Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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TV UOL e TV Uerj, uma comparação

Por Leila Nogueira em 13/04/2004 na edição 272

Este trabalho analisa, de forma comparativa, a evolução do telejornalismo na Internet. Para isso, escolhemos dois modelos: a TV UOL – formato pioneiro de televisão comercial criado para a rede, e a TV UERJ online – primeira televisão universitária online do Brasil. Através deste estudo buscamos identificar as características de cada um dos produtos para que pudéssemos compreender as mudanças que estão ocorrendo na apuração, na produção e na disseminação das notícias audiovisuais através da rede mundial de computadores. As características inovadoras dos dois modelos servem de base para a criação de uma linguagem própria e de uma nova cultura de acesso à informação.

Na Bahia, cinco redes de televisão investem numa programação local baseada principalmente em programas de formato jornalístico. Independentemente da estrutura, cada uma delas percebeu a necessidade de criar sua própria página na Internet. A TV Aratu usa o espaço apenas para descrever os telejornais e colocar informações pessoais/profissionais sobre os apresentadores. A TV Itapoan e a TV Band/Bahia estão com as páginas em reforma ou manutenção. A TVE e a TV Bahia conseguem ir além, disponiblizando as edições dos telejornais do dia. O problema é que quem tiver o interesse e a tecnologia necessários para acessar essas páginas, vai assistir, na rede, a um produto inicialmente concebido para outro veículo: a televisão. Não há mudança na linguagem, apenas transferência do material de um meio para o outro. Por isso, não consideramos este formato o mais adequado para um estudo, já que apresenta uma evidente defasagem.

O nosso trabalho analisa modelos de produção e transmissão de notícias audiovisuais que estejam buscando explorar melhor as potencialidades tecnológicas de interação, de acesso e de linguagem oferecidas pela internet. Escolhemos, então, dois produtos que se encaixam neste formato: a TV UERJ online – que surgiu em junho de 2001 como a primeira televisão universitária do Brasil na internet – e a TV UOL, emissora de televisão criada, em 1996, pelo provedor de acesso Universo Online para transmitir informação apenas através da internet. Ambos os modelos são pioneiros em seus segmentos. A TV UOL foi a primeira do circuito comercial que surgiu com o objetivo de experimentar as potencialidades da rede. E a TV UERJ online nasceu com a proposta de desenvolver a prática e o ensino de telejornalismo tendo a internet como suporte e como alternativa às grandes redes convencionais.

O Universo Online (UOL) é o maior serviço online e o maior provedor de Internet na América Latina, tendo atingido 29 bilhões de page views no ano de 2001 e alcançado mais de 20 milhões de visitantes únicos. No Brasil e na Argentina, países onde é provedor de acesso, atinge mais de 1,5 milhão de assinantes de acesso em mais de 300 cidades, um público mensal de 20 milhões de pessoas diferentes (unique visitors) e um índice de mais de 70% de penetração no mercado (reach). Lançado em abril de 1996, o UOL Brasil (www.uol.com.br) é o site em língua portuguesa mais visitado no mundo e é atualizado 24 horas por dia. Como fornecedor de conteúdo, o UOL oferece 42 estações e mais de mil diferentes canais, com mais de 7 milhões de páginas de notícias, informação, entretenimento e serviços. O Universo Online foi o primeiro veículo comercial a desenvolver uma emissora de televisão criada especialmente para produção e transmissões pela Internet: a TV UOL. (Informações fornecidas pelo próprio servidor).

A TV UERJ online é uma produção da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O TJ UERJ, disponibilizado por ela, é o primeiro telejornal universitário online do Brasil. Vai ao ar – ao vivo – de segunda a sexta, às cinco e meia da tarde. Além disso, o sítio da TV UERJ online também oferece entrevistas, matérias e outros programas jornalísticos feitos e apresentados pelos alunos. Três dias antes do segundo turno das eleições, por exemplo, uma entrevista com o cientista político Emir Sader foi disponibilizada. Dois apresentadores num estúdio que tinha a redação como cenário conversaram com o estudioso sobre questões relacionadas às Eleições 2002. A entrevista durou onze minutos e dezoito segundos.

