Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Um estudo sobre os efeitos da objetividade

Por Tito Eugênio Santos Souza em 19/05/2009 na edição 538


1. Introdução


O campo jornalístico, assim como outras áreas do saber humano, debruça-se sobre questões de notória complexidade. Entre estas questões, o processo de construção da notícia ocupa, invariavelmente, um lugar de destaque. O conceito de notícia traz em seu bojo diversas concepções, tais como o paradigma da objetividade e o princípio da imparcialidade.


A objetividade e a imparcialidade são consideradas pressupostos básicos do fazer jornalístico. No entanto, vale ressaltar que as notícias não reproduzem fielmente a realidade. Enunciar o discurso da isenção total é o mesmo que destituir o jornalista de subjetividade. Além disso, a matéria jornalística constitui-se numa prática social de linguagem: não é, portanto, esvaziada de carga ideológica.


Nessa perspectiva, o presente trabalho tem como objetivo analisar o discurso da revista Veja sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), considerando-se os efeitos de produção dos sentidos. Para tanto, procedeu-se à análise de uma matéria publicada pelo referido periódico em 28 de janeiro de 2009, época em que o MST acabava de completar 25 anos de fundação.


Segundo Mariani (1999), o caminho de reflexão proposto pela Análise do Discurso conduz ao questionamento da noção de sentido literal e de objetividade da comunicação, pois o fato de linguagem não é uno nem homogêneo. Os sentidos não são determinados a priori, uma vez que são construídos numa dada formação sócio-histórica. Por conseguinte, ‘todo discurso remete a um outro discurso, (…) de tal modo que os sentidos são sempre referidos a outros sentidos e é daí que eles tiram sua identidade’ (ORLANDI apud MARIANI, 1999, p. 109).


O conceito de objetividade, embora seja uma representação paradigmática no campo jornalístico, exibe fragilidades quando é posto em causa pela Análise do Discurso. Na concepção da socióloga norte-americana Gaye Tuchman (1999), a objetividade pode ser entendida como um ‘ritual estratégico’, e ‘os jornalistas invocam sua objetividade quase do mesmo modo que um camponês mediterrâneo põe um colar de alhos à volta do pescoço para afastar os espíritos malignos’ (Ibidem, p. 75).


2. Representações de objetividade


O conceito de objetividade, enquanto paradigma norteador da prática jornalística, surgiu originalmente nos Estados Unidos, no final do século 19. Em um contexto de supremacia do pensamento positivista, tal concepção referia-se à possibilidade de reprodução fiel dos acontecimentos do mundo real. A subjetividade humana era, então, considerada um obstáculo que se impunha entre a ciência e os seus objetos de estudo.


Surge, assim, com o positivismo, a distinção entre o fato e o juízo de valor, entre o real e a valoração humana do real e entre o acontecimento a ser estudado e a opinião. Essa distinção representou um divisor de águas em outras ciências humanas como o direito, a sociologia, a história, a ética e, consequentemente, o jornalismo. Deriva daí a distinção que hoje fazemos entre jornalismo opinativo e informativo (BARROS FILHO, 2008, p. 14).


Nesse sentido, o papel do jornalista não seria emitir opiniões sobre os acontecimentos, mas tão somente reproduzi-los na notícia, como se esta fosse um ‘espelho’ capaz de refletir fielmente a realidade. As notícias seriam, portanto, reflexos do real. Por esta perspectiva, amplamente conhecida como ‘teoria do espelho’, os jornalistas seriam comunicadores desinteressados, limitando-se ao relato preciso dos fatos (TRAQUINA, 2004).


No intuito de racionalizar o processo de produção das notícias, foram desenvolvidas técnicas que prescreviam um estilo redacional impessoal, caracterizado pela ausência de qualificativos e pela ocultação do jornalista, através da atribuição da informação às fontes. ‘Dessa forma, o uso de técnicas precisas de descrição do real, ao retirar do jornalista parte do seu poder de manobra como codificador, retira-lhe também parte de sua responsabilidade. Não é o repórter quem fala e escreve, e sim a realidade por ele espelhada’ (BARROS FILHO, 2008, p. 17).


