Sexta-feira, 29 de Maio de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº852

DIRETóRIO ACADêMICO > PRODUÇÃO & EDIÇÃO

Uma lupa sobre o jornalismo de revista

Por Alexander Goulart em 04/07/2006 na edição 388

Podemos falar em um jornalismo de revista? Quantos jornalismos existem? As virtudes jornalísticas, independentemente do tipo de veículo, são as mesmas: independência, veracidade, objetividade, honestidade, imparcialidade, exatidão, credibilidade. Então por que diferenciar? Porque o jornalismo opera através de um meio, de um veículo. E os veículos são diferentes, atingem o público de formas diferenciadas. Se a recepção muda, também existem peculiaridades na produção e emissão dos conteúdos: isso inclui a pauta, linguagem, apresentação visual, inclui todo o processo de circulação da informação até chegar ao destinatário. Mas os critérios de apuração jornalística são os mesmos. Então, sob esse aspecto, podemos falar de um jornalismo de revista.

No meio acadêmico, a revista é um tanto desprezada. Jornal impresso ainda é a menina dos olhos, centro das virtudes jornalísticas. A revista é tida como categoria menor para o exercício do jornalismo. Contudo, pouco a pouco esse panorama tem mudado, tanto que os novos currículos do curso de jornalismo já incluem ‘Redação e Produção em Revista’. Isso é um sinal do momento em que vivemos. Hoje, as revistas representam a maior variedade editorial que dispomos. São milhares de títulos para todos os públicos, gostos. A revista está inserida no mercado atual; um mercado que busca a segmentação de público e publicitária. Fala para as diversas tribos. Logo, a revista é um bom negócio para as empresas, para o mercado, para o público e, claro, para os jornalistas.

Algumas características do veículo: a variedade – muitos assuntos para fisgar o leitor e passar a sensação de janela do mundo; a especialização – centrada num determinado universo de expectativas, visto que conhece seu leitor; visão de mercado – por conhecer seu público, apresenta um produto de olho nos nichos de mercado; texto – o público é curioso, escolhe a revista, logo, se importa com o texto; imagem – o leitor é seduzido com apelo visual, com o bom fotojornalismo. Texto e imagem, traduzidos em matéria bem escrita e apresentação visual eficiente são as bases da revista.

Profundidade relativa

Costuma-se dizer que a revista é mais profunda que o jornal e menos profunda que o livro, porque conhece seu leitor. Marília Scalzo, autora do livro Jornalismo de Revista (2003) diz que a relação revista x leitor é passional. Por isso, as pessoas têm um tipo de revista para a sala, outra para o banheiro, para o quarto; guardam-na de um determinado jeito, carregam-na, recortam-na, etc. Essa relação envolve confiança, expectativas, acertos, pedido de desculpas, gerando uma identificação entre o leitor e a revista, o que identifica, por exemplo, um grupo. O grupo dos que lêem Playboy, das que lêem Capricho, Caras, Caros Amigos, etc. O leitor dá o significado para a Revista, é ele quem diz o que é a revista ( Scalzo, 2003).

Jornal e Revista, por serem impressos, parecem mais verdadeiros, servem como uma espécie de registro histórico, têm credibilidade forte. Por exemplo, todos podem ver um jogo da Copa do Mundo na tevê, mas, no da seguinte, compram o jornal para ‘ saber mais’ , para comprovar algo. Se o Papa morre, a edição seguinte da revista vai trazer o acontecimento na capa, será a testemunha principal do evento e vai vender muito. Por enquanto, ainda estamos ligados à materialidade do papel.

A revista e o jornal ajudam a interpretar o acontecimento ou, no caso da revista, ela parte do fato em si para tratar o ‘ assunto’ com maior amplitude. Como diz Garcia Márquez, ‘ a melhor notícia não é a que se dá primeiro, mas a que se dá melhor’ .O Jornalismo de Revista sabe disso e tem o tempo como aliado. Uma publicação semanal, quinzenal ou mensal pode fazer uma apuração mais precisa, ouvir várias fontes, utilizar recursos gráficos, fotografias a posteriori. A revista permite um jornalismo mais analítico, interpretativo, investigativo.

Interesse público vs. Interesse do público

Mas, ao mesmo tempo, a variedade de publicações nos mostra que não é apenas o caráter informativo/educativo que existe. Há também o entretenimento, a diversão. Diferentemente do jornal, a revista funde informação, educação, serviço e entretenimento. E aqui reside um grande conflito, porque a revista não parte apenas do interesse público para decidir o que vai ser notícia, mas parte do interesse do público. Esse é um nó jornalístico, porque a chance de se invadir aquilo que é de caráter privado é grande. Temos muitos exemplos de revistas que publicam fofocas, boatos – especialmente sobre política e celebridades. Ou ainda páginas e páginas sobre pseudo-eventos que não são jornalísticos.