Um quadro com dicas ‘para você ter o que fazer’no fim de semana, no domingo 8 de dezembro de 2002, foi apresentado por Bruna Tiziano. Neste quadro não há matérias. Há apenas a apresentadora no estúdio conversando informalmente com o internauta. Um outro quadro com o título ‘outros vídeos’traz reportagens especiais como uma visita ao museu de arte moderna de Niterói ou um passeio que revela a riqueza de detalhes e a beleza arquitetônica do Teatro municipal do Rio de Janeiro. A primeira matéria foi feita por Manoel Magalhães e a segunda, por Aline Thomás. Todas as reportagens são assinadas e a deixa é ‘… para o TJ UERJ online‘. Este é um recurso que dá credibilidade à cobertura, já que mostra o repórter do lugar onde o fato aconteceu, dando a informação para aquele telejornal online.

Excetuando-se as matérias do quadro ‘outros vídeos’, todas as outras têm o texto do repórter disponibilizado na tela. Isso permite que o usuário possa acompanhar o que o repórter está dizendo e até perceber melhor como é a estrutura de uma matéria de televisão com offs, passagem e sonoras. Por exemplo, enquanto assiste à matéria de Flávia Martins sobre Piercings, o internauta pode acompanhar o seguinte texto:

OFF 1 – ELE JÁ FOI ADEREÇO PARA NARIZES E BOCAS DE ÍNDIOS/ SÍMBOLO DE REALEZA NO UMBIGO DAS EGÍPCIAS/ SINAL DE CORAGEM QUANDO COLOCADO NOS MAMILOS DOS GUARDAS DE ROMA/ HOJE, O PIERCING É SINÔNIMO DE MODA, PRINCIPALMENTE PARA OS JOVENS COM MAIS DE DEZOITO ANOS//

PASSAGEM – AQUI NESTA LOJA, 1500 PESSOAS JÁ COLOCARAM PIERCING DESDE FEVEREIRO/ O PREÇO DA JÓIA COM A PERFURAÇÃO VARIA DE 60 A 260 REAIS//

OFF 2 – ANITA, GERENTE DA LOJA, FALA DA LEI QUE PROIBE A PERFURAÇÃO EM MENORES//

SONORA 1 – UMA LEI ESTADUAL, DESDE 98, PROIBE A PERFURAÇÃO EM MENOR DE IDADE/ UMA MENINA QUE VEM AQUI COM 12, 13 ANOS E QUER PERFURAR O UMBIGO AINDA VAI CRESCER E A TENDÊNCIA É QUE A JÓIA SEJA EXPELIDA//

OFF 3 – MAS NÃO É SÓ SAIR EXIBINDO O UMBIGO POR AÍ/ QUEM ADERE À MODA, PRECISA TOMAR CUIDADOS COM A LIMPEZA E SÓ PODE TROCAR A JÓIA APÓS DOIS MESES DA PERFURAÇÃO//

OFF 4 – MESMO SEGUINDO AS ORIENTAÇÕES DO BODY PIERCER, TEM GENTE QUE ENTRA NUMA FURADA…//

SONORA 2 – EU TIVE UMA INFECÇÃO NA ORELHA ASSIM QUE EU FIZ O PIERCING PORQUE UMA BACTÉRIA ENTROU//

OFF 5 – SE VOCÊ QUER FAZER UM PIERCING, NÃO PRECISA FICAR ASSUSTADO/ A BODY PIERCER PÉROLA É RECORDISTA!/ ELA TEM 19 PIERCINGS ESPALHADOS PELO CORPO./ FLÁVIA MARTINS PARA O TJ UERJ ONLINE.//

O link para as matérias é uma imagem parada (foto) que está relacionada com o assunto tratado no VT. Ao lado da foto tem um pequeno título e uma chamada de duas ou três linhas. A linguagem das matérias é bem descontraída, assim como o visual dos repórteres e apresentadores. As pautas procuram mostrar aspectos pouco explorados por outros veículos de comunicação. Numa matéria sobre a Central do Brasil, cuja chamada convida: ‘Conheça por dentro uma das relíquias cariocas’, o repórter Vladmir Nascimento revela que o relógio de quatro faces da estação se destaca entre as construções da cidade e é o maior do mundo com estas características. A duração das matérias é de um minuto e meio a dois minutos.

No domingo, ao invés do TJ UERJ, a TV UERJ online exibe o TJ Esporte que é gravado num cenário azul com a marca TJ Esporte no meio. O programa tem uma pequena escalada e duas apresentadoras (Aline Thomás e Juliana Sá) que ficam em pé para chamar as matérias.

