Domingo, 15 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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Sorria, você está sendo enganado!

Por Sérgio Luís Domingues em 08/08/2006 na edição 273

Que a mídia, seja ela impressa, radiofônica, televisiva, virtual, nunca foi de dizer a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade, não é nenhuma novidade. Mas o que quase ninguém parou pra pensar é se somos mesmo enganados todo o tempo, e até que ponto este engodo acontece.

Por volta de 700 a.C. surgiu na Grécia a tecnologia mais excludente que o homem já produziu: o alfabeto. De lá pra cá, o mundo passou a ser também lido, e não mais somente falado. Assim, quem não soubesse ler estaria excluído desse novo mundo das letras. Fenômeno semelhante ocorre agora com a mídia. Vivemos em plena era da mídia. Portanto, ou a estudamos e a compreendemos ou podemos ser chamados de ‘midiotas’, já que sem a compreensão dos processos midiáticos somos todos massa de manobra de seus interesses nada altruísticos ou democráticos.

A mídia nos faz meras referências numéricas de audiência, não dando satisfação do porquê é necessário a nossas vidas o bombardeio de informações a que estamos submetidos diuturnamente. E, como já é sabido, o acumulo de informação serve para ‘narcotizar’ o cidadão em vez de estimulá-lo. Esta disfunção narcotizante provocada pela mídia tem o objetivo perverso de confundir o fato de conhecer os problemas cotidianos com a prática salutar de atuar sobre eles, ou seja, sabemos o que está ocorrendo no Brasil e no mundo, mas somos incapazes de compreender tais processos, e muito menos os reais motivos desses acontecimentos. Em resumo, a ignorância é diabolicamente criada para ser explorada.

Concordo com o brado de Guy Debord na obra A sociedade do espetáculo: a mídia espetaculariza a tudo e a todos de forma que o cidadão passa a fazer parte de um teatro, mas jamais como protagonista, e sim como figurante. Logo, o jornalismo, que deveria ser esteio imparcial de toda sociedade dita democrática, passa a ser peça integrante dessa manobra para narcotizar o cidadão tornando-o praticamente imune a toda sorte de absurdos gerados; por exemplo, pelos políticos.

A própria atriz Fernanda Montenegro, que acaba de representar a vilã Bia Falcão na novela Belíssima, da Globo, disse ter se espantado com o ‘afrouxamento moral’ do povo brasileiro, que aceitou passivamente o fim da trama, no qual sua personagem escapa impune de todos os crimes.

Notícia unilateral

Vivemos cercados de câmeras por todos os lados. Nossa vida privada praticamente se confunde com a pública, pois é vigiada em escolas, fábricas, escritórios, praças, prédios, elevadores, condomínios e até em residências. O momento lembra muito a obra 1984, de George Orwell, em que todos viviam sob o jugo do grande irmão que tudo via e sabia. E aqueles que pensavam diferente cometiam crime de ‘crimidéia’, eram capturados e vaporizados pela ‘polícia do pensamento’.

Se aprofundarmos nossas reflexões, podemos entender que qualquer jornalista, ao se recusar a pactuar deste bombardeio midiático à bola da vez, seja quem ou o que for, não será vaporizado, mas posto de fora no mercado de trabalho, já que vivemos numa sociedade estruturada por redes de informação e ambientada pela mídia.

Após o ataque ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos iniciaram uma ofensiva militar cruel e humilhante contra o Afeganistão e o Iraque, estruturados numa mentira sobre a suposta indústria de armas de destruição em massa do Iraque. Toda a mídia deu a notícia de forma unilateral, sem checar se a argumentação norte-americana era realmente procedente. A ONU fez papel de boba da corte, sem ter sido capaz de enfrentar a nação mais poderosa e armada do mundo. Aliás, quem detém o maior arsenal de armas de destruição em massa do mundo são os Estados Unidos, e não o Iraque, que só detinha um presidente que era uma pedra no sapato do Tio Sam e necessitava ser removido a qualquer preço, mesmo debaixo de sangue.

