Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

DIRETóRIO ACADêMICO > DIPLOMA DE JORNALISMO

Um produto à venda?

Por Fábio Davidson em 31/10/2005 na edição 273



Universidade 1. conjunto de faculdades de ensino superior 1.1 conjunto das disciplinas, dos professores e alunos dessas faculdades 1.2 a sede onde funciona esse conjunto de faculdades (Dicionário Houaiss).


University educational institution for advanced learning and research (Dicionário Oxford).


College educational establishment for higher or professional education; an organized body of professional people (Dicionário Oxford).


Diversidade variedade, multiplicidade (Dicionário Houaiss).


Fiquei feliz ao iniciar minha singela pesquisa sobre a situação do ensino universitário no Brasil. E, para meu espanto, o resumo da minha opinião veio de um sítio português na internet, da revista Ensino Magazine Online. Em sua edição de abril/2005, a revista traz uma entrevista com a escritora Lídia Jorge, na qual afirma que em Portugal ‘existem universidades sem espírito acadêmico e que formam contingentes de alunos despreparados’.


Não estamos sozinhos! Nessas pesquisas, descobri que o Museu de Alexandria é considerado por muitos, a primeira universidade da história da humanidade; afinal, nas palavras de Carl Sagan, ‘este lugar foi em tempos o cérebro e a glória da mais importante cidade do planeta, o primeiro instituto de investigação da história do mundo’.


Harvard, a primeira universidade americana, foi fundada em 1636, quando a inglesa Oxford já contava com mais de cinco séculos – embora não seja clara a data de sua fundação, é aceita como no ano de 1096. Abaixo do Equador, o jornalista e escritor Eustáquio Gomes noticia que:




(…) as primeiras universidades fora da Europa se fizeram na América espanhola. Criada em 1538, a Universidade de São Domingos é historicamente a primeira universidade das Américas. Depois vieram as de San Marcos, no Peru (1551), México (1553), Bogotá (1662), Cuzco (1692), Havana (1728) e Santiago (1738). As primeiras universidades norte-americanas, Harvard, Yale e Filadélfia, surgiram respectivamente em 1636, 1701 e 1755.


Em 1920 foi criada, pelo governo federal, a primeira universidade brasileira, a do Rio de Janeiro, que reuniu as Escolas Politécnica, de Medicina e de Direito. Depois de sete anos foi criada a Universidade de Minas Gerais e, em 1934, a Universidade de São Paulo. Ou seja, a universidade do Brasil ainda não completou um século de existência formal. Mas este não se constitui o grande problema (talvez um ótimo item para análise).


Ao evidenciarmos o índice de alunos em instituições públicas e privadas, um número alarmante é revelado. No boletim Em questão de 2/2/2005, a Secretaria de Comunicação da Presidência, ao tratar da Reforma Universitária, afirma que ‘dados de 2003 mostram que apenas 29% das vagas no ensino superior (ou 1.137.119 vagas) estão nas universidades federais, enquanto 71% (ou 2.750.652 vagas) encontram-se nas universidades privadas’ e projeta-se um objetivo de que ‘até 2011 40% das vagas do sistema de ensino superior estejam na rede pública’.


Em artigo de 2003, Carlos Vogt já indicava que ‘na Inglaterra 99% dos alunos estão em universidades públicas, na França, 92,2%, e nos Estados Unidos, avocado sempre como campeão do privativismo, 78%’.


Então, deixo de falar do óbvio, que seria a necessidade da abertura de vagas no ensino público para atender aos alunos que deveriam ser mais bem preparados no ensino fundamental e médio e obterem condições de uma boa qualificação nos exames de admissão e trago à pauta a expansão do ensino universitário privado. Numa metrópole como São Paulo, em certas regiões vemos prédios, alguns de estrutura arquitetônica assustadora, com um mar de jovens se movimentando em torno do que deveria ser ‘instituição educacional para um ensino e aprendizado avançado’, segundo a definição do Dicionário Oxford de língua inglesa.


Cito minha experiência. Com 10 anos de ‘atraso’, voltei aos bancos universitários, com o intuito de cumprir um pré-requisito para poder exercer a profissão que almejo: ser jornalista. Depois de passar por outros cursos de algumas instituições de ensino, centrei meu objetivo naquilo que eu deveria ter feito uma década atrás. Por opção (ou falta de), escolhi uma instituição privada. Insatisfeito com a qualidade de ensino, após um ano pedi transferência e, atualmente, termino o 3º ano do curso de Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo.