O TJ UERJ foi também o primeiro telejornal universitário brasileiro a ser credenciado no programa de estudantes da rede CNN. Algumas matérias são feitas em parceria com o CNN Student Bureau. Enquanto o VT é exibido em inglês, o texto traduzido pode ser acompanhado ao lado. Dessa forma, as notícias do Rio de janeiro, produzidas pelos estudantes de jornalismo da UERJ podem ser assistidas por pessoas de vários outros países. Uma audiência participativa que dá retorno aos autores das reportagens através de e-mails enviados à redação. Por esta características, o TJ UERJ recebeu o prêmio Luiz Beltrão 2002 – Grupo Inovador – na reunião anual da Intercom, realizada em julho do mesmo ano em Salvador.

A TV UOL ainda não apresenta um formato tão inovador quanto a TV UERJ online, mas também merece ser analisada por ser a primeira emissora de TV comercial a existir na rede. A duração do material disponibilizado na TV UOL é bem maior que as matérias da TV UERJ online. São entrevistas que podem durar de dez a vinte e cinco minutos, tornando-se, às vezes, cansativas para o internauta. Além das entrevistas do UOL News, canal de notícias criado em julho de 2000 sob o comando do jornalista Paulo Henrique Amorim, a TV UOL oferece também outros canais de diversão como o Gerald.UOL, o TV UOL Cinema; o TV UOL Hot ; a TV UOL Música; o Câmera Sport, o Info (canal de informática e tecnologia); Playboy e Vip.

Apesar de ter nascido na internet, a TV UOL ainda segue os padrões da televisão convencional. A formatação, os conteúdos e as abordagens são muito semelhantes aos encontrados nos programas tradicionais de TV. O material é disponibilizado juntamente com um texto que trata do mesmo assunto, mas não segue a estrutura de um texto de TV. É como se eles disponibilizassem uma matéria de um jornal impresso para complementar o material audiovisual. Mas, não há utilização de hipertextos, característica principal das matérias feitas para a internet. (Marcos Palácios define Hipertexto como uma estrutura discursiva Multilinear. Termo que considera mais preciso e mais apropriado do que Não-Linear, por traduzir mais adequadamente a multiplicidade de possibilidades de construção e leitura abertas pelo Hipertexto. In: ‘Hipertexto, Fechamento e o uso do conceito de não-linearidade discursiva’, pp. 7)

Por exemplo, no dia 26/11/2002, às 17h45, era possível acessar um link onde estava a seguinte inscrição: ‘Lula faz criticas ao movimento sindical’. Ao lado, outro link convidava o usuário a assistir a notícia. Paralelamente à tela que abria para reproduzir o trecho o discurso de Luiz Inácio Lula da Silva, aparecia o seguinte texto:

da Redação

Em São Paulo

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva fez críticas ao movimento sindical, depois de ter participado nesta terça-feira de reunião com cerca de 500 sindicalistas em São Paulo. Ele pediu que as centrais sindicais passem por cima das rivalidades em favor da discussão das reformas necessárias. ‘Vai acabar a moleza’, disse. Segundo Lula, em seu governo os sindicalistas não vão precisar reclamar ‘de cima do caminhão’, mas vão ser ‘provocados’a participar do governo e chamados para dizer o que querem e por que querem. O novo presidente declarou que não quer ver os sindicatos preocupados apenas ‘na época da data base’e desaparecidos no resto do ano.

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O material do canal UOL News, da TV UOL, é predominantemente disponibilizado em formato de entrevistas ao jornalista Paulo Henrique Amorim. Na maioria das vezes, as entrevistas são feitas por telefone da redação do UOL News com fontes ou correspondentes em outras cidades. Nos dois casos, o formato se assemelha bastante ao do áudio-tape usado nas televisões convencionais, geralmente quando se tem o repórter no local do acontecimento, mas não há tempo de mandar as imagens para o telejornal.

