Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

DIRETóRIO ACADêMICO > TELEJORNALISMO

TV Globo e o feitiço da cidadania

Por Gilson Caroni Filho em 27/06/2008 na edição 491

O jornalismo imita a arte. Tal como no filme O feitiço do tempo, em que um repórter parte para fazer a cobertura de uma festa e, por algum motivo inexplicável, passa a acordar no mesmo dia, nossa grande mídia parece estar condenada a uma eterna repetição. O tempo passou. A nação reencontrou o caminho da democracia, mas, para boa parte do campo jornalístico, a reconciliação política é algo da ordem do impensável. Perpassada por um caldo de cultura que não admite que a arena do jogo político não comporte mais golpes, nega-se a cumprir sua função fundamental: expressar, com a maior diversidade possível, a complexidade social. Ao não fazê-lo, cerceia o que seria seu fundamento: a liberdade de expressão assegurada no texto constitucional. Torna-se o seu contrário: um obstáculo à efetivação da cidadania.


Quem acompanha a história da imprensa brasileira sabe de suas conexões com interesses dominantes na sociedade fracionada. Conhece, e bem, como são editados fatos e discursos. Tem noção aguda de que a autonomia relativa de uma redação encontra seus limites nos interesses do patronato. Franklin Martins e Helena Chagas estão aí como ‘respaldos de provas robustas’, ‘evidências empíricas que valem seu sal’ como demonstrou, de forma brilhante, Bernardo Kucinski em seu último artigo para Carta Maior.


É de autoria do jornalista Paulo Francis a máxima segundo a qual ‘a história é monótona, a cada minuto nasce um leitor idiota’. Parece que, pelo que temos visto nos últimos anos, a suposta idiotia de leitores e telespectadores é algo datado, sem sinalização concreta nos dias atuais. Ainda assim, convém ficar atento a certas ‘espertezas’ que podem custar caro ao campo democrático-popular. Quando isso ocorre, a direita comemora com blocos editorializados no Jornal Nacional. E, claro, a nau dos insensatos ainda chama de bom jornalismo o que não passa de desabrida propaganda ideológica.


Decisões vinculantes


Está faltando pouco para que as últimas edições do JN tenham fundo musical. Afinal são comemorativas e o regozijo com uma suposta falha do adversário é conhecido do torcedor brasileiro. Se servir para ocultar novos estudos que comprovam os avanços do atual governo, melhor ainda. Saímos do campo futebolístico e adentramos a arena da luta de classes. Com a elegância da boa resolução visual e o capricho nas chamadas.


Recentemente, o frenesi com um suposto dossiê elaborado na Casa Civil não durou nem duas semanas. Ante as flagrante falhas de roteiro, foi substituído pelo ‘caso VarigLog’ que, previsto para ocupar páginas e telas por alguns meses, durou algumas horas de depoimento no Senado.Um resultado inesperado para aqueles que, desde 2006, não se conformam com um fenômeno inédito: uma desgaste político, já consolidado no imaginário do eleitorado urbano, não se desdobrou em derrota eleitoral. E pior, à reeleição seguiu-se uma impressionante recomposição simbólica do governo.


O enredo agora é o ‘retorno da inflação’ e seu impacto sobre o núcleo pobre da novela diariamente apresentada por William Bonner e Fátima Bernardes. Em tom solene, o casal anunciou na edição de quarta-feira que ‘O IPCA de 15 de junho ficou acima do esperado: 0,9%. O índice mede a inflação de quem ganha até 40 salários mínimos. Nos últimos 12 meses, a alta foi de 5,89%. Já o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que mede a inflação para os mais pobres, foi de 6,64%’. O depoimento de uma empregada doméstica serviu como reforço dramático e calculado ingrediente de desinformação funcional: ‘Ivonete Alcântara, que ganha 620 reais por mês, conhece bem essa realidade’. ‘O que a gente comprava no início do ano, hoje só dá para comprar a metade.’


Sejamos francos, só mesmo sendo muito ingênuo para cair no ‘conto dos dossiês’. Qualquer pessoa, com um mínimo de bom senso, farejaria de longe a óbvia ‘trampa’. É o velho jornalismo que, como poucos, sabe servir à direita autoritária e suas lideranças renovadas, habituadas ao jogo em que podem tudo perder, menos os interesses e privilégios. Personagens que se apresentam como novos, ávidos por instaurar um ‘marco zero’ assustador.