Para Gaye Tuchman (1999), os jornalistas utilizam-se de determinados mecanismos para alegar que o que escreveram é objetivo. Assim, a objetividade nada mais seria que um ‘ritual estratégico’, a fim de proteger os jornalistas dos riscos inerentes à sua profissão, como as críticas e os processos jurídicos por difamação. Tuchman (ibidem) considera um ritual como sendo um procedimento rotineiro que tem relativamente pouca importância para o fim desejado. Desse modo, ‘os jornalistas invocam os procedimentos rituais para neutralizar potenciais críticas e para seguirem rotinas confinadas pelos `limites cognitivos da racionalidade´’ (Ibidem, p. 75).


Conforme assinala Barthes (1988), a nível de discurso, a objetividade é uma ilusão referencial. Isto porque toda enunciação pressupõe o seu próprio sujeito, não importando se este se exprime de forma direta, em primeira pessoa, ou de maneira indireta, utilizando-se da terceira pessoa. O que muda é apenas a forma como o sujeito se coloca no seu discurso.


Segundo Peruzzolo (2004), a objetividade constitui-se num efeito de afastamento que permite ao jornalista isentar-se do discurso que ele mesmo produz. Certos recursos, como o de produzir o texto jornalístico em terceira pessoa, contribuem para ‘fabricar a ilusão do distanciamento, pois, de todo modo, a enunciação está lá, filtrando por seus (…) valores e fins tudo o que é dito no discurso’ (Ibidem, p. 164).


3. Estudo de caso: análise do discurso


A matéria, intitulada ‘O Manual da Guerrilha’ e assinada por Otávio Cabral (em anexo), atribui características guerrilheiras ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O texto foi publicado na edição 2097 da revista semanal Veja, com data de 28 de janeiro de 2009, mês em que o MST completava 25 anos de fundação.


No decorrer da matéria, é construído um discurso repleto de valorações negativas acerca do MST, que é abordado como um movimento violento e transgressor. Além do título principal, o intertítulo reforça esta caracterização ao mencionar a existência de uma ‘cartilha secreta do MST’, que supostamente orientaria as ações dos seus militantes. Roubo, fraude de cadastros do governo e fabricação de bombas e trincheiras são citados como condutas prescritas pela ‘cartilha’.


A reportagem inicia-se com a narração de um acontecimento ocorrido no município de São Gabriel (RS) envolvendo cerca de 800 integrantes do movimento, em abril de 2008. No plano narrativo, podem ser identificados dois momentos distintos. O primeiro, que antecede a chegada dos sem-terra à fazenda Estância do Céu, é descrito como um momento de tranquilidade: ‘o cenário, de tão bucólico, parecia um cartão postal’. O segundo, por sua vez, corresponde à ‘depredação’ da fazenda, associada à ação do MST no local.


A nível de discurso, a passagem de um momento a outro é assinalada pelo verbo ‘invadiram’, que denota uma mudança abrupta de situação. Ora, o uso deste termo revela a interferência do discurso dos proprietários de terra no texto jornalístico. Conforme salienta Indursky (1999), o discurso dos sem-terra se refere à ocupação da terra, ao passo que no discurso dos proprietários rurais esta prática é designada por invasão (grifos da autora). Embora esta dupla designação possa ser considerada pelo viés da sinonímia, as palavras ocupação e invasão pressupõem discursos antagônicos. A primeira tem como referente a terra improdutiva, filiando-se à ideia de redistribuição desta terra. A segunda, tendo como referente a terra possuída, enfatiza o sentido de violação da propriedade, fazendo soar o discurso jurídico sobre o direito à propriedade.


Dessa forma, há uma visível divergência ideológica entre proprietários de terra e sem-terra. De um lado, está a noção de propriedade privada, fundamental para a ideologia capitalista; de outro, está a ideia de propriedade coletiva, intimamente relacionada à ideologia comunista.


O MST surge em nosso cenário político e econômico propondo-se a lutar por mudanças sociais no país e pela construção de uma ‘sociedade sem exploradores e explorados’ a partir da superação da propriedade privada dos meios de produção, o que considera ser a estrutura central que sustenta a constituição das relações sociais nos moldes necessários para a manutenção do modo de produção capitalista (MELO, 2003, p. 113).


