Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Um moralismo rançoso e hipócrita

Por Kleber Pereira dos Santos em 02/06/2009 na edição 540

Não vou me alongar. Não vale a pena. Mas é preciso marcar posição sobre um ponto que corre subentendido nos debates sobre – para usar um termo que não pode aparecer nos livros das escolas de São Paulo – as ‘cagadas’ da Secretaria de Educação na seleção de livros didáticos e paradidáticos, a saber, um rançoso moralismo totalmente desconectado de qualquer visão da realidade vivida pelos jovens atualmente.

É óbvio que os livros citados nos ‘escândalos’ recentes estão muito mal classificados para a faixa etária a que foram indicados pelos geniais burocratas da Secretaria e, com certeza, dois Paraguais ninguém merece! Haveria DVD pirata até do programa da Luciana Gimenez nos camelôs do centro da cidade. Contudo, no caso dos aparentemente interessantes livros Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol e Poesia do Dia – Poetas de Hoje para Leitores de Agora, a atitude de ‘desclassificar’ e excluir as obras do universo educacional, ao invés de reclassificá-las para um público adequado formado por jovens acima de 14 anos, é tão estúpida ou mais do que os equívocos dos ‘leitores’ da Secretaria – provavelmente, poucos funcionários, mal pagos para a tarefa e pressionados por interesses comerciais das editoras e de políticos ligados às mesmas.

Perto do que um garoto ou garota de 13, 14 anos vê, escuta e fala (os ricos, mais no mundo virtual, totalmente livre e sem censura da internet, do que nos seus viveiros cercados; os pobres, diretamente, cara a cara, no dia a dia – esse, sim, ‘horroroso’, Serra – das periferias violentas), mas não lê (assim como não lê quase nada além dos SMS dos celulares, dos textos de MSN, das legendas dos games e dos links da net para vídeos e fotos), poemas irônicos sobre a ‘formação’ de um vilão ou palavrões em HQs sobre o mundo do futebol não são nada demais.

Ojeriza pela palavra escrita

Pelo contrário, para falar apenas dos dois casos mais destacados pela imprensa, um texto de Joca Reiners Terron que ironiza o clichê do vilão, do mal absoluto x bem absoluto, veiculado em toda produção pop das telenovelas aos filmes de herói norte-americanos e um quadrinho de Caco Gualhardo zoando a enorme falta de cérebro dos grandes ídolos do futebol, tais obras apenas provocam mentes emperradas por imagens padronizadas a tentarem pensar algo crítico sobre a realidade ao redor, pouco importa que isso seja feito utilizando alguns palavrões e/ou imagens eróticas. Não é o caso, mas mesmo a grande literatura nunca foi feita de textos politicamente corretos e insípidos. Seja na linguagem, seja nos temas, um Henry Miller, um Dostoiévski são recheados de coisas ‘pesadas’ porque a vida é pesada, como esses jovens ‘protegidos’ pela onda moralista despertada por tais enganos da Secretaria sabem muito bem.

Qualquer pelada entre moleques descalços é uma sinfonia de palavrões maior do que existe em todas as páginas da HQ criticada e imagens pornográficas são distribuídas às nossas castas meninas usuárias de calças hiper-justas por toda cidade nas lonas improvisadas dos vendedores de DVDs piratas (sem classificação etária, até apelidam os pornôs de ‘educativos’… não deixam de ser, de certo modo). Um moleque, mesmo o da faixa etária que realmente não deveria ter os ditos livros em mãos, se mora na Cidade Tiradentes sabe muito bem o que é o PCC. Uma menina de 13 anos hoje não só sabe palavrões escabrosos e detalhes minuciosos sobre o ato sexual como convive com amigas barrigudinhas, e não por causa de muitos Mclanches felizes ou de livros ‘obscenos’ – talvez por causa da falta deles, para as fazerem ter um mínimo de juízo antes de iniciarem a vida sexual.

Dialogar com tal realidade, logicamente com a intenção de acrescentar alguma coisa – seja prazer estético, seja conteúdo crítico –, e não somente pegar carona na onda para obter lucro, é uma forma válida de tentar atingir com livros um público que sente ojeriza pela palavra escrita vinculada sempre a ‘coisas que não entendo’.

Um pouco de paz em casa

Não defendo que a escola deva se render totalmente ao universo do aluno, como defendem alguns pedagogos ‘progressistas’ em excesso, ao meu ver. Não espero ver leituras de Dom Casmurro sendo trocadas por análises das profundas letras dos funks da Gaiola das Popozudas. Mas creio que é importante, até determinada faixa etária, tentar fazer uma via de mão dupla. Uma lógica de troca, sabe? Estilo ‘mamãe’: ‘Te dou esse chocolate se comer tudo que está no prato.’ Um dia o prato com comida será o alvo principal, sem necessidade de chantagem e sem a necessidade de dispensar um chocolate, pois afinal, ninguém é de ferro. Na verdade, o jovem poderá até descobrir que há sabor, em alguns casos um tempero muito forte e atraente, no que pensa ser só comida sem sal e sem cor, mas não é colocando logo de cara um Alencar na mão de um ‘punheterinho’ – vamos usar os termos proibidos pela Secretaria – de 15 anos, ameaçando o mesmo com o fantasma do vestibular, que ele vai romper seu preconceito contra os livros.

E basta de falso moralismo. Afinal, na hora de se livrar de seus filhos, colocando-os diante da TV ou do computador, esses mesmos pais indignados com as ‘cagadas’ da Secretaria não se preocupam nem por um segundo com a quantidade de merda que estão lhes proporcionando para ter um pouco de paz em casa.

Manual de auto-ajuda para supervilões

Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica. É melhor não deixar testemunhas.

Não vá se entusiasmar e matar sua mãe. Até mesmo supervilões precisam ter mães.

Se recuse a mamar no peito. Isso amolece qualquer um.

Não tenha pai. Um supervilão nunca tem pai.

Afogue repetidas vezes seu patinho de borracha na banheira, assim sua técnica evoluirá. Não se preocupe. Patos abundam por aí.

Escolha bem seu nome. Maurício, por exemplo. Ou Malcolm.

Evite desde o início os bem intencionados. Eles são super-chatos.

Deixe os idiotas uivarem. Eles sempre uivam, mesmo quando não podem mais abrir a boca.

Odeie. Assim, por esporte. E torça por time nenhum.

Aprenda a cantar samba, rap e jogar dama. Pode ser muito útil na cadeia. Principalmente brincar de dama.

Ginga e lábia, com ardor. Estômago em lugar de coração, pedra no rim em vez de alma.

Tome drogas. É sempre aconselhável ver o panorama do alto.

Fale cuspindo. Super-heróis odeiam isso.

Pactos existem para serem quebrados. Mesmo que sejam com o diabo.

Nunca ame ninguém. Estupre.

Execre o amável. Zele pelo abominável.

Seja um pouco efeminado.

Isto sempre funciona com estilistas.

[in Poesia do Dia – Poetas de Hoje para Leitores de Agora, org. Leandro Sarmatz, Ática, SP, 2008]

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Professor, mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada, São Paulo, SP

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