A revista é mais conotativa, opinativa, literária, sensacionalista; publica coisas que não seriam noticia em jornal; isso porque a notícia, em revista, passa a ser também o que é de interesse do público, seu foco é no leitor, no seu assinante sobretudo. E nesse sentido o jornalista é pago para escrever sobre aquilo que o leitor deseja. Onde fica, então, a independência? Escrever sobre aquilo que o leitor deseja é a pauta, apenas a pauta. O caráter jornalístico está na busca da verdade, do esclarecimento, ajudando o leitor a compreender a realidade em que vive, a ser consciente.

Hoje, os jornais tentam se parecer com as revistas, especialmente na parte gráfica. Numa revista, o primeiro elemento, é a fotografia, a imagem. O restante da diagramação parte da imagem, depois vem o texto. Um texto leve, agradável, que evita gerúndio, usa títulos criativos, sedutores. Uma característica muito importante é a divisão em seções, o que facilita a leitura, torna-a mais atraente. Seus recursos textuais e gráficos permitem que o leitor saboreie uma complexa reportagem.

As revistas falam para um público de uma determinada época. E nesse sentido, sofrem mais que os jornais, porque podem ser atropeladas pela mudança dos costumes. Através das páginas de uma revista, podemos conhecer a história de uma época, um retrato de uma sociedade. Assim eram, especialmente, as revistas ilustradas como O Cruzeiro, Manchete, Revista do Globo. Elas passaram a sofrer quando a televisão se tornou a janela para o mundo e as revistas de atualidade/informativas conquistaram o público.

As revistas no Brasil

Um pouco de história. Quais foram as principais revistas brasileiras? Scalzo (2003) nos ajuda a fazer memória: 1812: As variedades (BA) – sobre literatura, em forma de livro; 1813: O Patriota (RJ); 1817: O Propagador das Ciências (RJ) – primeira segmentada; 1849: A Marmota da Corte (RJ) – introduziu humor e textos curtos; 1898: Rio Nu (RJ) – contos picantes, fotos eróticas e política; 1900: Revista da Semana – com reconstituição de crimes através de fotos; 1905: Tico-Tico – primeira em quadrinhos; 1928: O Cruzeiro – dos Diários Associados, trazia grandes reportagens fotográficas, ilustrações, chegou a vender 700 mil exemplares por semana nos anos 50, quebrou em 1978; 1929: Revista do Globo (RS), publicada pela Livraria e Editora Globo de Porto Alegre, continha ilustrações, abria espaço para poetas; 1950: Pato Donald – primeira da Editora Abril; 1952: Manchete – ‘ Aconteceu virou Manchete’ , valorizava fotos, ilustrações, fait divers, fechou em 2000; 1966: Realidade – da Abril, deixou saudades nos jornalistas, era adepta ao jornalismo investigativo, grande reportagem evidenciando as mazelas sociais em plena ditadura, durou até 1976; 1968: Veja – inspirada na Time, notícias da semana divididas em seções, texto objetivo, uma revista que hoje vende mais de 1 milhão de exemplares por semana, é a quarta maior revista informativa do mundo. Na década de 60, surgiram também as revistas de Maurício de Souza, Manequim, Quatro Rodas, Claudia (com fotonovelas, decoração, beleza, problemas femininos), Ele e Ela. Na década de 70, surgiram IstoÉ, Visão, Exame (a primeira de negócios), Playboy, Nova, entre outras.

Algumas curiosidades (Scalzo, 2003): São vendidos no Brasil 600 milhões de exemplares de revistas/ano. Nos EUA, são 6 bilhões. O maior sucesso editorial da atualidade é a Cosmopolitan, presente em 25 países. Sua fórmula é falar para a mulher jovem, interessada em carreira, beleza, relacionamentos amorosos, sexo. No Brasil, editada pela Abril: Nova. A primeira revista surgiu na Alemanha em 1663 e seu nome era Edificantes Discussões Mensais, sobre teologia. Na década de 20, surgiu a Reader´s Digest, publicada em 19 idiomas. Depois vieram a Time, Life (que faliu quando vendia 5 milhões de exemplares/mês)

Ao olharmos para o presente e futuro, alguns desafios se apresentam para as revistas, dentre eles o problema dos preços altos em banca, posicionamento de mercado, e competição com sites de credibilidade na internet. Ao menos enquanto mantivermos nossa relação passional com o papel, as revistas impressas terão vida. As novas gerações, sedentas por informações on-line e desprovidas de dinheiro para investir num exemplar de banca ou assinatura, irão preferir a instantaneidade e a gratuidade da internet? E a credibilidade? Jornalismo de Revista, impresso ou virtual, é o mesmo?

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Jornalista e Mestre em Comunicação

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