As reportagens listadas no ‘Tudo num minuto’ seguem esse padrão. O depoimento de Suzane Von Richtofen e do namorado à justiça, apareceu no canal UOL News depois da vinheta do ‘Tudo num minuto’ e de uma breve apresentação de Paulo Henrique Amorim chamando a repórter Adriana Costa. Suzane é acusada de planejar o assassinato dos próprios pais. O crime aconteceu no dia 31 de outubro na casa da família, no bairro do Brooklin, em São Paulo. Ao longo da narração de Adriana sobre o que Suzane teria dito ao juiz, a foto da estudante fica na tela. Quando a repórter fala sobre o depoimento do namorado de Suzane, é a foto dele que é mostrada e o mesmo acontece quando Cristian, irmão da acusada, é citado.

Em seguida, Paulo Henrique chama outra repórter (Camila Garcia) para dar uma notícia sobre violência sexual no campus universitário da USP. Não há imagens, nem fotos para complementar a narração. Um quadro com a figura e o nome da repórter fica parado na tela enquanto ela descreve o que aconteceu. Depois, Paulo Henrique dá outra rápida notícia, fala da cotação do dólar (formato também muito parecido com o que é usado na TV convencional) e encerra a edição. Uma vinheta igual à do início fecha o boletim informativo.

Espelho despedaçado

Na tela que abre, tanto na TV UOL como na TV UERJ online, para a visualização do material audiovisual existem botões onde o internauta pode controlar a exibição. Se ele tiver começado a assistir e o telefone tocar, é possível apertar o pause e depois continuar de onde parou ou até mesmo rever a matéria inteira desde o início. Isto representa um grande avanço em relação ao jornalismo televisivo que – a menos que esteja sendo gravado – não dá ao telespectador a possibilidade de voltar a assistir a matéria que acabou de ser exibida.

Hoje, porém, os sinais de TV ainda são transmitidos, na internet, de forma muito precária. Grande parte dos usuários acessa a rede através de uma conexão telefônica. Isto faz com que a informação audiovisual seja pouco consumida tanto por causa da qualidade quanto pela velocidade. E para ter acesso a telejornais na web, é necessário também um programa de computador que possibilite a visualização das imagens em movimento. O Windows Media Player e o Real Player são alguns deles e podem ser baixados facilmente da rede. Ondas de rádio e até conexão com satélite, já estão começando a ser usadas na navegação, o que permite uma melhor qualidade e uma maior velocidade na transmissão dos dados e nos faz apostar no futuro das notícias audiovisuais na internet.

A interatividade que os jornais de TV tanto perseguem, na internet, é real. Depois de assistir às matérias da TV UERJ online, por exemplo, o usuário pode ainda se comunicar com a equipe responsável pelos produtos e fazer elogios, críticas ou dar sugestões. A forma e o horário de assistir à uma emissora de TV online vai ser determinada pelo internauta, como sugere o próprio slogan da TV UOL: ‘Você escolhe o que e quando assistir’, não precisa ficar preso a uma grade de programação estebelecida pela rede emissora do sinal.

A cada acesso, o percurso de leitura pode ser diferente. Os textos são dispostos em camadas e conectados através de hipertextos. O que permite que a navegação nunca tenha o mesmo começo e o mesmo fim. A forma intrincada de dispor as informações no sítio pode manter o usuário navegando por várias horas seguidas. Até porque, ao contrário dos programas de TV, o jornal online, repleto de hipertextos, não tem um fim estabelecido. O que determina a hora de parar é a saciedade do usuário. Em Hipertexto, Fechamento e o uso do conceito de não-linearidade discursiva (http//www.facom.ufba.br/pesq/cyber/palácios/ hipertexto.htm) Palácios aborda esta questão comparando as formas de leitura:

Uma narrativa tradicional, ou seja, não hipertextual, independentemente de que suporte esteja sendo usado, chega sempre a um fim, ou porque chegamos à última página do livro (mesmo que a ‘ultima’ não seja fisicamente a última, como no caso de Jogo de Amarelinha de Cortazar, ou até mesmo que não haja ‘última página’, como no caso de Composition numéro 1, de Marc Saporta, onde o leitor tem que decidir quando encerrar aquela leitura). O mesmo se pode afirmar com relação a produções cinematográficas que pretendem experimentar com a não-linearidade, como A Estrada Perdida (The Lost Highway), de David Lynch (1996), e Prospero´s Book (A Última Tempestade), de Peter Greenaway (1991). Em seu filme, Greenway experimenta com o recurso de ‘telas dentro de telas’para criar novos efeitos, superpondo vários ‘tempos narrativos’. No entanto, queira-se ou não, eventualmente chegamos a um ‘fechamento’, representado pela projeção do último fotograma no processo de projeção do filme. Com o Hipertexto, o Fechamento não se dá, ou pelo menos não se dá da forma à qual estamos habituados.’

