Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

DIRETóRIO ACADêMICO > COMUNICAÇÃO & INTERNET

Um espaço da contradição

Por Moisés dos Santos Viana em 12/10/2010 na edição 611

A forma como a internet pauta a comunicação nos últimos tempos deve ser investigada a partir de pesquisas sérias de recepção e também de pesquisas em outras áreas da comunicação e análise do discurso. Especificamente, deve-se observar como esse fenômeno se apresenta no ponto de vista da transmissão de informação e como esta pauta as discussões sobre política nos fóruns de debate de diversos âmbitos, particularmente em fóruns de grupos acadêmicos. O que me chama a atenção são duas posições específicas, a partir da experiência na participação de um fórum de debate sobre Turismo na universidade onde faço meu mestrado: a) rejeição e distanciamento das discussões por causa de uma suposta objetivação da realidade, que deve ser neutra e isenta; b) e a defesa da posição política a que se pertence e rejeição total das posições adversárias.

A primeira avaliação (rejeição e distanciamento das discussões por causa de uma suposta objetivação da realidade que deve ser neutra e isenta) é uma herança positivista, pois alguns se arrogam a posição da ‘amoralidade’, apresentam-se acima das discussões políticas, quase deuses do saber. Essa posição conservadora que na verdade é uma posição política e fajuta em sua forma e conteúdo destaca-se por um conjunto de enunciados pedindo ordem ao debate, exigindo objetividade e submissão aos bons costumes acadêmicos. Nesse nível, destacam-se a fragilidade das discussões e a falta de sensibilidade política dos colegas. O ser humano, como animal social, não está isento dos posicionamentos políticos, nem mesmo na sua fala ou na significação que ele faz do mundo. A todo instante, inclusive na comunicação comum e cotidiana, há escolhas a serem feitas e estas pautam a vida e a forma de interagir com o outro socialmente falando.

Desse modo, quando num fórum de pesquisadores e acadêmicos, grandes partes destes se distanciam da comunicação da sua posição política, observam-se diversos argumentos para tal questão: a inutilidade das discussões; a falta de objetividade do tema; a irrelevância da política e sua distância das práticas científicas. Nesse momento, a posição de ‘distanciamento’ da política é forjada e reforçada pelo discurso neoliberal da ausência das instituições na vida do indivíduo, o que anula sua participação inclusive nos debates em nome da objetividade técnica, da neutralidade acadêmica, do ser pesquisador, ou mesmo dos interesses pessoais.

Embates maduros e também equívocos

Não há espaço político vazio, o que há são espaços preenchidos por equívocos ou por boatos e ações desvairadas de uma pseudo superioridade moral, por causa da ‘não expressão’ ou esclarecimento da posição política de cada um. No entanto, a ‘não expressão’ não significa neutralidade, ao contrário, significa uma forma de delegar poder. Em geral, a isenção política é uma posição heteronômica, conservadora e reacionária aos avanços políticos, sociais e culturais. Nesse ponto, observa-se que a academia é um recanto e espelho da sociedade, pois não avança, ao contrário retrocede na sua avaliação, na sua contribuição social. A universidade e seus quadros intelectuais parecem ignorar os desafios sociais, a possibilidade da contribuição política ou mesmo o desenvolvimento de uma razão comunicacional capaz de responder as mazelas sociais da nossa população. Essa mesma população que é testemunha dos avanços econômicos mas que está aquém de uma maturidade política e cultural, porque seus intelectuais se nega a discutir política.

Desse modo, não há uma perspectiva apenas, a isenção política. Nos fóruns acadêmicos e na universidade há posições explicitas, há brigas e embates tensos e bem definidos, de apoio e rejeição na atual conjuntura política. O que se observa são argumentos elaborados, vindo de esferas políticas superioras ou mesmo da comunicação orquestrada por profissionais do marketing que veem em redes sociais e na internet um espaço sem lei e sem dono, disponível e susceptível as correntes e a boataria. No entanto, os fóruns podem ser espaços de embates maduros e também equívocos, por falta de experiência e crítica. O nível do debate pode melhorar, dada a possibilidade de contribuição de profissionais, professores, intelectuais e diversos sujeitos comunicacionais.

Um passo de autonomia

No mais das vezes, a experiência política visa a um interesse pessoal, mas nos debates de fóruns ela parece se pautar pelos posicionamentos ideológicos. A ideologia se finda numa visão de mundo, ninguém vive sem ideologia, todos têm uma visão pré-estabelecida da realidade, o que faz com que o sujeito rejeite ou corrobore um determinado posicionamento político, combatendo outras posições, combatendo-as com o cabedal argumentativo típico da academia e temperado pelas paixões da militância. Essa posição política muda. Às vezes, são rejeitadas, mas são construídas sob crenças, discursos, mitos e narrativas cotidianas. A ideologia não é um objeto fixo, sofre transformações pois é vitimada pelo equívoco e a contradição. A ideologia, na sua forma concreta, o discurso, funciona apresentando o velho sob novos aspectos. Ou seja, as posições políticas são perpetuadas com novos embates, novas palavras, novas formas.

A lição que se pretende tirar ao examinar o atualidade da internet e dos fóruns é de que se observa a ausência ou negação da maturidade política. O posicionamento político, o tomar partido, torna-se suspeito, pois a política não é tida como ponto do bem comum, mas como forma de interesse pessoal subjetivismo barato. No entanto, assumir posições políticas e entrar nos debates acarreta não só um passo de autonomia do sujeito como também uma maneira de construir uma sociedade madura onde a razão comunicacional organiza a vida social e política dos sujeitos.

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Jornalista e professor, Itapetinga, BA

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