Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Sobre sonhos e jornalismo

08/09/2009 na edição 554

Recordo como se fosse hoje. O objetivo, carregado de ingenuidade, era tornar-me comentarista esportivo. Àquela época, ainda cursava a graduação de Relações Internacionais. Não era a minha praia, definitivamente. Encarei um vestibular e fui aprovado para o curso de Comunicação Social, com especialização em Jornalismo. Eu queria apenas ser comentarista esportivo, que na verdade significa comentarista de futebol, indivíduo que faz a mesma coisa que os profetas de plantão: palpitam baseados nas forças da adivinhação.

Até então, o jornalismo não despertava em mim qualquer paixão digna de loucuras. Lia jornais, assistia a noticiários, freqüentava sites noticiosos, dispensava alguma atenção às grandes reportagens, principalmente quando envolviam um enredo de aventura. Ainda era um virgem no trato com a imprensa, sequer desconfiava de algo.

Os anos na faculdade passaram-se e meus olhos receberam raios luminosos, esclarecedores do modelo de imprensa vigente no país. Ainda há quem diga que o diploma é desnecessário. As primeiras falcatruas aprendemos a repelir (ou a repetir) nos bancos da academia. Comecei a ler nas entrelinhas, a decifrar artimanhas, a me interessar pela história pregressa de quem me mantinha informado. Avultou-se em mim um sentimento de decepção asfixiante, que por pouco não me levou a abandonar o curso de Jornalismo. A essa altura, meu sonho de exercer o comentário esportivo já se havia diluído.

O rabo entre as pernas

Segui em frente, mesmo desconfiando que aquele jogo praticado nas redações eu não poderia, nem queria, jogar. Alguns lampejos de esperança vez por outra inundavam minha cabeça e levavam-me a pensar: ‘Há espaço para quem realmente deseja fazer um jornalismo honesto.’

Creio que pratiquei o auto-engano. Estava na cara. Foram quatro anos de avisos que insistentemente me recusei a enxergar. Os sinais inundavam o ar. Mas minha percepção foi tardia.

Desde sempre escutei sobre os conchavos e as dificuldades para se adentrar no jet set do jornalismo verde e amarelo, que na verdade é marrom. As redações, em muitos aspectos, assemelham-se a verdadeiras capitanias hereditárias. Sobrenome desconhecido pelo mundinho da informação é desprezado sumariamente, salvo raras exceções.

Se, por um lance de sorte, você for aceito no círculo restrito e exclusivo, por favor, mantenha o rabo entre as pernas, lição esta que aprendi desde cedo. Independência, arrojo, opiniões fortes e polêmicas, indiferença em relação aos ricos e famosos, ar tresloucado, vida boêmia, escondam tudo debaixo do tapete.

Atitudes ‘inadequadas’

Até mesmo a característica mais conhecida dos jornalistas, a atração irremediável pelo copo da noite, foi decepada. Agora, só gentlemen, poliglotas e polidos, de ar fresco e perfumado, diplomatas sem sangue, poodles de madame, são aceitos entre os profissionais do ramo, o que não significa em hipótese alguma substância e correção no exercício do trabalho. Ao passo que a inadequação a estereótipos aceitos e bem-vindos de bom comportamento significa irresponsabilidade e falta de capacidade.

Por mérito, após passar por provas admissionais, consegui um estágio numa grande redação. A realidade pesou em meus ombros. Ali vi com quantos paus são construídas as jangadas da hipocrisia, do conchavo, do acerto entre governo e imprensa, ali o ‘cala a boca’ apresentou-se sem cerimônia e me deixou atônito. Matérias cortadas e editadas para a defesa de políticos, pautas idiotas sobrepondo-se a assuntos de real interesse da população, mesquinharias internas que afetavam o trabalho de todos, vaidades disputando os mínimos espaços da publicação, gente sem competência dirigindo opiniões a milhares, sorrisos maliciosos e orgulhosos com o trabalho sujo colocado em prática. No fim, todos estavam preocupados com suas carreiras e ninguém atentava para o assassinato do jornalismo que estava em curso naquelas salas.

Num exercício de autoflagelação, confesso que não continuei no templo dos horrores porque não fui um dos escolhidos. Sabia que necessitaria experiência em um grande veículo para fazer decolar minha carreira. Não sei o que mais contribuiu para meu desligamento, se o trabalho realizado ou minhas atitudes ‘inadequadas’.

A um passo do nojo definitivo

Hoje, já formado, estou desempregado. Desempregado e desiludido. É deprimente ler nossos jornais e revistas – e aqui atiro em todos, tanto os apaniguados da oposição quanto do governo. Nossa imprensa é anêmica, não ativa o debate na sociedade, não desvenda os pecados, é rica em insinuações desvairadas, não discute seriamente o país, não consegue sustentar o peso e a responsabilidade que uma função pública, como o é o jornalismo, demanda. Os jornalistas brincam de escrever matérias, o povo sequer finge que lê.

Que me perdoem os coleguinhas, mas nós somos tão culpados quanto os donos da mídia. Sim, pois somos nós, autênticos peões de caneta, que realizamos o serviço pérfido sem o menor questionamento, pois todos queremos salvar nosso pescoço. Quanta falta faz a autocrítica.

Mesmo desiludido e apreensivo quanto ao futuro, insisto em manter um blog onde procuro publicar, dentre outras coisas, minha percepção sobre os desvios de nossa imprensa. É o que está ao meu alcance por agora. No mais, torço para que alguém mais capacitado e elevado que eu consiga arejar as cabeças que comandam nossa mídia para que implantemos um jornalismo decente, base de sustentação de qualquer democracia.

Esta tarefa vai além de minhas possibilidades, pois, como já disse, queria apenas ser um comentarista esportivo. Hoje, além de ter meu sonho sepultado, estou a um passo de enojar-me definitivamente com aquilo que passou a ser uma de minhas paixões, o jornalismo.

******

Jornalista, Rio Piracicaba, MG

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