Desumanização e marginalização

Mais recentemente o bombardeio midiático lacaio foi contra o Irã – desta vez, o objetivo era buscar respaldo perante a opinião pública para um ‘ataque-defesa’, digamos profilático, contra aqueles que ameaçariam o Ocidente, com a insistente mania de produzir armas atômicas, a exemplo da Coréia do Norte. Esta insistência em repetir, sem crítica, os argumentos do poder dominante é um sinal do abismo que separa a mídia de assegurar o direito à informação ao cidadão, e de como pode ser convertida em instrumento de narcotização da sociedade e conseqüentemente em ameaça à paz, uma vez que ao não divulgar os reais motivos por trás dos ataques a opinião publica é incapaz de se insurgir contra tais determinações, já que lhe falta argumentos para formar um juízo coerente e ponderado.

Como não pretendo também enganar o leitor, posso dizer que o Irã é um obstáculo dos Estados Unidos no controle do Oriente Médio e seus dois terços das reservas de petróleo do mundo. Lembre-se que o Iraque já foi quase anexado.

Uma outra técnica utilizada pela mídia para enganar o espectador é o processo de desumanização e marginalização, atualmente em curso na África subsaariana, simplesmente deixada de lado no jogo da economia informacional e globalizada. No início da década de 90, a receita do conjunto de seus 45 paises, com população de cerca de 500 milhões de habitantes, atingiu apenas US$ 36 bilhões. Esta cifra corresponde a menos da metade das exportações de Hong Kong no mesmo período. Ou seja, estamos solenemente ignorando o surgimento do Quarto Mundo, como nos diz Manuel Castells em A sociedade em rede. De tempos em tempos, uma meia dúzia de astros da música em baixa faz um espetáculo para arrecadar fundos a fim de dar uma refeição aos miseráveis, que insistem em ter fome e, por isso, se engalfinham no chão em disputa de caixas de alimentos lançadas dos aviões, como se fossem animais.

Só falta o nariz

Já os ecologistas aprenderam rapidamente a produzir espetáculos midiáticos para receber atenção às suas causas, ao contrário da fome negra que não tem nada de espetacular, os ambientalistas têm aulas de como serem detidos em frente às câmeras de televisão, arriscam a vida a bordo de barquinhos perseguindo e se acorrentando a gigantescos navios, gerando no inconsciente coletivo dos espectadores, imagens arquetípicas de David contra Golias, provocando com isso, comoção e audiência.

Os políticos e os partidos também já aprenderam que os eleitores formam suas opiniões pela mídia, sobretudo a televisiva. Desta forma, para atuar sobre mentes e vontades das pessoas, utilizam-se da mídia para influenciar e persuadir os eleitores.

Com isso, desde que os meios de comunicação mantenham relativa autonomia em relação ao poder político, os ‘atores’ políticos acabam tendo de obedecer às regras e sujeitar-se ao teatro midiático. A política passa a ser inserida na mídia e assim o governo vira refém da mídia – e a mídia do governo que detém publicidade e concessões. E assistindo a tudo isso o cidadão, que para palhaço só falta o nariz.

Milionários anencefálicos

Um exemplo atual foi o anúncio da escolha pelo governo Lula do padrão japonês da televisão digital. Este era o interesse dos grandes proprietários de veículos de comunicação, porque o modelo não permite a criação de novos canais, ou seja, a concorrência não será aumentada. E como estamos em ano eleitoral, com este ‘mimo’ às grandes redes, o governo praticamente se imuniza contra novas surpresas jornalísticas em época tão imprópria. Mais uma vez o cidadão que paga imposto, sai enganado.

Uma outra mentira difundida pelos donos das tevês abertas é que ela é 100% gratuita. Segundo cálculos do Fundo Nacional para Democratização da Comunicação (FNDC), em 2005 a televisão aberta faturou, R$ 9,507 bilhões com publicidade. Considerando que existem no país 46.733.120 domicílios com receptores de tevê, cada morador desembolsou R$ 203,44 ao longo do ano, ou R$ 16,95 por mês. Porque o custo dos anúncios, tanto de empresas privadas quanto do próprio governo, é repassado diretamente aos preços dos produtos e às tarifas públicas. A taxa é invisível, não gera boleto mensal, mas existe e está embutida em tudo o que consumimos. Por isso a audiência é tão valiosa quanto o ouro.

