Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
Menu

DIRETóRIO ACADêMICO > IMPRENSA CATARINENSE

Um olho no Planalto, outro aqui; outro lá…

Por Monitor de Mídia em 04/07/2005 na edição 336

A CPI dos Correios vem ocupando as páginas dos jornais diariamente. Novas denúncias surgiram e em certos momentos mudou-se o foco, mas a abordagem dos três principais jornais catarinenses foi bastante parecida. A maior parte do material veio das agências de notícias, já que a maior parte das informações vinha de São Paulo e de Brasília e os textos não eram assinados. Em meio a uma enxurrada de informações, o Jornal de Santa Catarina surpreendeu seus leitores. E não foi com um grande texto de correspondente. No dia 16 de junho, publicou matéria sobre a conquista da presidência da CPI pelo candidato da situação.

O texto, sem assinatura, trouxe opinião, característica que foge à linha editorial do periódico e se assemelha muito ao praticado pelas revistas semanais. Exemplo é o trecho: ‘A estratégia governista será fazer a CPI andar a passos de tartaruga, com o objetivo de deixar a Polícia Federal cuidar do caso – apesar do ônus de passar à população a imagem de estar atuando mais como pizzaiolo do que investigador’.

Eleições à vista

Com a crise do atual governo, o espaço destinado à política cresceu nas páginas dos diários de Santa Catarina, tanto abordando a esfera federal quanto casos municipais. O momento é bastante oportuno para essas abordagens, já que guerras partidárias estão sendo travadas a partir desses problemas políticos, visando as eleições de 2006.

No dia 18 de junho, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso fez uma palestra no final da Expogestão 2005 em Joinville e A Notícia – que fica na cidade – tratou de oferecer destaque a esse e a outros acontecimentos envolvendo o ex-presidente. FHC apareceu também em nota sobre o recebimento de uma medalha durante sua visita ao Estado. No entanto, sua aparição mais significativa foi em anúncio de agradecimento da prefeitura de Joinville que, provavelmente não por acaso, ocupou a página onde estavam dispostas matérias referentes ao escândalo dos correios. As informações dos textos contrastavam com o sorriso crédulo de FHC no canto da página. No mínimo, curioso…

A edição que opina

Em 17 de junho, a frase de José Dirceu (‘Não me arrependo de nada que fiz. Tenho as mãos limpas, o coração sem amargura. Saio de cabeça erguida do ministério’) estava exposta sob a foto do ex-ministro na capa de AN. Todavia, a imagem em si não condizia em nada com a legenda, já que evidenciava Dirceu caminhando de cabeça baixa com uma das mãos levantadas como se estivesse cobrindo o lado direito do rosto. Uma expressão que passava mais a idéia de vergonha que de orgulho.

Outro caso que mostra como a edição pode deixar uma idéia da posição do veículo ocorreu no dia 22 no Diário Catarinense. A matéria sobre a nova ministra da Casa Civil Dilma Roussef veio acompanhada de um box que citava ‘outra poderosa’. As informações estavam relacionadas à Zélia Cardoso de Mello, ministra da Economia do governo de Fernando Collor de Mello. Fazendo a relação entre Dilma e Zélia, o jornal mostra uma preocupação com a escolha de Lula, uma vez que o box lembrava que uma das implantações da ministra de Collor foi o confisco de dinheiro dos cidadãos. Usando o adjetivo ‘poderosa’, passa a impressão de que o poder público deve estar na mão de homens. Ou algum ministro foi citado como poderoso ao receber o cargo?

‘Quebra-quebra’ e ‘baderna’

A terceira semana de impasses e manifestações por causa do aumento das tarifas no transporte coletivo de Florianópolis, como não poderia deixar de ser, teve espaço no Diário Catarinense e em A Notícia. Com apenas um dia de protestos para noticiar, as matérias produzidas pelos jornais acabaram tendo um tom oficial. A exceção foram as edições do dia 17, que trouxeram o material sobre as manifestações. Essas matérias mostraram a mesma tendência de exaltação nos concorrentes. AN publicou, sob o título ‘Protesto acaba em confronto e quebra-quebra’, que ‘(…) um grupo de manifestantes espalhou o terror pelo centro da cidade’. No DC, o título escolhido foi ‘Capital vive outra noite de baderna’ e trechos mostram que o texto não foi mais ameno: ‘um pequeno grupo de manifestantes tentou depredar um ônibus da empresa Imperatriz. Não satisfeitos, chegaram a subir no teto de um segundo ônibus’ e ‘a ação da PM foi enérgica e eficaz.(…). A PM não poupou a multidão nem veículos presos no trânsito com balas de borracha’.

DC sai na frente

Os textos, tanto em AN quanto no DC, são claros e explicam todos os trâmites para o decreto que deveria revogar o aumento no preço das passagens. Além de conterem os gastos com o transporte coletivo e da onde vai sair o dinheiro que vai sustentar os subsídios. Em termos de informação, entretanto, o diário da Capital mostrou mais preocupação em informar em profundidade seu leitor. No dia 21, por exemplo, DC trouxe quanto as empresas de ônibus deixarão de ganhar, o desconto que elas receberão da prefeitura e a diferença que os empresários terão que bancar enquanto durar o decreto. Material interessante também apareceu no dia 24, quando publicou a avaliação inicial da empresa contratada para analisar o sistema de transporte integrado, as alternativas que os empresários estão buscando para compensar a suspensão do reajuste e a decisão judicial de que os usuários deveriam ser ressarcidos. Na edição do dia anterior, já havia apresentado como fica a situação de motoristas e cobradores sem o reajuste, assim como mostrou que o projeto de Dário Berger tinha muitos aspectos semelhantes com o de Angela Amim que estava tramitando na Câmara. Enfim, um material bem produzido apesar de não enfocar as declarações da população, a quem a suspensão mais interessa.