Assim, a narrativa jornalística estrutura-se em torno do discurso de violação da propriedade privada, ressaltando a ilegalidade do ato praticado pelos sem-terra. A estes é atribuída a perturbação da ordem capitalista vigente: ‘armados com foices, facões, estilingues, bombas (…), os sem-terra transformaram a Estância do Céu em um inferno’. Nesta passagem, a oposição céu/inferno atesta a influência do discurso religioso, que distingue o bem (personificado pelo proprietário de terra) do mal (representado pelo MST).


O uso do termo ‘barbárie’, no segundo parágrafo da reportagem, remete a um estágio primitivo e caótico da condição humana. Ao enquadrar o MST sob o signo da ‘barbárie’, procede-se a uma deslegitimação do movimento enquanto forma de organização popular.


Além disso, a matéria sugere que houve uma mudança de estratégia na atuação do movimento, no decorrer dos seus 25 anos. Se inicialmente as ‘invasões’ tinham por objetivo ‘pressionar o governo a repartir a terra’, agora ‘o modo de agir do MST, muito parecido com o de grupos terroristas, é uma estratégia’. Para corroborar estas afirmações, recorre-se às provas auxiliares, identificadas na reportagem como ‘documentos internos do MST’ compondo um ‘manual da guerrilha’. Deste modo, constrói-se um efeito de referencialidade ou realidade, já que ‘a apresentação de provas auxiliares consiste na localização e citação de `factos´ suplementares, que são geralmente aceitos como `verdadeiros´‘ (TUCHMAN, 1999, p. 80).


Ao expor o conteúdo desses ‘documentos’, o texto jornalístico apropria-se do discurso do outro (MST) para fundamentar o seu próprio discurso. Isto lhe permite construir uma representação bastante específica do movimento sem-terra, conferindo-lhe um caráter paramilitar e subversivo: ‘o manual expõe uma organização claramente assentada sobre um tripé leninista, com doutrinação política, centralismo duro e vida clandestina’.


Tuchman (apud TRAQUINA, 2004) avalia que a noticiabilidade, ou capacidade de um acontecimento transformar-se em notícia, resulta de um processo de múltiplas negociações legitimadoras do status quo. Por conseguinte, os grupos sociais que agem fora da norma são considerados marginais ‘e a sua marginalidade é tanto maior quanto mais se afastarem do social legitimado, através da afirmação de atos de violência’ (p. 198).


Os números apresentados no quarto parágrafo da reportagem associam os integrantes do MST a algumas práticas criminosas, marginalizando-os. Estas práticas encontram-se elencadas em uma tabela de dados, que exerce a função de prova suplementar. Os dados estatísticos servem, portanto, como elementos comprobatórios do que é dito no texto.


No quinto parágrafo, os ‘manuais da guerrilha’ são comparados a best-sellers. Esta expressão estrangeira, que designa os livros ‘mais vendidos’, remete à lógica capitalista de compra e venda de produtos culturais. Os ‘manuais da guerrilha’, ao contrário, representam a contestação à ideologia capitalista. Com este deslizamento de sentidos, ao mesmo tempo em que é rejeitado o discurso comunista do MST, justifica-se a manutenção do status quo vigente.


No mesmo parágrafo, afirma-se a existência de uma ‘configuração de guerra’ no interior do movimento. A ‘derrota da burguesia’, ‘o controle do estado’ e a ‘implantação do socialismo’ seriam os seus objetivos declarados. Em suma, toda a atuação do MST adquire matizes de conspiração comunista. A frase do filósofo Roberto Romano, ao final do parágrafo, é bastante elucidativa neste sentido: ‘O MST está se filiando à tradição leninista de tomada violenta do poder por meio de uma organização centralizada e autoritária.’