Aqui, minha proposta de discussão abre-se em duas vertentes:


1. A estrutura das instituições privadas, em si;


2. O ensino de Jornalismo.


No primeiro ponto, é indiscutível que o diploma cada vez mais se torna uma mercadoria. Daí, o trocadilho no título deste artigo, a partir do livro de Cremilda Medina, Notícia – Um produto à venda. Aliás, título sem ponto de interrogação, portanto, uma afirmação.


Sem companheirismo


Não cabe, é claro, uma ampla generalização. Mas é público e notório que os critérios de avaliação para adentrar em determinadas instituições é nivelado por baixo. Para supostamente atender à carência de vagas no ensino público, somado ao baixo aproveitamento nos ensinos fundamental e médio, os processos de seleção são pífios.


Quando um aluno que não teve uma base de ensino crítica, ou nem ao menos teórico, torna-se difícil, então, para um professor, levar adiante um programa de bom nível no decorrer do curso universitário. E é interessante observar que, neste estágio – cerca de 18 a 23 anos – é uma tarefa desumana para um educador estimular a leitura em alguém que nunca obteve prazer ou teve condições de desfrutá-la anteriormente.


O que ocorre, na maioria das vezes, é que o nível das aulas é rebaixado. Os alunos fingem que aprendem, os professores fingem que dão aula e, ao final de tudo, a universidade gradua uma massa medíocre de profissionais, salvo gratas exceções. Para isso, estratégias matemáticas ‘engordam’ notas abaixo da média e chegam até a salvar alunos das dependências.


Ainda dentro das salas de aula, é alarmante o nível das relações entre os alunos, entre alunos e funcionários e, também, entre alunos e professores. Reflexo de uma sociedade individualista, egoísta, preconceituosa e capitalista (onde quem paga, quer seu ‘produto’), não há espírito de companheirismo, unidade na busca de solução de problemas e o mínimo respeito pelo próximo. A idéia do ‘Eu pago o seu salário’ impera nas salas de aula e corredores.


Caça aos alunos


A universidade, cada vez mais, passa por um processo de transformação em um shopping onde se consome conhecimento (como se isso fosse possível). É um local para desfilar a última moda, exibir o piercing nos locais mais diferentes e não deixar que o professor atrapalhe o bate-papo dentro das salas de aula, afinal atualizar os assuntos do dia é mais prioritário do que ouvir, discutir, aprender, apreender.


E, nesse shopping, com direito a praça de alimentação e tudo, a segurança é garantida. Livre acesso é palavra proibida em algumas universidades. Todo um esquema é montado, para impedir a entrada de não-alunos ou, até mesmo, de alunos inadimplentes. Tal qual em um clube, quem não paga, muitas vezes, não entra, é barrado nas catracas eletrônicas e não tem para quem reclamar o constrangimento.


Segurança que vale do portão para dentro da faculdade, pois não há o mínimo de preocupação com os associados, quero dizer, com alunos, quando se dirigem para ela ou dela saem. Questões como iluminação das vias públicas, empenho na parceria com a segurança pública não são itens a serem observados. Muito menos um olhar para o outro lado da calçada, onde, a menos de cem metros, sexta-feira deixou de ser o ‘Dia Nacional da Cerveja’. Parece que, atualmente, segunda, terça, quarta e quinta, também são dias destinados a ‘tomar todas’, fazendo dos bares e calçadas audiência concorrente às salas de aula.


Não sou contra desfilar a última moda, nem desfrutar momentos agradáveis com os colegas. Mas, para tudo na vida, há limites. Quando a rotina é estar no bar, ao invés de estar nas aulas, para que pagar mensalidade? Outro tipo de constrangimento provocado por estas verdadeiras empresas é a caça que alunos sofrem pelas empresas profissionais de cobrança, contratadas pelas instituições para persuadir seus ‘sócios’ a se manterem em dia.


Carências humanísticas


Uma outra crítica cabível é com respeito ao ensino do jornalismo, em si. Aparentemente, cada vez mais esta área caminha em direção ao ensino técnico. O estudo das teorias da comunicação torna-se mero ‘decoreba’ para o início do curso (talvez para agradar o MEC). Efeito de um processo dilacerante no ensino, não há uma preocupação no preparo crítico do aluno, ao mesmo tempo em que este, com um baixo índice de leitura e apreensão, não dispõe de mecanismos para exercer sua capacidade crítica.


