Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Um argumento falso e um jornalismo mais fragilizado

Por Josefa Maria da Silva em 23/06/2009 na edição 543

É possível que nesses dias você tenha lido ou ouvido sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de eliminar a obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão de jornalismo. A meu ver, decisão lamentável! E antes que você, caro leitor, possa imaginar que sou uma pessoa suspeita, digo: sou mesmo. Eu, como muitos outros profissionais que agora estão desolados com esta ‘nobre’ decisão, batalhei muito para estudar por quatro anos. Dispensamos muito tempo e dinheiro para conquistar o tão sonhado ensino superior. O que causa revolta não é só saber que a sociedade vai perder qualidade na informação, mas também a utilização de fracos argumentos para derrubar a necessidade do curso superior.

Entre as desculpas dadas pela Corte está a de que exigir diploma para exercer a profissão fere o direito básico de qualquer cidadão, a tão falada liberdade de expressão. Alguém aí já foi impedido de se expressar durante os 40 anos em que o decreto-lei de 1969 estabeleceu a obrigatoriedade do diploma (exceto, obviamente, pela época em que a ditadura esteve presente no Brasil)? Como diria o nosso presidente, ‘nunca na história deste país’ se teve tanta liberdade para expressar o que se pensa. Os veículos de comunicação sempre disponibilizaram espaços, tanto para os leitores quanto para profissionais de outras áreas, que sempre puderam explanar seus conhecimentos nas famosas colunas.

Conhecimento técnico é desnecessário

É simplesmente ridículo argumentar que a exigência do diploma para exercer o jornalismo fere a liberdade de expressão quando estamos em plena era digital. Qualquer pessoa com o mínimo de interesse pode criar um blog, pode se manifestar por meio de fóruns, Orkut, Facebook e tantas outras ferramentas que estão disponíveis na internet. Portanto, essa idéia ‘não cola’, digníssimos ministros.

Foi alegado também que o jornalismo não provoca danos a terceiros. E quando grande parte da imprensa brasileira divulgou, em 1996, que as crianças da Escola Base, em São Paulo, estavam sendo molestadas pelos proprietários e funcionários da instituição? Os jornalistas ouviram as informações preliminares do delegado, publicaram e a escola e os donos foram atacados. No final do caso, o inquérito foi arquivado por falta de provas. Será que o jornalismo realmente não causa estragos? É claro que o diploma não garante qualidade, mas isso acontece em qualquer profissão. Basta analisar, por exemplo, o baixo índice de aprovação nos exames da OAB nos últimos anos. Generalizar por causa destes casos, sejam eles poucos ou muitos, é irresponsabilidade!

Para os ministros que votaram contra a obrigatoriedade (8 votos a 1), o jornalismo também não exige conhecimento técnico. É lógico que não! Afinal, todo mundo sabe o que é lead, pirâmide invertida, cabeça, notapé, off, sonora, passagem, quais são as técnicas de reportagem, as características e funções da linguagem radiofônica, o que são textos manchetados e corridos, como elaborar um plano de gerenciamento de crise, como funcionam os softwares Sony Vegas, Sound Forge, Adobe Premiere e InDesign. Tudo isso é muito comum à sociedade, não é mesmo?

A que interessa a não formação superior?

Algumas empresas e órgãos de comunicação já se manifestaram, afirmando que continuarão dando prioridade para profissionais formados. Também acredito que isso vá acontecer. A grande pedra no sapato diz respeito à questão salarial. Se antes era raro encontrar uma empresa que respeitava o piso da categoria, imagine agora.

Fica bem claro que a motivação desta decisão nada tem a ver com a defesa dos direitos do indivíduo em relação à liberdade de expressão. O que seria do poder público se não fosse o trabalho da imprensa, que em sua maioria tem profissionais graduados, na divulgação dos desmandos que vimos a todo o momento no país? Como a sociedade teria acesso às informações que têm manchado cada vez mais a imagem dos três poderes? Embora a sociedade tenha o direito (e dever) de fiscalizar as ações dos que nos representam, há muito tempo que a imprensa vem cumprindo com este papel sozinha. Logo, é interessante para eles que os profissionais que correm atrás da informação não tenham formação universitária.

Recado aos estudantes de Jornalismo: não desistam do curso! O conhecimento é a única coisa que não podem nos tirar à força!

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Jornalista, São Sebastião, SP

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