Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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‘Tiro de comprometimento’ ou tiros sem compromisso?

Por Luciano Porciuncula Garrido em 28/10/2008 na edição 509

Não restam dúvidas a respeito da má atuação da PMESP no seqüestro de Eloá. A condução do caso foi absolutamente equivocada. Nem vale a pena comentar a malfada decisão que resultou na devolução da jovem ao poder do seqüestrador, coisa absolutamente bisonha sob todos os aspectos: técnico, moral e legal.

O ânimo passional do perpetrador já prenunciava um desfecho trágico do episódio. O clima de tensão levou Lindemberg às efusões de um delírio quase psicótico. Alguns chegaram a traçar-lhe o perfil psicológico semelhante ao do caráter obsessivo-compulsivo, transtorno no qual a ambivalência afetiva – isto é, as oscilações entre amor e ódio – é bastante pronunciada. Assim sendo, o prognóstico do quadro não era dos melhores, e muito menos autorizava a imprudência de tomá-lo apenas como uma ‘crise amorosa’. O fato do perpetrador não ter antecedentes criminais tampouco era razão suficiente para subestimar o seu potencial ofensivo. Por outro lado, em nenhum momento se ouviu falar em possíveis antecedentes psiquiátricos, comportamentais, coisas muito mais relevantes em crimes dessa natureza.

Lição exemplar

Naquelas circunstâncias, e conforme ensinam as técnicas de gerenciamento de crise, todos sabiam que as jovens tomadas em poder de Lindemberg não eram propriamente ‘reféns”, mas sim, ‘vítimas’. Nos casos em que há reféns, a barganha é a motivação central na ação do perpetrador, sendo as negociações muito mais viáveis. Contudo, quando nos deparamos com vítimas, o espaço para negociações fica extremamente reduzido, pois os alvos em poder do perpetrador não se configuram como possíveis instrumentos de troca; eles são, ao contrário, o próprio objeto da ação delituosa. Em casos como esse, portanto, as negociações limitam-se, quando muito, a tentativas precárias de dissuasão verbal, donde muitas vezes se mostram inócuas frente à perturbação mental em que se encontra o autor.

Acrescente-se a tudo isso as interferências constantes de jornalistas e âncoras de TV, que faziam com o perpetrador contato telefônico em tempo real, protagonizando um verdadeiro show de barbaridade. Eis aí o enredo perfeito para um desenlace macabro.

Que as vicissitudes deste episódio nos tragam uma lição exemplar. E que essa lição não se restrinja apenas a formulações tecnicistas para uso operacional dos órgãos de segurança pública. Que o drama vivido em Santo André nos sirva para repensar a atuação de nossas polícias.

Testemunho da consciência

Quais influências sofrem os órgãos de segurança pública para que suas ações não se pautem unicamente por fatores técnicos e científicos na condução de eventos críticos? Que utopia desvairada é essa que obriga a polícia a poupar vidas a todo custo, mesmo quando essa obstinação ‘politicamente correta’ assinala como prelúdio a morte de inocentes?

O pronunciamento de quem comandou a operação é bastante sintomático:

‘Se tivéssemos dado o tiro de comprometimento, os senhores (imprensa) estariam questionando essa decisão.’

Que importam os questionamentos de uma imprensa leiga? Basta apenas que a polícia cumpra o seu dever convicta de sua isenção profissional, de sua capacidade técnica e munida de uma coragem moral inabalável. Se assim não for, continuará refém de toda sorte de hesitações obtusas e de melindres ideológicos, que redundarão inevitavelmente em erros primários de conseqüências desastrosas.

Que a polícia venha sempre a optar pelo ‘tiro de comprometimento’, se o compromisso for com a liberdade e com vida dos inocentes. E aos que titubeiam diante de possíveis questionamentos alheios, recomendo as sábias palavras do apóstolo São Paulo:

A nossa glória é o testemunho de nossa consciência.’

******

Psicólogo, policial civil do Distrito Federal e pós-graduando em Segurança Pública e Direitos Humanos pela Senap/Unieuro, Vicente Pires, DF

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