O caminho percorrido remete à metáfora de um labirinto. A construção deste labirinto virtual fica mais clara com as palavras de Lévy (Lévy, Pierre. As tecnologias da inteligência; trad. Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993, pp. 58):

Na medida em que cada conexão suplementar, cada nova camada de programa transforma o funcionamento e o significado do conjunto, o computador emprega a estrutura de um hipertexto, como talvez seja o caso de todo dispositivo técnico complexo. E os usos do computador constituem ainda conexões suplementares, estendendo mais longe o hipertexto, conectando-o a novos agenciamentos, reinventando o significado dos elementos conectados.

Podemos, então, concluir que na rede cada um percorre o seu labirinto por conta própria. O que – no caso das notícias audiovisuais – destrói o conceito de espelho usado no telejornalismo convencional para designar a página inicial do roteiro de um jornal em televisão (sobre o conceito de espelho, ver mais a este respeito em Maciel, Pedro. Jornalismo de Televisão: normas práticas. Porto Alegre: Sagra-Luzzatto, 1995, pp. 81). Trata-se de uma espécie de tabela onde constam todas as matérias na ordem em que elas devem ir ao ar com a devida divisão em blocos e os tempos de duração. A ordem de exibição de cada notícia, neste caso, é definida pela figura do editor-chefe, que as organiza no espelho pelo critério de importância.

A construção do mosaico digital de notícias

A internet, entretanto, oferece a possibilidade de ‘quebrar-se’ o espelho do telejornal convencional e transformá-lo no que chamamos de Mosaico Digital de Notícias (MDN). É como se fragmentássemos a tabela de notícias elaborada pelo editor-chefe e fizéssemos o conteúdo de cada linha virar uma pedra do mosaico. Ou seja, cada matéria que comporia o espelho, agora recebe um título e um subtítulo. Em seguida, é disponibilizada na tela separadamente e associada a uma imagem (foto) referente ao assunto. Tanto a imagem quanto o título e o subtítulo são links que vão levar o usuário à reportagem audiovisual e ao seu respectivo texto com hipertextos.

Observamos que um recurso semelhante é aplicado em boa parte do material disponibilizado pela TV UERJ online e permite ao usuário estabelecer a sua própria ordem de importância e de recepção das mensagens (o TJ UERJ tem um caráter mais factual e segue a mesma linearidade de um jornal de TV, inclusive com a presença de um apresentador-aluno. Este telejornal, que é o principal da TV UERJ online, começa a ser exibido assim que o visitante entra na página). Daí, é possível inferir que a mesma TV online pode estar disponibilizando várias versões personalizadas de um telejornal online ao mesmo tempo. Um outro aspecto a ser considerado é que, com a utilização do MDN, a figura do apresentador – fundamental num noticiário de TV – deixa de ser tão importante, já que o usuário vai poder, ele mesmo, ter acesso não apenas à cabeça da reportagem que está prestes a assistir (jargão telejornalístico, a cabeça da matéria é lida pelo apresentador no estúdio. Corresponde ao lead do jornalismo impresso) como também à integra do texto da matéria desejada.

No caso da TV UERJ online, a metáfora do Mosaico Digital se torna ainda mais aplicável quando observamos o uso de cores para guiar o usuário na escolha do que ele procura. A cor azul clara, por exemplo, é usada nos destaques referentes ao telejornal (TJ UERJ). O verde está presente nas matérias que tratam de esporte e as entrevistas estão relacionadas à cor marrom. O azul escuro faz referência ao Boletim do Telejornal e o vermelho chama a atenção para as câmeras ao vivo do projeto Casa dos Jornalistas, que visa mostrar os batisdores da produção dos programas da TV UERJ online. Mas, aparentemente o modelo ainda está sendo testado, já que a tela destinada a este produto não exibe nenhuma imagem.