Mais adiante, as atividades do movimento são discutidas do ponto de vista da ‘eficácia’. As ‘invasões’ e os ‘acampamentos’ equivalem a estratégias militares, e o resultado da ‘guerra’ é consequência da performance realizada pelos militantes do MST. Neste conflito, os inimigos estão claramente definidos: de um lado, proprietários de terra, de outro, sem-terra. Não há possibilidade de conjunção de forças. A vitória de um grupo representa, portanto, a derrocada do outro.


Diante da divergência de interesses, o discurso jurídico recai como mediador do conflito. Entretanto, como não há conciliação aparente, a punição incide sobre o MST. Neste momento, invoca-se o parecer do promotor Luis Felipe Tesheiner: ‘Não se trata de remover acampamentos. A intenção é desmontar bases usadas para reiterados atos criminosos.’


No último parágrafo da matéria, a ocorrência de uma ‘transmutação’ política é atribuída ao movimento. Esta transformação seria reflexo de uma reorganização da conjuntura política nacional, decorrente da chegada de Lula e do PT (Partido dos Trabalhadores) ao poder. É como se a entrada destes novos atores representasse uma mudança brusca no enredo da história, havendo uma ‘trégua’ nas disputas.


A relação do MST com o governo Lula é descrita como um jogo de interesses recíprocos. Em troca de posições de destaque no Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), os militantes do movimento teriam amenizado suas críticas ao governo federal. As hostilidades passaram, então, a ser dirigidas aos políticos de oposição a Lula, ‘como a gaúcha Yeda Crusius e o paulista José Serra’.


Em seguida, pontua-se que ‘a reputação do MST acompanha sua guinada violenta’, estabelecendo-se uma comparação entre passado e presente. Enquanto no passado o movimento era admirado pelos brasileiros, a imagem atual do movimento é associada à violência. Uma pesquisa do Ibope é citada como fonte confirmadora desta afirmação.


O texto jornalístico encerra-se com a seguinte máxima: ‘Às vezes é preciso tempo para enxergar o óbvio’. Desta forma, o enunciador se posiciona como alguém capaz de ver o que mais ninguém vê (ou finge não ver). É, portanto, uma forma de se incluir no discurso de uma forma sutil, mas sempre com um certo afastamento.


O uso frequente de construções adjetivas ao longo da matéria (‘típica propriedade dos pampas gaúchos’, ‘cenário bucólico’, ‘ações repletas de explosão e fúria’, ‘face guerrilheira do MST’, ‘rotina militarizada’ etc.) sugere um envolvimento do enunciador com o seu discurso. Por outro lado, o emprego de declarações entre aspas, bem como a produção do discurso em terceira pessoa, criam um efeito de imparcialidade. Peruzzolo (2004) considera que estes artifícios têm a finalidade de produzir a sensação de verdade objetiva, evitando que o enunciador arque com a responsabilidade do que é dito, já que é a opinião do ‘outro’ que está sendo transmitida.


Por fim, as imagens utilizadas ao longo da reportagem conferem um maior grau de ‘concretude’ ao texto. Fazendo referência a certos temas (‘manual da guerrilha’, ‘invasão de propriedades’, ‘militarização’, ‘alianças com o governo’), estas imagens promovem o cruzamento da linguagem icônica (não-verbal) com a linguagem escrita (verbal). Trata-se de um esforço codificante no sentido de validar o discurso construído, atribuindo-lhe tanto coerência interna (centrada na estrutura narrativa) quanto externa (baseada em elementos do real).


4. Considerações finais


Segundo Fairclough (2001), o discurso constitui-se numa prática política e ideológica. Enquanto prática política, o discurso estabelece, mantém e transforma as relações de poder e as entidades coletivas em que existem tais relações. Como prática ideológica, o discurso constrói, naturaliza, mantém e também transforma os significados do mundo nas mais diversas posições das relações de poder.


No entanto, conforme analisa Foucault (1979), as relações de poder não devem ser entendidas unicamente como algo instituído, mas também como um poder periférico que atravessa as relações no ‘microtecido’ do social. O poder é algo que se exerce, que se efetua por meio de uma relação. E onde há poder, há resistência. Não um lugar de resistência, mas pontos móveis e transitórios que se distribuem por toda a estrutura social.


