Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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Textos multimodais: a nova tendência na comunicação

Por Silvio Porfirio, Francisco E.B. de Souza e Luis Carlos Cipriano em 29/07/2015 na edição 861

Com a disseminação das novas tecnologias, o texto vem adquirindo cada vez mais novas configurações, que transcendem as palavras, as frases e, acima de tudo, a modalidade escrita da linguagem. Dizendo de outro modo, a proliferação tecnológica tem instigado a promoção de novas composições textuais, sendo estas constituídas por elementos advindos das múltiplas formas da linguagem (escrita, oral e visual).

De acordo com Nascimento et al. (2011), nas práticas corriqueiras do dia-a-dia da sociedade contemporânea, o espaço concedido à imagem ampliou-se consideravelmente. Os documentos textuais presentes nas práticas cotidianas trazem consigo não apenas a linguagem verbal escrita, mas também um amplo contingente de recursos visuais. Partindo desse pressuposto, há um infinito contingente de elementos imagéticos e visuais, que podem ser empregados na composição textual com fins a acarretar determinados efeitos de sentido, como é o caso, da seleção das cores empregadas em um dado texto, da seleção do tipo de letra, do formato e da cor etc. A materialização de todo esse contingente de elementos revela as particularidades dos propósitos comunicativos do autor, como postula Silva (2014).

De acordo com Moraes (2007), hoje, a composição textual está cada vez mais calcada na mescla da escrita e a imagem, estando tais elementos fazendo parte de uma relação quase que indissociável. Essa junção advém da propalação tecnológica, que tem deflagrado, nos últimos anos, uma intensa adesão ao plano visual. Esse contexto marcado pela difusão tecnológica tem carreado a efervescência de novos formatos textuais. O texto assume, hoje, a condição de multimodal. O que tem facultado a promoção de novas formas e maneiras de ler.

Linguagem verbal escrita e visual

No dizer de Costa Val (2004), os postulados da Análise do Discurso, da Linguística de Texto e da Semiótica trazem consigo modificações na conceituação de texto, erradicando, assim, a perspectiva escrita e frasal que até então ancorava este conceito. Na fala da autora, “pode-se definir texto, hoje, como qualquer produção linguística, falada ou escrita, de qualquer tamanho, que possa fazer sentido numa situação de comunicação humana, isto é, numa situação de interlocução. Por exemplo: uma enciclopédia é um texto, uma aula é um texto, um e-mail é um texto, uma conversa por telefone é um texto, é também texto a fala de uma criança que, dirigindo-se à mãe, aponta um brinquedo e diz ‘té’” (p. 1). Dentro dessa perspectiva, o texto é uma prática linguística, que pode ter sua construção efetivada não só por meio da escrita, como também da fala. Ora, escrita e fala são registros da linguagem aptos a fazer parte da composição textual.

Luna (2002) também adere a essa perspectiva, mostrando como o texto pode ser algo construído pelos variados registros da linguagem. Para a autora, a construção textual advém da conexão/ união das múltiplas formas da linguagem – verbal [escrita e oral] e não-verbal [visual]. Isso transcende a perspectiva de texto calcada na supremacia da modalidade escrita da linguagem. O texto é, hoje, algo multimodal.

Dionísio (2007) define o texto multimodal como um processo de construção textual ancorado na mobilização de distintos modos de representação. Isso remete não apenas aos textos escritos, mas também aos orais. Diante dessa acepção, a multimodalidade discursiva abarca não só a linguagem verbal escrita, como também outros registros, tais como: a linguagem oral e gestual. Na fala da referida autora, “palavras e gestos, palavras e entonações, palavras e imagens, palavras e tipografia, palavras e sorrisos, palavras e animações etc.” (p. 178).

Nessa conjectura, o texto multimodal consiste em uma construção textual calcada na conexão/ união de elementos provenientes de diferenciados registros da linguagem. Os textos multimodais mais conhecidos são os que estão pautados na junção de elementos alfabéticos e imagéticos (leia-se linguagem verbal escrita e visual, respectivamente). Sobre tal conceituação, podemos mencionar a título de exemplificação: os anúncios, os cartuns, as charges, as histórias em quadrinhos, as propagandas, as tirinhas etc.. Tais gêneros trazem consigo a materialização de signos alfabéticos (letras, palavras e frases) e signos semióticos (imagéticos e visuais). Ou seja, esses gêneros têm sua construção materializada mediante múltiplas e diversificadas semioses.