Todavia, na ânsia de encontrar novos caminhos dentro do labirinto virtual em busca de notícias, o público de um produto digital pode manifestar um comportamento parecido – em alguns aspectos – com os telespectadores que ficam horas na frente do aparelho de TV, a diferença é que a postura, agora, não é mais passiva. O usuário decide e vai atrás do que ele quer, explorando as conexões entre os hipertextos da rede. (sobre este compostamento, vale observar que, ‘em média, a população que assiste à TV passa mais de três horas diárias exposta ao veículo. Isso representa cerca de 20% do tempo que uma pessoa permanece acordada, considerando-se um período de oito horas diárias de descanso. Esse tempo de exposição é menor nos dias úteis (segunda a sexta-feira), e cresce no fim de semana, chegando a três horas e quarenta e sete minutos aos domingos. No total são mais de 21 horas por semana.’ Souza, Mauro Wilton de (org.). Sujeito, o lado oculto do receptor. São Paulo: Brasiliense, 1995, pp. 103-104)

Considerações finais

Neste trabalho estudamos modelos que, adequando formato e linguagem, tentam explorar melhor as potencialidades do meio cibernético. Os dois produtos analisados apresentam características bem mais inovadoras que as versões dos telejornais baianos que se encontram na rede. A TV UERJ online, por exemplo, dispõe de uma equipe de dezoito pessoas. Uma, exerce a coordenação geral do projeto; duas cuidam da coordenação administrativa e outras duas, coordenam a parte técnica. A concepção e a elaboração dos programas são feitas por oito estagiários e cinco voluntários. Estas pessoas são responsáveis pela disponibilização de produtos pensados exclusivamente para a rede.

O principal questionamento que surge quando se pensa na transposição dos conteúdos de TV para a internet é: por que alguém iria preferir ver na rede o mesmo que pode assistir pela televisão numa tela maior e com uma qualidade melhor da imagem? A resposta talvez nos leve por um outro caminho. O da necessidade das grandes empresas de comunicação de ocupar os espaços na promissora rede mundial de computadores, mesmo sem saber ao certo como fazê-lo. O resultado é o que vemos nas home pages das emissoras de TV da Bahia, que não trazem elementos capazes de contribuir para a nossa análise.

Sabemos que o termo Telejornalismo on line serve, neste momento inicial, apenas como uma referência para o estudo das notícias audiovisuais na rede. A possibilidade de fazer uma matéria multimídia, que utiliza as principais características do impresso, do rádio, da televisão e da internet abre novas perspectivas para o mercado jornalístico. É a convergência de todos os meios a serviço da informação. E o que é melhor: ao alcance não só dos grandes grupos que controlam a comunicação, mas também de vários profissionais dispostos a conhecer melhor as funcionalidades da Internet como suporte tecnológico. Em Telejornalismo, Internet e guerrilha tecnológica (Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna Ltda., 2002, pp. 19), Antônio Brasil nos mostra que a utilização de equipamentos individuais de transmissão de dados está mais perto de nós do que podemos imaginar:

Agora a situação mudou um pouco, com a chegada de uma tecnologia que já está revolucionando a cobertura de notícias internacionais e criando grandes dores de cabeça para os controladores de notícias de todo o mundo. Trata-se do videofone, uma pequena maleta que pode ser transportada por qualquer jornalista, constando de um laptop, uma pequena antena e um telefone celular via satélite. Este sistema, que permite acesso instantâneo e de qualquer lugar à Internet, foi criado por uma empresa britânica, a 7E Communications. O que estava restrito aos videojornalistas, (…) agora explode com as potencialidades de produção e de transmissão de matérias para TV via Internet. Rápido, simples, com baixo custo e longe da censura.

Todas estas transformações tecnológicas refletem em mudanças na própria sociedade em que vivemos provocando alterações também nas formas de relação entre os atores sociais. Na visão de Javier Echeverría (Echeverría, Javier. Internet y periodismo eletrónico. In: www.saladeprensa.org/art08.htm) a rede é uma cidade chamada Telépolis que ainda está em fase de construção, mas que já tem modificado profundamente componentes básicos da vida social. Para ele, está mundando a estrutura econômica e cultural do planeta, rompendo os limites territoriais das cidades e dos estados clássicos e tendendo a gerar uma nova forma de interação global:

el futuro de las formas clásicas de convivencia entre los seres humanos depende cada vez más de su mejor o peor adecuación a la nueva forma de interacción social.

