Domingo, 24 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1025
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Uma proposta inaceitável

Por Tattiana Teixeira em 19/09/2005 na edição 347

Está disponível na página da CAPES a nova tabela das áreas de conhecimento, proposta por uma comissão especial formada por representantes do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e da Finep (Financiadora de Estudo e Projetos).

Criada com a intenção de ‘ser um instrumento para organizar informações visando implementar, administrar e avaliar seus programas e atividades’, como explicam seus signatários, a nova tabela apresenta aos pesquisadores em jornalismo uma classificação no mínimo contraditória, ainda mais quando se defende, no mesmo texto, que ‘a presente proposta leva em conta as novidades da produção científica e tecnológica, mas evita confusões desnecessárias provocadas por bruscos rompimentos com tradições enraizadas e ainda respeitadas pelos pesquisadores’.

Se é assim, o que explica a retirada do Jornalismo como subárea da Comunicação, ainda mais quando houve uma ampliação das subáreas, que eram 340 e, com a nova proposta, serão 475? Se era para evitar confusão, eis que ela se instala, pelo menos no nosso campo.

Aliás, a pouca clareza é fácil de observar desde o novo nome que é sugerido para a grande área das Ciências Sociais Aplicadas – que já esteve ameaçada no anteprojeto de Reforma Universitária – e que na reclivagem aparece como Ciências Socialmente Aplicáveis, dando a impressão que todas as demais não seriam, portanto, socialmente aplicáveis.

As Ciências Médicas não são socialmente aplicáveis? Os conhecimentos da Física não são socialmente aplicáveis? O que será que explica esta terminologia, filosófica e semanticamente falando?

Como outros colegas já têm se manifestado fazendo as mesmas perguntas, espera-se que os responsáveis pela proposta tenham o bom senso de vir a público para minimizar o sentimento de perplexidade que toma conta dos especialistas do campo.

Indagações à parte, o fato é que, pela nova proposta, a área de Comunicação – que integra a grande área Socialmente Aplicável – passa a abrigar como subáreas Teorias da Comunicação; Processos Sociais; Mídias; Relações Públicas e Propaganda; Estética e Linguagens. Embora tente deixar claro, na apresentação da tabela, que o instrumento não determina a distribuição de recursos ou mesmo interfere na organização de cursos e programas, parece-nos que sua função vai muito além, na prática, da de simplesmente ‘preservar séries estatísticas das agências, facilitar-lhes a coleta de dados, compatibilizar informações de diferentes entidades e atualizar a terminologia utilizada’.

E, se fosse apenas este o propósito – e, sobretudo, os efeitos desta reclassificação –, ainda assim nós que pesquisamos o jornalismo simplesmente podemos desaparecer desta preservação estatística, seja lá o que isto, de fato, signifique.

Tradição epistemológica

Por mais caricatural que possa parecer, nem o Currículo Lattes conseguiremos preencher direito, caso esta nova proposta seja aprovada. Afinal, quem pesquisa história do jornalismo, por exemplo, estará abrigado em qual subárea? Seria Processos Sociais? E quem se debruça sobre Gêneros Jornalísticos sentir-se-á partícipe da subárea Estética e Linguagens?

Mais do que isto, fica difícil entender que lógica epistemológica explica, ao mesmo tempo, a presença adequada e coerente de Relações Públicas e Publicidade como subárea, uma demanda legítima, e a supressão do Jornalismo – a mais antiga área de conhecimento que deu origem ao campo da Comunicação –, que só aparece, na nova tabela, na enorme e confusa lista de especialidades.

Segundo os autores do documento publicado no site da Capes, o termo define-se como…

‘…a caracterização temática da atividade de pesquisa e ensino. Uma mesma especialidade pode ser enquadrada em diferentes grandes áreas, áreas e subáreas’.

Entre as mais de 1400 especialidades, encontramos colocados no mesmo patamar xisto, internet, nafta, mercosul, mídias impressas, mídia e conhecimento e mais sete dedicadas ao jornalismo – ‘Jornalismo’, ‘Economia e Gestão do Jornalismo’, ‘Teorias do Jornalismo’, ‘Ética e Deontologia do Jornalismo’, ‘História do Jornalismo’, ‘Jornalismo Especializado’, ‘Teoria e Ética do Jornalismo’.

Por que, então, o jornalismo, com mais de quatro séculos de história e cem anos como campo acadêmico, que é capaz de se dividir em pelo menos sete especialidades, não continua como subárea, ainda mais em uma grande área ‘socialmente aplicável’ e quando o propósito dos integrantes da comissão é evitar rupturas com as tradições epistemológicas consolidadas? Ou o jornalismo não é socialmente aplicável? E o fato de aparecer como área nas principais tabelas internacionais de conhecimento e de ter permanecido como uma subárea, no Brasil, por mais de 30 anos nada significa como tradição acadêmica?

A bem da verdade, o documento aqui em discussão é uma versão preliminar, aberta a críticas e sugestões, mas o que nos parece no mínimo estranho é que o resultado da tabela tenha deixado de acolher as demandas das sociedades científicas e dos pesquisadores da área de Comunicação e do campo do Jornalismo, em particular as encaminhadas à Comissão constituída pela Capes, CNPq e Finep, dentro dos prazos estabelecidos.

Quando a nossa identidade como pesquisadores se encontra ameaçada, necessitamos mais do que nunca somar esforços para reverter esta situação, uma vez que a atual proposta parece inaceitável. Neste sentido, é de fundamental importância que as sociedades científicas que abrigam os pesquisadores em Jornalismo, em especial Intercom e SBPJor, articulem ações conjuntas com as demais instituições do campo e procurem estabelecer o diálogo com a comissão responsável pelo documento para que a tradição epistemológica do campo seja preservada.

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Jornalista, doutora em Comunicação, professora da Universidade Federal de Santa Catarina e editora da revista Pauta Geral

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