Leitura e a escrita adquirem novo formato

Os arcabouços teóricos de Nascimento et al. (2011) defendem que nenhum texto é monomodal e/ ou monosemiótico. Pelo contrário, todo texto é multimodal e multisemiótico. Há textos que são materializados unicamente através da escrita. Ainda assim, esses textos trazem consigo marcas e traços multimodais, tais como: cores e fontes diferenciadas em um mesmo texto, o tamanho da fonte, o itálico, o negrito, o sublinhado etc. Para os autores, a predominância da linguagem escrita em um dado texto não significa dizer que este é monomodal. Ainda que um dado texto seja marcado pela supremacia da linguagem escrita e, conseguintemente, pelos elementos alfabéticos, ele pode materializar traços multimodais. Isso acontece quando efetuamos alteramos a cor, a fonte ou o tamanho das letras.

Um exemplo que pode ilustrar bem tal situação. Na escrita de um texto, o autor quer destacar uma frase ou um parágrafo, pois acredita que aquele ponto merece a atenção do leitor. Nessa parte do texto, o autor pode diferenciar a cor, a fonte ou o tamanho, assim como pode inserir nessa parte do texto o negrito, o sublinhado ou o itálico. Todos esses recursos ensejam determinados efeitos de sentidos em uma construção textual. É nessa junção que reside a multimodalidade textual. Isso está em consonância com Dionísio (2007) e Silva (2013).

Nesse sentido, o uso de elementos e recursos multimodais na construção textual enseja a extensão das potencialidades de produção e, em especial, de compreensão de texto. A compreensão textual não é algo resultante apenas do texto verbal, mas abarca um grande leque de elementos semióticos. Ora, o leitor dá sentido ao texto tendo o respaldo não apenas de signos alfabéticos, mas de elementos imagéticos e visuais. Ou seja, os leitores envolvem-se em uma nova forma de ler marcada por documentos textuais materializados por elementos tanto verbais como visuais. A leitura e a escrita vão, então, adquirir um novo formato e uma nova moldagem. A escrita, nesses documentos, está imersa entre um amplo contingente de elementos imagéticos. Isso torna o texto multimodal ou multisemiótico.

Referências

COSTA VAL, M. G. F.. Texto, textualidade e textualização. Pedagogia Cidadã – Cadernos de Formação Língua Portuguesa, Unesp – São Paulo, v. 1, p. 113-124, 2004.

DIONISIO, A. P.. “Multimodalidade discursiva na atividade oral e escrita (atividades)”. In: MARCUSCHI, L. A.; DIONISIO, A. P. (orgs.). Fala e Escrita. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

LUNA, T. S. A pluralidade de vozes em aulas e artigos científicos. Ao Pé da Letra (UFPE), v. 4, 2002.

MORAES, A. S.. Pôster acadêmico: um evento multimodal. Ao Pé da Letra (UFPE. Impresso), v. 09, p. 1, 2007.

MORAES, A. S; DIONÍSIO, A. P.. “O entorno dos pôsteres acadêmicos”. In: Anais do XVII Congresso de Iniciação Científica da UFPE, Recife, 2009.

NASCIMENTO, R. G.; BEZERRA, F. A. S.; HEBERLE, V. M.. “Multiletramentos: iniciação à análise de imagens”. Linguagem & Ensino, v. 14, n. 2, p. 529-552, 2012.

SILVA, S. P.. O Texto Visual na Educação Infantil: contribuições para construção do conhecimento da criança. ArReDia, v. n.º 03, p. 77-101, 2014a.

_____. Multimodalidade, afinal, o que é?. Observatório da Imprensa – Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, São Paulo – SP, v. nº 768, p. 01 – 02, 15 out. 2013.

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Silvio Profirio da Silva, Francisco Ernandes Braga de Souza e Luis Carlos Cipriano são alunos do curso de mestrado profissional em Linguística e Ensino na Universidade Federal da Paraíba

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