Assim, a criação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra representou um novo espaço de resistência no cenário brasileiro. Para Indursky (1999), o surgimento do MST propiciou uma discussão sobre os lugares políticos já consolidados na cena política brasileira, tais como propriedade rural e latifúndio. Este movimento, ao autodenominar-se de movimento dos trabalhadores sem terra, construiu discursivamente um novo lugar político, mesmo que pela modalidade negativa. Ao lado dos proprietários rurais e dos latifundiários, os sem-terra posicionaram-se como um novo sujeito discursivo.


A comunicação, aqui entendida como uma prática social, constitui-se num processo integrador de subjetividades. Entretanto, os diversos sujeitos não têm o mesmo acesso aos meios de comunicação, que estão a serviço de uma minoria dominante.


A comunicação e a informação passam a ser alavancas poderosas para expressar e universalizar a própria vontade e os próprios interesses dos que detêm os Meios de Comunicação. O monopólio da propriedade privada, os latifúndios, se prolongam no monopólio do poder político como dominação e passam a abranger (…) o monopólio dos Meios de Comunicação Social, a serviço da dominação ideológica (GUARESCHI, 2004, p. 19).


Nesse sentido, entende-se que a prática jornalística não pode ser reduzida a uma simples mecanização de procedimentos cognitivos. Produzir notícias é uma tarefa bastante complexa, na qual múltiplas construções discursivas têm lugar. Embora o jornalista se utilize do discurso do outro para produzir o acontecimento jornalístico, a sua subjetividade não deixa de estar presente. Objetividade não é, portanto, ausência de subjetividade: é antes uma representação que o discurso jornalístico pode assumir, a fim de legitimar a validade daquilo que se enuncia.


5. REFERÊNCIAS


BARROS FILHO, Clóvis de. Ética na comunicação. 6. ed. São Paulo: Summus, 2008.


BARTHES, Roland. O rumor da língua. Trad. Mário Laranjeira. São Paulo: Brasiliense, 1988.


FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Brasília: UnB, 2001.


FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 16. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979.


GUARESCHI, Pedrinho A. Comunicação e controle social. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2004.


INDURSKY, Freda. ‘De ocupação a invasão: efeitos de sentido no discurso do/sobre o MST’. In: INDURSKY, Freda & FERREIRA, Maria Cristina Leandro (Org.). Os múltiplos territórios da Análise do Discurso. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 1999.


MARIANI, Bethania Sampaio Corrêa. ‘Sobre um percurso de análise do discurso jornalístico – A Revolução de 30’. In: INDURSKY, Freda & FERREIRA, Maria Cristina Leandro (Org.). Os múltiplos territórios da Análise do Discurso. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 1999


MELO, Denise Mesquita de. Subjetividade e gênero no MST: observações sobre documentos publicados entre 1979 e 2000. In: GOHN, Maria da Glória (Org.). Movimentos sociais no início do século XXI: antigos e novos atores sociais. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2003.


PERUZZOLO, Adair Caetano. Elementos de semiótica da comunicação: quando aprender é fazer. Bauru: EDUSC, 2004.


TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo: por que as notícias são como são. v. 1. Florianópolis: Insular, 2004.


TUCHMAN, Gaye. ‘A objectividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objectividade dos jornalistas’. In: TRAQUINA, Nelson (Org.). Jornalismo: questões, teorias e ‘estórias’. 2. ed. Lisboa: Vega, 1999.


6. Anexo


O manual da guerrilha


Como roubar, fraudar cadastros do governo e até fabricar bombas e trincheiras – está tudo na cartilha secreta do MST apreendida pela polícia