Com a desculpa de que o aluno já vem despreparado, mais uma vez, nivela-se por baixo. Poucos são os educadores que instigam o espírito de investigação, o senso crítico, a necessidade de ver os quatro anos em uma universidade como um período de aprendizado, de descobertas, de prazer. E, os poucos mestres que ainda dispõe desta visão, deparam-se com a geração fast-food, que quer quantidade (sem qualidade) no menor tempo possível.


E, nesse cenário insólito, alunos que tentam se destacar ou, pelo menos, corresponder às expectativas de um verdadeiro ensino universitário, vêem-se podados. Suas participações, em classe, em seminários, nas argüições dos professores ou em trabalhos e provas, os qualificam como nerds ou arrogantes. Então, muitas vezes, optam pelo silêncio. E passam a fazer parte de um todo.


Neste ponto, paro de destilar meu desabafo. Afinal, diriam alguns, quem sou eu no mundo da comunicação? Mas, acredito, o pensamento de alguns estudiosos no assunto merecem uma ampla reflexão. Passo a expô-los.


Voltando a Cremilda Medina, no posfácio à segunda edição de Notícia – Um produto à venda, a jornalista destaca que a ditadura provocou um esvaziamento no conteúdo crítico e criativo das universidades, resultando em um retrocesso. ‘Quando surgiram os cursos de Jornalismo nas faculdades de Filosofia, no final da década de 40, a primeira clientela – profissionais já iniciados – procurou nos bancos de escola uma carga de informações humanísticas, carência de que se ressentiam os jornalistas’.


Veredictos do mercado


Cremilda Medina lembra que, ao alterar este perfil na virada da década de 50, a clientela passou a ser formada por jovens recém saídos do ensino médio, o que ‘exigiu o debate sobre a dosagem de disciplinas humanísticas e disciplinas técnicas’, em busca do exercício prático na universidade. Graças a estes movimentos, surgiram o jornal-laboratório e a rádio universitária. Com, isso, em vez da procura de professores pesquisadores, a universidade priorizou a busca de profissionais do mercado, ‘geralmente representantes de sucesso, e os improvisava como professores’.


O período autoritário significou o corte de matérias como Ciência Política, do currículo do Jornalismo e, no final dos anos 60, Jornalismo separa-se da Filosofia, surgindo as escolas de Comunicação Social. O jornalista, cada vez mais, passa a se caracterizar por um ‘técnico em informação’, como escreve Cremilda Medina. A notícia, como produto à venda, necessita de profissionais que saibam manejá-la bem, em geral de acordo com os critérios editoriais dos veículos a quem servem. A visão crítica, o papel social do jornalismo, o estímulo ao debate, bem, estes são itens secundários.


O que é temerário, neste aspecto, é: qual o perfil do profissional do jornalismo que é procurado no mercado de trabalho? Pierre Bourdieu, em A influência do jornalismo, afirma que: ‘Para compreender como o campo jornalístico contribui para reforçar, no seio de todos os campos, o ‘comercial’ em detrimento do ‘puro’, os produtores mais sensíveis às seduções dos poderes econômicos e políticos à custa dos produtores mais aplicados em defender os princípios e os valores da ‘profissão’, é preciso a uma só vez perceber que ele se organiza segundo uma estrutura homóloga à dos outros campos e que nele o peso do ‘comercial’ é muito maior’. E Bourdieu prossegue: ‘(…) o campo jornalístico está permanentemente sujeito à prova dos veredictos do mercado, através da sanção, direta, da clientela ou, indireta do índice de audiência’.


Algo de errado


A precarização dos jornalistas é um dos temas que Ciro Marcondes Filho desvela no livro A saga dos cães perdidos:




‘A adoção de computadores, sistemas em rede, acesso online à internet, fusão e mixagem de produtos na tela conduziram as empresas jornalísticas a uma reformulação completa de seu sistema de trabalho, adaptando seu interior a alta velocidade de circulação de informações, exigindo que o homem passasse a trabalhar na velocidade do sistema. Jornalismo tornou-se um disciplinamento técnico, antes que uma habilidade investigativa ou lingüística. Bom jornalista passou a ser mais aquele que consegue, em tempo hábil, dar conta das exigências de produção de notícias do que aquele que mais sabe ou que melhor escreve’.