O jornalismo também está buscando um lugar no novo espaço artificial que começa a se estabelecer com a ajuda da tecnologia. Como o próprio Echeverría destaca (Echeverría, Javier. Los Señores del aire: Telépolis y el Tercer Entorno. Barcelona: Ediciones Destino, 1999, pp.314)na internet, o jornalismo passa a atuar numa outra dimensão. O conceito de periodicidade se redefine: os prazos fixos de fechamento deixam de existir, as notícias são atualizadas a todo instante sem a necessidade de destruir o que já foi publicado. Os meios de informação da sociedade contemporânea são capazes de tratar de assuntos atuais, mas também podem disponibilizar seus arquivos, possibilitando ao usuário obter uma vasta pesquisa em poucos minutos.

No caso de telejornais, como os que estamos estudando, a pesquisa apresenta além dos dados, as informações audiovisuais. Considerando este aspecto, a possibilidade de reforçar o papel do jornalismo como guardião da memória coletiva se torna cada vez mais concreta. Esta preocupação foi destacada por Elias Machado Gonçalves no estudo sobre as consequências das transformações tecnológicas no jornalismo (Machado, Elias. La estrutura de la noticia en las redes digitales: Un estudio de las consecuencias de las metamorfosis tecnológicas en el periodismo. In: http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/teses.html, pp. 347):

‘Como es probable que el archivo de los documentos digitales, en caso de que la iniciativa permanezca en las manos de los propios productores, quede condicionado a la viabilidad económica, legal y técnica del proyecto, cabe a todas las instituciones sociales preocupadas en la preservación de la memoria coletiva la elaboración de una legislación que permita el almacenamiento del conjunto de los contenidos considerados como un patrimonio de elevado valor económico y cultural.’

Esta é uma alternativa capaz de afastar o telejornalismo digital do estigma de superficial cristalizado no jornalismo televisivo. Apesar de ser mais indicado disponibilizar na rede matérias curtas – com duração média de dois minutos para que a edição não se torne cansativa -, o limite de espaço não existe. Os assuntos podem ser desdobrados em vários VTs que, juntos, podem proporcionar uma compreensão completa e contextualizada do fato. Na televisão, a notícia tem que ser dada em segundos. Os telejornais têm um tempo pré-determinado e um horário fixo para começar. Se a edição da matéria atrasar, a informação pode não ir ao ar. Na internet, a notícia audiovisual ganha outra dimensão. Ela pode ser disponibilizada assim que o processo de edição for concluído.

Mestranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas na Universidade Federal da Bahia

Referências bibliográficas

Brasil, Antônio Cláudio. Telejornalismo, Internet e guerrilha tecnológica. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna Ltda., 2002

Brasil, Antônio, Arnt, Héris. Telejornalismo on line em debate – Rio de Janeiro: E-Papers Serviços Editoriais, 2002

Echeverría, Javier. Los Señores del aire: Telépolis y el Tercer Entorno. Barcelona: Ediciones Destino, 1999.

Lévy, Pierre. As tecnologias da inteligência: O futuro do pensamento na era informática; trad. Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.

Machado, Arlindo. O sujeito no ciberespaço. In: Prado, José Luiz Aidar (org.). Crítica das práticas midiáticas: da sociedade de massa às ciberculturas. São Paulo: Hacker Editores, 2002.

Maciel, Pedro. Jornalismo de Televisão: normas práticas. Porto Alegre: Sagra-Luzzatto, 1995.

Mielniczuk, Luciana. Interatividade como dispositivo do jornalismo online. In: Gomes, Itania M. M; Mielniczuk, Luciana; Sá, Augusto; Santos, Santos (Orgs.) Temas em Comunicação e Cultura Contemporâneas II. Salvador: Edufba, 2000.

Santaella, Lúcia. Comunicação & Pesquisa: projetos para mestrado e doutorado. São Paulo: Hacker Editores, 2001.

Souza, Mauro Wilton de (org.). Sujeito, o lado oculto do receptor. São Paulo: Brasiliense, 1995.

Referências eletrônicas

Machado, Elias. ‘ La estructura de la noticia en las redes digitales (Un estudio de las consecuencias de las metamorfosis tecnológicas en el periodismo)’. In: (http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/teses.html) (acessado em 8/11/02) Palacios, Marcos.

‘Hipertexto, fechamento e uso do conceito de não-linearidade discursiva’. In: (http//www.facom.ufba.br/pesq/cyber/palácios/ hipertexto.html) (acessado em 09/11/02)

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