Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Sobre raposas e ovelhinhas

28/04/2009 na edição 535

Talvez não venha ao caso no início desta espécie de artigo-manifesto eu dizer que estou aos 28 anos no centro do furacão. Mas estou no olho de um tornado, à procura do meu lugar ao sol. Sou quase jornalista e já trabalhei bastante para concluir que em algumas ocasiões me envergonho ou não vejo nada demais em dizer o que tenho feito – estágios. Não convém, também, me estender nos fatores trôpegos que me levaram a tardiamente cursar o Jornalismo. Gostava de escrever e não achava que valia profissionalmente para outra coisa.

Mas com a devida permissão, senhoras e senhores, tomo o direito de fornecer aos que desconhecem o panorama do jornalismo carioca – aquele mais operacional, o reino dos estagiários, repórteres e assessores – a guerra dos releases, por assim dizer. Hoje, no Rio de Janeiro – pesquisei –, no mínimo 60% das redações são compostas de estagiários. Estagiários estão na apuração, um pessoal na faixa dos 21 a 25 anos, e são eles que lidam com assessores de imprensa, nos casos de crise ou de qualquer outro imediatismo. Bem, pode-se dizer que o estagiário está no front line, como em uma guerra, são os soldados rasos do dia D.

‘Cria de redação’

O salário dos estagiários das redações, naturalmente é bem pouco – até aí tudo bem. Nas redações menores, a lei do estágio implantada no segundo semestre de 2008 não existe e como já é praxe dentro do jornalismo, reivindicação trabalhista é um pouco tabu. Afinal este é o meio da indicação, onde você está em um veículo hoje e amanhã está em outro, todo mundo se conhece, todo o cuidado para não queimar o filme é pouco. Com exceção daquele grande grupo carioca de comunicação onde, falem mal ou bem, ainda é – em termos de condições de trabalho – o melhor lugar para o estagiário, esses quase profissionais penam em outros veículos, alguns deles bem grandes.

É o caso daquela emissora paulista, cujo jornalismo all news é bem forte, tanto na TV como no rádio. Lá, segundo uma fonte estagiária da apuração, o jovem aprendiz que está no sétimo período recebe R$ 370,00 mensais e só nos últimos dois meses implementaram o vale-transporte – a mesma fonte confirmou que no natal chegou a trabalhar 10 horas sem uma escala compensatória. A faculdade, fora os aparatos técnicos necessários para o desenvolvimento do jornalismo em alguns meios, fornece apenas uma cultura de fragmentos para esse estagiário. Já a vivência e uma certa malandragem, é claro que chegam com os anos, mas na ‘guerra dos releases’ que tem vencido são os assessores de imprensa.

Depois de anos em plantões de fim de semana, dia santo, carnaval e de, enfim, ter passado de estagiário para contratado, o jornalista ‘cria de redação’ recebe uma espécie de compensação: o convite para trabalhar em uma assessoria de imprensa. Ora, tentador não? Benefícios, feriados, expediente certinho, fins de semana e demais fatores que proporcionam mais qualidade de vida a este profissional que, mesmo na casa dos trinta anos, já trabalhou vinte anos em dez. E ele está esperto, aprendeu a apurar, conhece todo mundo, sabe como passar uma informação a favor do cliente, sabe gerenciar crises, uma raposa!

Uma colcha de retalhos

São eles que estão na linha de frente das assessorias das secretarias municipais e estaduais e, principalmente, de órgãos importantíssimos em uma cidade como o Rio, como secretarias de segurança e transportes, por exemplo. A apuração é quem checa com os assessores o que acontece. Daí em diante, são as raposas versus as ovelhinhas. Se em uma experiência alguém soltar uma única raposa em um cercado repleto de ovelhas e a raposa sozinha destrinchar no mínimo cinco ovelhinhas em pouquíssimo tempo, nenhum susto, é apenas a natureza cumprindo seu papel. Como no jornalismo de hoje. Devido a este processo quase darwiniano, as matérias constantemente vem com cara de release, jeito de release, são a extensão do release ou da nota.

O resultado é foca-jornalista tomando partido de secretarias, prefeitos e – no Rio, o que é pior – da polícia. É fácil ouvir; ‘vagabundo tem mesmo é que morrer’ de quem apenas deveria reportar. E você se pergunta ‘mas quem é essa pessoa para dar tal pitaco’? Nada mais nada menos do que uma ovelhinha que um dia irá sofrer uma mutação e se transformar em raposa, mas por enquanto é apenas uma colcha de retalhos de cultura superficial do curso universitário que acabou de sair da apuração e ainda não tirou férias.

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Estudante de Jornalismo, Rio de Janeiro, RJ

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