A fazenda Estância do Céu era uma típica propriedade dos pampas gaúchos. Localizada em São Gabriel, a 320 quilômetros de Porto Alegre, seus 5 000 hectares eram ocupados por 10 000 bois e 6 000 carneiros que pastavam entre plantações de arroz e soja. O cenário, de tão bucólico, parecia um cartão-postal. Tudo mudou na fria e ensolarada manhã do dia 14 de abril passado. Por volta das 7 horas, 800 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, invadiram a propriedade aos gritos. ‘Nós ganhamos. Ganhamos dos porcos. A fazenda é nossa.’ Armados com foices, facões, estilingues, bombas, rojões, lanças, machados, paus e escudos, os sem-terra transformaram a Estância do Céu em um inferno. Alimentos e produtos agrícolas foram saqueados. As telhas da sede da fazenda foram roubadas. Os sem-terra picharam paredes, arrancaram portas e janelas e espalharam fezes pelo chão. Bombas caseiras foram escondidas em trincheiras. Animais de estimação, abatidos a golpes de lança, foram jogados em poços de água potável. Quatro dias depois, quando a polícia finalmente conseguiu retirar os sem-terra da fazenda, só sobravam ruínas.


A barbárie, embora não seja exatamente uma novidade na trajetória do MST, é um retrato muito atual do movimento, que festejou seu aniversário de 25 anos na semana passada. Suas ações recentes, repletas de explosão e fúria, já deixaram evidente que a organização não é mais o agrupamento romântico que invadia fazendas apenas para pressionar governos a repartir a terra. Agora, documentos internos do MST, apreendidos por autoridades gaúchas nos últimos seis anos e obtidos por VEJA, afastam definitivamente a hipótese de a selvageria ser obra apenas daquele tipo de catarse que, às vezes, animaliza as turbas. O modo de agir do MST, muito parecido com o de grupos terroristas, é uma estratégia. A papelada – cadernos, agendas e textos esparsos que somam mais de 400 páginas – é uma mistura de diário e manual da guerrilha. Parece até uma versão rural, porém rudimentar, do texto O Manual do Guerrilheiro Urbano, escrito por Carlos Marighella e bússola para os grupos que combateram o regime militar (1964-1985). Os documentos explicam por que as ações criminosas do movimento seguem sempre um mesmo padrão.


O registro mais revelador sobre a face guerrilheira do MST é formado por quatro cadernos apreendidos pela polícia com os invasores da Estância do Céu em maio passado. As 69 páginas, todas manuscritas, revelam uma rotina militarizada – e bandida. ‘Muita arma no acampamento’, escreveu Adriana Cavalheiro, gaúcha de cerca de 40 anos, uma das líderes da invasão, ligada aos dirigentes do MST Mozart Dietrich e Edson Borba. Em outro trecho, em forma de manual, o texto orienta os militantes sobre como agir diante da chegada da polícia. ‘Mais pedra, ferros nas trincheiras (…) Zinco como escudo (…) Bombas tem um pessoal que é preparado. Manter a linha, o controle de horas e 800 ml’, anotou a militante, descrevendo a fórmula das bombas artesanais, produzidas com garrafas de plástico e líquido inflamável. O manual orienta os militantes a consumir o que é roubado para evitar a prisão em flagrante. Também dá instruções (veja trechos) sobre como fraudar o cadastro do governo para receber dinheiro público. Há até dicas sobre políticos que devem ser acionados em caso de emergência. Basta chamar o deputado federal Adão Pretto e o ex-deputado estadual Frei Sérgio. Ganha um barraco de lona preta quem souber o partido da dupla.


Em seus capítulos não contemplados pelo Código Penal, o manual expõe uma organização claramente assentada sobre um tripé leninista, com doutrinação política, centralismo duro e vida clandestina. Além de teorias esquerdistas, repletas de homenagens a Che Guevara e Zumbi dos Palmares, há relatos de espionagem e tribunais de disciplina. Uma militante, que precisou de ‘licença’ de um mês para fazer uma cirurgia, só foi autorizada a realizar o tratamento com a condição de que ele fosse feito num único dia. Brigas, investigações internas e punições também explicitam o rígido e desumano controle exercido sobre suas fileiras. ‘Assim como nas favelas controladas pelo narcotráfico, o MST atua como polícia e juiz ao impor e fiscalizar seu código de conduta’, afirma o filósofo Denis Rosenfield. Exagero? Talvez não. Dos 800 invasores que depredaram a fazenda Estância do Céu, por exemplo, 673 já foram identificados. Nada menos que 168 tinham passagem pela polícia. Havia antecedentes de furto, roubo e até estupro. ‘O MST é formado por alguns desvalidos, vários aproveitadores e muitos bandidos’, diz o promotor Gilberto Thums, do Ministério Público gaúcho. ‘Eles usam táticas de guerrilha rural para tomar territórios escolhidos pelos líderes.’