Manifestações cessam, opiniões não

Os colunistas do estado não deixaram de comentar a movimentação política na Capital devido à confusão que o aumento das tarifas provocou. Mais uma vez, o que se viu nos textos produzidos por Fabian Lemos do DC foi um tom informativo. É o que se pode perceber no dia 16: ‘para acabar com o impasse e evitar maiores desgastes, o Estado teria se comprometido a compensar o R$ 1 milhão que a prefeitura pagará aos empresários. O ‘ressarcimento’ se daria através de obras e convênios’. E no dia 21: ‘A pressão, agora, se volta para a equipe de Jaime Lerner. Eles têm 90 dias para apresentar soluções de barateamento do transporte na Capital’. Situação bem diferente o leitor encontrou nas páginas opinativas de AN. Cláudio Prisco e Moacir Pereira apresentaram posicionamentos e bateram forte no assunto. Exemplo é o texto publicado por Pereira no dia 18: ‘O cenário está transformado (…) em enredo kafkaniano. O prefeito gera a crise, e a Polícia Militar é mobilizada para manter a ordem e reprimir os estudantes. (…) mas dá pena ver soldados treinados para combater a criminalidade disparando contra estudantes que protestam pela redução das passagens’. Outro exemplo é de Prisco no dia 20: ‘O ensinamento que fica é o seguinte: quando da próxima majoração de tarifa (…) basta colocar o povo na rua para inviabilizar o reajuste. É só optar pela quebradeira geral (…)’.

DC bate nos protestos, AN, no problema

No período analisado – de 16 a 28 de junho – os dois maiores jornais do Estado publicaram apenas um editorial tratando do problema no transporte coletivo de Florianópolis. No dia 18, o ‘Opinião DC’ recebeu o título ‘Além do limite’ e o texto deixa claro o posicionamento do jornal com relação às manifestações: ‘O protesto contra o aumento médio de 8,8% nas tarifas de ônibus, iniciado há duas semanas, fugiu do controle de seus organizadores e virou baderna’. Mais adiante o leitor encontrou que: ‘Respeite-se o direito ao protesto, mas não existe direito à barbárie e ao vandalismo, que devem ser reprimidos com o rigor da lei e em nome da sociedade agredida’. Já o editorial de AN, publicado no dia 23, traz que ‘a questão do custo das passagens de ônibus urbano está se transformando num problema sério de administração pública em todo o país’. A complexidade do tema é apontada pelos editorialistas e a solução, segundo o texto, ‘só ocorrerá por dois únicos caminhos: a redução dos impostos ou a elevação dos salários’.

Só o Sombra sabe

As imagens não são mero enfeite ou simples ilustração dos fatos. São, muitas vezes, um indicador composto por ícones, índices e símbolos que transcendem a barreira da simples informação contida no texto de apoio. A partir disto, é possível analisar em alguns jornais, como no Jornal de Santa Catarina, em sua edição do dia 15/06, a manchete ‘Sombra de Dúvida’, que está inserida em uma imagem de Roberto Jefferson.

O Presidente do PTB não aparece centralizado na imagem, mas foi deixado ‘de lado’ e o elemento principal da foto é a projeção de sua sombra em uma parede ao fundo. A associação da imagem com o título (criado a partir de um trocadilho), passa aos olhares mais atentos, que algumas questões expostas por Jefferson são duvidosas, fato comprovado no conteúdo dos textos aos quais a foto está ligada. Uma harmonia interessante entre imagem e textos, além de uma excelente parceria entre o fotógrafo e o repórter da matéria, concluindo assim um conjunto que não deixa nenhum detalhe escondido nas sombras.

Nem sempre o que parece…

Junto a uma foto da seleção da Alemanha, publicada na editoria de Esportes da edição de 24/06 do Jornal de Santa Catarina, está o título ‘Donos da casa acham que Brasil é vulnerável’. Interessante e muito cômica é a posição um tanto ‘ingrata’ dos jogadores alemães na foto, que estão no treino. Quatro jogadores deitados no gramado de costas, com as pernas para o ar, no melhor estilo ‘frango assado’. Se comparado com o título que acompanha a imagem, tem-se a impressão que não é a seleção brasileira que é tão vulnerável…

Presta atenção, moleque!

Na abertura do caderno de Esportes do dia 16/06 do Diário Catarinense, a matéria ‘Parreira quer Brasil protagonista’ expõe todo o esforço que o técnico da seleção tem para com os jogadores, tanto psicológico quanto físico. Junto à matéria, há uma foto de Parreira acompanhado de Kaká, Dida e Ronaldinho Gaúcho. Na imagem, os jogadores não parecem prestar atenção no técnico pois aparecem uns de costas para os outros, como se ignorando Parreira que está entre eles. Se for verdade o ditado que diz ‘imagem é tudo’, o técnico da seleção brasileira tem muito trabalho pela frente…

******

Projeto de acompanhamento da imprensa catarinense desenvolvido por alunos e professores da Univali, sob responsabilidade do professor Rogério Christofoletti.

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem