar a obrigatoriedade da formação superior específica em jornalismo para o exercício dessa profissão. O que estava em questão eram as qualificações necessárias para esse exercício. No final das contas, o docente acabou enveredando para uma hermenêutica comprometida com uma tese previamente fechada.


Se Christofoletti pretende realmente pôr em prática, como afirmou em sua postagem anterior (‘Discussão sobre o diploma está muito ideologizada’), uma autocrítica em relação a esse assunto, deveria confrontar suas convicções com as de importantes teóricos da comunicação. Entre eles, por exemplo, está um cujo blog, La Page du Médiateur, ele indica: Daniel Cornu, professor do Instituto de Jornalismo e Comunicação, da Universidade de Neuchâtel, de Lausanne, e diretor do Centro Franco-Suíço de Formação de Jornalistas, de Genebra. Para Cornu,




‘O jornalismo é uma `profissão aberta´, que não exige formação específica ou diploma. Sua definição é tautológica: é considerado jornalista quem exerce sua atividade principal na imprensa escrita ou nos meios de comunicação audiovisuais. Mais precisamente, são reconhecidos como jornalistas os agentes da mídia, independentemente dos meios ou técnicas de expressão utilizados, que satisfaçam três critérios: a concepção e realização de uma produção intelectual, uma relação deste trabalho com a informação, além do critério de atualidade.’ (Daniel Cornu. Ética da Informação. Tradução de Laureano Pelegrin. Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Coração, 1998, pág. 19.)


Em vez disso, Christofoletti cita indevidamente nesse contexto um artigo recente do jornalista Eugênio Bucci, que já se manifestou contra essa exigência de formação superior específica:




‘Um jornalista, para ser jornalista, não precisa ter diploma. Nós temos inúmeros grandes jornalistas que não têm. É possível ser jornalista sem. A maior parte dos países não exige diploma de jornalista. Na realidade concreta do Brasil, no entanto, o diploma ajudou a profissionalizar o mercado e a elevar o nível das redações, garantindo um piso salarial, entre outros.’ (Entrevista a Thaís Naldoni, Portal Imprensa, 14/11/2005)


Por muito pouco o equívoco de Christofoletti não o levou a posições como aquela de que os ‘blogs informativos têm de ser assinados por jornalistas’, atribuída a José Nunes, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, por Marcelo Träsel, do blog Martelada. A corajosa proposta teria sido apresentada no famoso e histórico ‘debate a favor da obrigatoriedade do diploma’, realizado em 13/08/2008 no Centro Universitário Feevale, de Novo Hamburgo, alertado pelo blog E Você com isso?, do jornalista Marcelo Soares, com sua postagem ‘Debate seguro’.


 


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Jornalista especializado em ciência e meio ambiente, editor do blog Laudas Críticas

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