Embora raramente sejam expostos à luz, manuais de guerrilha são lidos como best-sellers nos acampamentos. Também no Rio Grande do Sul, berço e laboratório do MST, a polícia apreendeu três documentos que registram o lastro teórico de sua configuração de guerra. O mais recente, apreendido em julho passado, orienta os militantes a ‘se engajar na derrubada de inimigos estratégicos’. Os inimigos, claro, não se resumem aos gatinhos das fazendas ocupadas pelo MST. O objetivo é a ‘derrota da burguesia’, o ‘controle do Estado’ e a ‘implantação do socialismo’. O documento lista exemplos de como ‘interromper as comunicações do inimigo’ e ‘incendiar as proximidades para tornar o ambiente irrespirável’. Pode não ser obra do acaso. Há dois anos, um membro das Farc foi descoberto pela polícia em meio aos sem-terra gaúchos. A combinação entre teoria e prática deixa poucas dúvidas sobre os propósitos do MST. O movimento, que seduziu a intelectualidade nos anos 80 e caiu nas graças do povão na década seguinte, está marchando para a guerrilha rural. Diz o filósofo Roberto Romano: ‘O MST está se filiando à tradição leninista de tomada violenta do poder por meio de uma organização centralizada e autoritária.’


A estratégia da guerrilha é um sucesso recente nos pampas graças a sua eficácia. As invasões e os acampamentos têm funcionado em muitos casos. Em novembro passado, após cinco anos de guerra com o MST, o fazendeiro Alfredo Southall resolveu vender a Estância do Céu ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). ‘Cansei da batalha. Joguei a toalha’, desabafa. Suas terras serão transformadas em um assentamento para 600 famílias. O fazendeiro gaúcho Paulo Guerra teve sua fazenda invadida seis vezes desde 2004. Os invasores destruíram uma usina hidrelétrica e 300 quilômetros de cercas. Também queimaram dois caminhões, dois tratores e onze casas, além de abaterem 300 bois. ‘Minha família se dedica à fazenda há 100 anos. Podemos perder tudo, mas não vamos entregar nosso patrimônio ao MST’, diz. Nos últimos dois anos, mais de 600 processos já foram abertos contra militantes do movimento. Uma ação judicial pede que o MST seja colocado na ilegalidade. Enquanto ela não é julgada, porém, os promotores têm conseguido impedir seus integrantes de circular em algumas regiões. ‘Não se trata de remover acampamentos. A intenção é desmontar bases usadas para cometer reiterados atos criminosos’, justifica o promotor Luis Felipe Tesheiner.


O MST passa atualmente por uma curiosa transmutação política. Desde a chegada ao poder de Lula e do PT, aliados históricos do movimento, a sigla abrandou os ataques ao governo federal. A trégua, que beneficia a ambos, permitiu que os sem-terra apadrinhassem vinte dos trinta superintendentes regionais do Incra. É um comportamento muito diferente de quando o MST liderou as manifestações ‘Fora, FHC’ e invadiu a fazenda do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2002. O terrorismo agora é praticado preferencialmente no quintal de governadores de oposição a Lula, como a gaúcha Yeda Crusius e o paulista José Serra. A reputação do MST acompanha sua guinada violenta. Dez anos atrás, a maioria dos brasileiros simpatizava com a sigla. Agora, a selvageria, aliada à extraordinária mobilidade que levou 14 milhões de pessoas a ascender socialmente nos últimos anos, mudou a imagem do movimento. Pesquisa do Ibope realizada no ano passado mostra que metade dos entrevistados é contra os sem-terra. O MST, hoje, é visto como sinônimo de violência. ‘As pessoas descobriram que é possível melhorar de vida sem que para isso seja necessário fazer uma revolução’, diz o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro. Às vezes é preciso tempo para enxergar o óbvio.

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Estudante de Jornalismo, Juazeiro, BA

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