Marcondes trata do que identifica como ‘fracasso das escolas de jornalismo’. E cita Eric Klinenberg:




‘Por que os jornalistas aceitam tal situação? [rarefação das informações sérias apresentadas ao leitor] De uma parte, os cursos de jornalismo, que privilegiam uma profissionalização aumentada, preparam os futuros profissionais a este gênero de trabalho e a este tipo de jornalismo’. São estas escolas de jornalismo que, na definição de Marcondes, produzem ‘jornalistas em série’, capacitados a ‘redigir rapidamente uma lauda, a portar um microfone, uma câmera, um gravador portátil’.


Creio ser relevante retomar algo que escrevi em 27/4/2004, publicado neste Observatório:




‘Ciro Marcondes afirma que alguns donos de jornais fazem, ou seja: ‘adestramentos intensivos no estilo e no formato de seu jornal ou revista, estreitando ainda mais o campo de conhecimento dos iniciantes’. E afirma: ‘De nada adianta insistir sobre a formação intelectual se esta não é acompanhada de uma prática no saber pensar’. Ele define um bom jornalista como alguém que tenha uma ‘boa cabeça, uma capacidade de discernimento, critérios de julgamento, valores consolidados, em suma, uma base intelectual que suporte as turbulências da profissão’’.


No livro Até que ponto, de fato, nos comunicamos?, Marcondes amplia o espectro da sua crítica, não só ao jornalismo, mas à comunicação em si. Ele afirma: ‘Há algo de errado no mundo das comunicações’. E defende a tese de que ‘não nos comunicamos ou de que nos comunicamos, em verdade, muito pouco e em raras ocasiões’, afirmando que ‘grandes sistemas sociais (rádio, televisões, jornais, revistas, divulgação pública e comercial) difundem mensagens diversas, mas não comunicam’. Se já não conseguimos trabalhar com o termo comunicação, quanto mais o social, união em que foi inserido o curso de Jornalismo, qual seja, Comunicação Social? As concessões públicas de rádio e televisão prevêem critérios supostamente sociais, educacionais, culturais, porém a realidade dista anos-luz deste propósito.


Restrições ocultas


Mas, voltando ao assunto educação e universidade, é preciso reacender o debate. A universidade deve ser o palco das discussões, do desenvolvimento crítico, dentro de uma capacidade ampla de diálogo. O preparo, tanto de alunos como de educadores é necessário, e dentro de um ambiente favorável para esta comunicação.


Enquanto os donos de faculdades, centros universitários, universidades, ou seja lá qual qualificação dêem para seus negócios, não passarem a pensar apenas em lucro, crescimento, expansão e construções, a transformação social que é necessária para o Brasil desenvolver-se andará a passos lentos. O estudo da sociedade, do homem, da comunicação é que fará o diferencial entre um jornalista medíocre e um jornalista consciente. Mas, infelizmente, não é o que é passado nas cadeiras universitárias. Nossa culpa (alunos), que preferimos o fast, mesmo que possa nos dar indigestão depois…


Pensando tecnicamente, parece impossível, por exemplo, inserir no programa curricular os ‘sete saberes necessários à educação do futuro’, propostos por Edgar Morin em 1999 e publicado pela Unesco. Estes sete saberes, ‘fundamentais’, seriam: ‘As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão’; ‘Os princípios do conhecimento pertinente’; ‘Ensinar a condição humana’; ‘Ensinar a identidade terrena’; ‘Enfrentar as incertezas’; ‘Ensinar a compreensão’; e ‘A ética do gênero humano’.


Para finalizar, faço coro com o pensamento de Pierre Bourdieu, nas últimas linhas de A influência do jornalismo:




‘Desvelar as restrições ocultas impostas aos jornalistas e que eles impõem por sua vez sobre todos os produtores culturais não é – será preciso dizê-lo? – denunciar responsáveis, apontar culpados. É tentar oferecer a uns e outros uma possibilidade de se libertar, pela tomada de consciência, da influência desses mecanismos e propor, talvez, o programa de uma ação combinada entre os artistas, os escritores, os cientistas e os jornalistas, detentores do (quase) monopólio dos instrumentos de difusão. Somente tal colaboração permitiria trabalhar eficazmente na divulgação das contribuições mais universais da pesquisa e também, em parte, na universalização prática das condições de acesso ao universal.’

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Estudante de Jornalismo

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