Uma imprensa que ignora o princípio da publicidade, não permite à cidadania controlar a informação. Mais que desinformar, avoca para si uma função que não lhe pertence, pretendendo tomar decisões vinculantes para o conjunto da sociedade. Um parlamento midiático, formado por editores tucano-lacerdistas, respaldados por seguidos pronunciamentos de ministros do STF a lhes prometerem sustentação legal em sua aventura.


Sonegação informativa


Ainda mais, e isso é o muito relevante, desde 2006 há vários dossiês sendo escondidos no noticiário global. O primeiro veio do Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio). Para desespero dos expoentes da Teoria da Dependência, que agora elegeram a UDN como modelo: o nível de pobreza caiu 19,18% nos três primeiros anos do governo Lula, o maior recuo em dez anos. Somemos a isso a retomada do emprego, estagnada há uma década, segundo Marcelo Néri, coordenador da pesquisa.


Mas o que mais impressionava no ‘dossiê’ a ser ocultado vinha a seguir: ‘`Os pobres e ricos tiveram ganhos expressivos de renda´, dizia Néri, coordenador da pesquisa. 50% dos mais pobres aumentaram sua renda em 8,5%, enquanto os 10% mais ricos, depois de cinco anos de perdas, tiveram ganhos de cerca 6%. A classe média teve um crescimento um pouco menor, de 5,5% da renda.’ Era esse o governo que privilegiou banqueiros? Com a palavra os editores de Economia. Aqueles que deveriam sempre se pautar por evidências empíricas que valem o sal de todo mês.


Passados dois anos, outros ‘dossiês’ continuam sendo discretamente ocultados sob a forma de breves registros, a serem apagados, rapidamente, no dia seguinte à publicação: a taxa de desemprego, anunciada pelo IBGE, caiu para 7,9%, o segundo menor percentual já registrado pela série histórica do Instituto, desde 2002. Certamente há como neutralizar esse ‘escândalo’. O menor número de desocupados só aumenta os riscos de uma inflação de demanda. Para tudo, dirá um bom editor, há um antídoto farsesco.


Outros ‘dossiês’ dão conta de que o volume de crédito cresceu 32% em um ano; que a Previdência tem maior valor médio de benefícios pagos desde 2001; que a desigualdade de renda do trabalho no Brasil, medida pelo Índice de Gini, teve queda de 7%, entre o quarto trimestre de 2002 e o primeiro de 2008.


Mas o direcionamento do noticiário dos conglomerados deve repetir à exaustão, o que a bancada do Jornal Nacional anunciou como o único fato relevante: ‘Os alimentos foram de novo os vilões da inflação. O arroz subiu 17,09%. Alta também no preço da batata, tomate, macarrão, carne e pão francês. `O que aumentou é o que o pobre come´, disse uma consumidora’.


Pelo visto, a cobertura jornalística continuará não se ocupando com as análises de políticas públicas, mostrando o que é viável ou não. A telecracia continuará impedindo a discussão política que se impõe. O importante é, através de clara sonegação informativa, continuar trabalhando com velhos e novos fantasmas. Será muito difícil para a imprensa fugir de sua própria danação.


Em O Feitiço do Tempo, o personagem só pode seguir em frente na vida se mudar seu caráter. Aqui, justiça seja feita às evidências, a arte não imita o jornalismo.

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Professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/06/2008 Rogério Ferraz Alencar

    ‘Sejamos francos, só mesmo sendo muito ingênuo para cair no ‘conto dos dossiês’. Qualquer pessoa, com um mínimo de bom senso, farejaria de longe a óbvia ‘trampa’.’ Eduardo Goulart, seja franco: você caiu ou não no ‘conto dos dossiês’? Você está ou não entre os personagens que se apresentam como novos, ávidos por instaurar um ‘marco zero’ assustador?

  2. Comentou em 27/06/2008 Andrea Guedes

    Mas do feitiço da boa crítica eles não se livram? É impressão minha ou esse artigo não estava na edição? Gosto de ler o que o Professor escreve, mas juro que não estou entendendo nada quanto à política de publicação do OI. Será que alguém pode me esclarecer? Obrigada.

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