Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

DIRETóRIO ACADêMICO > DIPLOMA DESNECESSÁRIO

Sobre cozinheiros e jornalistas

Por Lelê Teles em 23/06/2009 na edição 543

Eltinho é meu amigo desde a adolescência. Éramos punks e mal encarados. Eltinho tinha cabelo moicano, tomava cachaça no gargalo, cuspia e escarrava em tudo e em todos. Nos acampamentos a que íamos, Eltinho e eu gostávamos de cozinhar: macarrão com sardinha, feijoada de latinha, cream cracker com feijão, linguicinha frita; gororobas.


Na semana passada, encontrei o velho amigo em um show. Tem três filhos, é casado, está com uma cara corada e um aspecto saudável. Tomava scotch. Disse-me que é o chef (executivo) de cozinha do Hotel Nacional, um dos mais tradicionais de Brasília. Eltinho frequentou escolas para aperfeiçoar o seu ofício, que ele define como arte. Mas não foi escola alguma que o levou ao métier, foi o seu interesse, a oportunidade e o ‘jeito para a coisa’. Ele me disse que tem um monte de filhinho de papai fazendo excelentes cursos mundo afora e que jamais serão grandes cozinheiros.


Eu, que à época do punkismo andava andrajoso, vociferante, irascível, antimoda, antimédia, antimedo, antígona, disse ao amigo que sou escritor e roteirista e que depois de uma competente carreira como publicitário me tornei secretário de comunicação. E disse que igualmente não foi a faculdade que me levou à publicidade. Quando estudei Jornalismo na UnB, achava que não deveria existir curso de publicidade em universidade federal – e ainda acho. Eu e Eltinho entramos para nossas atuais profissões por amor a elas, por senso de oportunidade e por sermos capazes para tais ofícios. Nas nossas profissões, os grandes profissionais não se importam com diplomas.


O mesmo direito de outras profissões


Ontem (17/6) o STF decidiu pela não obrigatoriedade do diploma para jornalistas. Acho correto e louvável. Na maioria dos países do mundo é assim. A Fenaj ficou furiosa. E eu fiquei desconfiado dessa fúria. A lei não proíbe que faculdades ensinem Jornalismo e formem jornalistas, a lei não proíbe os jornais de contratarem jornalistas formados em faculdades. O que houve foi a extinção da lei que exigia o diploma para exercer o ofício. Ora, não muda quase nada. Volta-se ao tempo em que as redações tinham jornalistas que escreviam extremamente bem e que não tinham formação em Jornalismo. Os juízes, ao seguirem o voto do relator Gilmar Mendes, apenas garantiram o direito de qualquer sujeito poder exercer a profissão, desde que tenha competência para tal. O mesmo direito que têm os cozinheiros, roteiristas, escritores e publicitários.


Quem sabe eu e Eltinho nos encontremos novamente algum dia e encontremos um outro antigo amigo punk exercendo com maestria a profissão de jornalista, mesmo que tenha se formado em música.




‘Qualquer minoria, mesmo uma minoria de operários, tão logo se torne governante ou representante do povo, não mais representará a este povo, mas a si mesma e suas pretensões de governá-lo’ (Mikhail Bakhunin)

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Escritor, publicitário e roteirista, Brasília, DF

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