Terça-feira, 18 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1004
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DIRETóRIO ACADêMICO > PALÁCIO DO PLANALTO

Todos os jornalistas do presidente

Por Ana Guerreiro e Michelle Mattos em 01/02/2005 na edição 314

Eles são jovens. Têm entre 25 e 35 anos, mas já carregam a desilusão e o cansaço com a profissão. As reclamações passam pela rotina exaustiva, pelo estresse, os baixos salários e a dificuldade para confirmar informações com o governo. As jornadas de trabalho ultrapassam dez horas, principalmente porque as empresas de comunicação vivem dificuldades financeiras, cortam despesas e contratam menos pessoas. Essa é a rotina dos repórteres que cobrem o Palácio do Planalto, o centro do poder político do país.

Todo dia, mais de 30 jornalistas, de diversos veículos, chegam ao primeiro andar do Planalto. Por volta das 10h, a sala do comitê de imprensa começa a encher. Dali saem as notícias sobre o que faz e diz o presidente da República. O que a maioria da população desconhece é como isso é feito.

A cobertura do comitê

‘Aqui nós fazemos jornalismo de portaria, ficamos à espera dos que vêm e vão’, conta a repórter da Radiobrás Ana Paula Amarra. Enquanto esperam o início das solenidades ou a visita de políticos ao Planalto, os jornalistas passam o tempo assistindo a uma das TVs ligadas na GloboNews, navegando na internet – seja para pesquisar ou acessar o Orkut –, lendo jornais ou conversando com os colegas. Ao menor sinal de movimentação, como o grito de um fotógrafo avisando que alguém chegou ou está indo embora, eles saem correndo com os bloquinhos na mão e as perguntas na ponta da língua.

De volta à sala do comitê, grudados nos gravadores, celulares e laptops, os repórteres reproduzem as falas das autoridades e decidem o enfoque do que será manchete nos jornais do dia seguinte. No fim, é possível perceber que as matérias são praticamente iguais.

Após a visita do presidente da Bulgária (quarta, 12/1), a Folha de S.Paulo, O Globo e Estado de S.Paulo deram destaque ao almoço self service de recepção à delegação búlgara no Itamaraty. Outros jornais também seguiram a mesma linha e o ‘almoço sem garçom’ tornou-se mais importante do que diversos fatos do país. Ainda que ali nada seja combinado explicitamente, os jornalistas não se preocupam em esconder que, na maioria das vezes, por orientação dos editores, eles têm que correr atrás da informação que estão todos dando e não do que pode ser inédito.

O repórter da CBN Lincon Macário explica que quem consegue a maior parte das informações exclusivas não são os jornalistas que cobrem o Planalto cotidianamente. ‘A gente vê colunistas como Franklin Martins (Globo) e Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo) que sobem direto, conseguem a informação e vão embora.’ Enquanto isso, os jornalistas da sala no primeiro andar acompanham a agenda do presidente. Há dias em que o trabalho começa cedo e termina depois das 22h. ‘O pior de todos era o Collor, que ficava aqui até uma da manhã e não fazia nada, não saia notícia’, conta o fotógrafo da Radiobrás Roberto da Costa Barroso.

O trabalho na Secretaria

No segundo andar do Palácio, na Secretaria de Imprensa e Divulgação (SID), o expediente começa cedo, às 8 horas. A pequena equipe de assessoria de imprensa do presidente se divide para atender à demanda da mídia nacional e internacional. Além de responder as questões dos jornalistas, a SID acompanha o que é noticiado sobre o presidente para saber como os assuntos são tratados e também corrigir possíveis erros. ‘A gente não questiona opinião. Se um jornalista acha que o governo não deve comprar o avião presidencial, é um direito dele, mas se ele publica o valor da compra errado, nós corrigimos’, explica o secretário de Imprensa do presidente, Fábio Kerche.

Existe um cuidado muito grande com as informações divulgadas pela SID, pois o que é dito se torna oficial. ‘A Secretaria de Imprensa não tem o direito de deduzir, divulga-se somente o que está confirmado. Nunca se cria um fato’, afirma Frances Coelho, editora-chefe do site de divulgação da SID. De acordo com o assessor regional Ivan Marsiglia, o tratamento dispensado à imprensa é igual para todos os veículos – porém, a preocupação com a repercussão das notícias em determinados jornais é maior. ‘Se sai algo na mídia impressa, esperamos até a noite para ver se o Jornal Nacional vai dar. Se não der, é como se não tivesse acontecido’, diz.

Na SID, as atividades aumentam com a chegada dos jornalistas no comitê. Os repórteres ligam para saber o andamento da agenda, se está correndo tudo como o previsto, verificar os participantes das reuniões e tentar confirmar alguma especulação.

Em 2003 e 2004, a secretaria atendeu 33.696 telefonemas, uma média de 53 por dia. Conversou pessoalmente com a imprensa 8.908 vezes, mais de 350 por mês. E recebeu um número desconhecido de visitas inesperadas de jornalistas, que sobem para sondar informações. Nos primeiros 15 meses de existência, o site da SID, que é voltado para os profissionais da imprensa, havia publicado 528 agendas, 2.205 notas no ‘Informe da Hora’, 2.304 fotografias e 190 programas de viagem.

Vivendo a História

Os dados não negam que a secretaria se esforça para divulgar as ações do presidente, mas a atividade jornalística requer mais investigação. Segundo a repórter Ana Paula Amarra, a rotina de trabalho no comitê é estressante, pois além de não ter horários, eles ficam à mercê da informação oficial. ‘A gente até entende a insistência deles, o repórter está aqui e tem que ‘parir’ uma notícia’, explica Frances Coelho. O porta-voz adjunto da presidência, Rodrigo Baena Soares, defende a assessoria da acusação de segurar informação. ‘A pressão sobre o jornalista às vezes é contraditória em relação ao tempo da política. O ritmo político é um, o ritmo da imprensa é outro’, afirma.

A repórter do Diário do Comércio e Indústria Carolina Magalhães sintetiza a angústia de muitos colegas. ‘Desistam enquanto é tempo’, alerta. Apesar da reclamação com o excesso de trabalho, muitos ressaltam o privilégio de estar no Planalto e poder acompanhar de perto o desenrolar da História. ‘Todos os assuntos passam por aqui, economia, sucessão no Congresso, reforma ministerial’, diz o repórter do Correio Braziliense Sandro Lima. ‘Você vai contar tudo como quem viu de dentro, você vai viver a História’, acrescenta o repórter da Radiobrás Anderson Arcoverde.

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Estudantes de Jornalismo da Faculdade de Comunicação (FAC) da Universidade de Brasília; matéria produzida originalmente para o jornal-laboratório Campus, da UnB

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