Por conta de serem capazes de gerar audiência, apresentadores e apresentadoras anencefálicos ganham salários milionários na mídia. Alguns até são capazes de tudo por um punhado de telespectadores, como foi o caso de Gugu Liberato, que fraudou entrevista com líderes do PCC e depois se soube que tudo não passou de encenação criminosa. Seu programa foi retirado do ar uma única vez e Liberato conseguiu acordo nojento com o Ministério Público, que o condenou ao fornecimento de cestas básicas a entidades assistenciais.

Construção e destruição

Já que nossa audiência vale ouro, concordo com Domenico De Masi, em O ócio criativo, quando afirma que deveríamos cobrar por nossa atenção, pois estamos permitindo que nos roubem, uma vez que a mídia ganha milhões com produtos e serviços anunciados a nós. Propaganda esta muitas vezes enganosa. Basta consultar os sites dos Procons.

Assim, complementando a tese de De Masi, sugiro que em vez do ‘pay per view’ (pagar para ver) famoso nos canais por assinatura, passemos a reivindicar o ‘earn to watch’ (ganhar para assistir), já que sem a nossa audiência, não teria sentido anúncio algum.

Além de participantes passivos de um esquema milionário, a mídia também endeusa de forma cruel aquele que consegue, por algum motivo, ficar sob seus holofotes. Depois de exposta a imagem, a mídia cospe o que sobrar como a cascavel a vomitar os ossos de sua presa. Um exemplo bem claro ocorreu com o médico sul-africano Christian Barnard, que em 3 de dezembro de 1967 entrou para a história da medicina ao realizar o primeiro transplante cardíaco do mundo. No dia seguinte à cirurgia, sua presença era disputada em programas ao vivo, em redes de tevê, que queriam sua opinião sobre a guerra-fria, os programas, espacial e nuclear norte-americanos. Anos após Barnard declarou não saber o que dizer sobre aqueles assuntos, pois sempre fora ‘somente um médico’. O exemplo ainda pode ser notado quando se coloca o microfone na boca de esportistas e artistas de televisão em programas de auditório.

Este processo de construção e destruição de celebridades é muito rápido. Os holofotes midiáticos quando se voltam para uma pessoa seguem o cronômetro, ou seja, se não proporcionar um bom espetáculo seu tempo acaba e a mídia procurará outro participante do jogo. Veja o exemplo de Adriane Galisteu, posta sob foco por causa da morte de Ayrton Senna, com o cronômetro acionado, a jovem loura conseguiu se sustentar no teste da celebridade imediata e permanece na mídia até hoje. O contrário ocorreu com Valéria Zupello, namorada de Dinho, vocalista da banda Mamonas Assassinas, morto também tragicamente em acidente. A moça não correspondeu às expectativas de espetáculo imediatas da mídia e logo foi descartada.

Ser menos humano

Diante do exposto, entendo que o estudo da mídia é fundamental, porque vivemos num universo midiático, nossa mente já é midiática, assim como o é também, alfabética, desta forma, para que deixemos de ser ‘midiotas’, temos de ser capazes de decifrar, apreciar, criticar e compor cenários de mídia, por nossa própria cabeça, e não através da própria mídia como ocorre atualmente.

A mídia exerce seu poder de encantamento sobre a sociedade e de roldão nos narcotiza e engana, tendo como aliados o péssimo nível de educação fornecido pelo governo e a conseqüente falta de leitura. Cada vez mais as pessoas lêem menos, sendo que cada linha demanda um julgamento. Portanto, com a capacidade de julgamento prejudicada pela falta de hábito, passamos a achar cada nova catástrofe, seja ela social ou política, menos importante que a anterior. E na busca em proporcionar espetáculos cada vez maiores ao público, somos expostos a toda sorte de atrocidades, roubalheiras, escândalos que ocorrem debaixo dos nossos narizes de palhaços, já por demais midiotizados.

E se você, chegou até este ponto do texto é porque, assim como eu, já não aceita mais o papel que nos foi imposto nesse jogo de interesses que faz do ser cada vez menos humano.

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Jornalista, consultor de marketing e comunicação, palestrante (www.sergiodomingues.com.br)

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