Quarta-feira, 20 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Vale a pena fazer Jornalismo?

Por Henrique Carlos em 16/03/2004 na edição 268

Dia desses fui abordado por um calouro nos corredores da faculdade onde me formei em Jornalismo. Intrometido, como todo jornalista deve ser, ele foi logo perguntando por que eu não estava assistindo à apresentação da peça de teatro daquela noite. Uma maneira de puxar assunto no momento.

‘Estou indo embora, cara’, falei, rapidamente, pois não estava a fim de papo, estava com pressa. A resposta deixou bem claro o fracasso de sua tentativa em desenvolver um diálogo. Porém não desistiu, fez outra pergunta: ‘Você é do curso de Engenharia?’. (Que bom seria se eu fosse engenheiro, acho que não sofreria tanto, mas isso é outra historia…) Para não ser indelicado, respondi, pondo fim ao bate-papo que nem ao menos começara: ‘Não, cara, me formei em Jornalismo aqui, ano passado’. Já ia me despedindo quando, aflito e preocupado, ele disparou: ‘Valeu a pena se formar em Jornalismo? Está difícil entrar no mercado? Você está trabalhando? O que você aconselha? Fale a verdade, por favor’.

Esbarrão na redação

Meu coração disparou, não soube o que falar. Não tenho tanta experiência para dizer o que um calouro deve ou não fazer para construir carreira brilhante. Fiz estágio durante quase um ano e meio, e alguns frilas, que ainda faço, e só. Sendo assim, acredito, sou tão foca quanto ele é calouro. Então pensei em esclarecer as dúvidas do colega fazendo-lhe outras perguntas:

** Por que muitos duvidam de nosso talento e capacidade, ainda que sejam extraordinários, e nos dão as costas no momento em que mais precisamos de apoio, seja para indicação de livros, de estágio ou alguma orientação sobre como sobreviver no meio jornalístico?

** Por que temos de gastar sola de sapato, batendo de porta em porta, à procura de oportunidades dignas de trabalho, e nos exploram, exigindo que trabalhemos de graça?

** Por que concorremos com pessoas altamente qualificadas, tanto financeira quanto intelectualmente, ficando, assim, em desvantagem, caso não tenhamos dinheiro para investir em nossa formação?

** Por que, para nos darmos bem na profissão, precisamos ter bons contatos, quando na verdade deveríamos ser analisados apenas pelo nosso talento e capacidade?

** Por que, mesmo depois de meses, ou até anos como jornalista formado, continuamos no mesmo emprego que tínhamos antes de entrar na faculdade? (Isso quando não terminamos a faculdade sem emprego algum.)

** Por que temos de nos deparar com imbecis, sem nada na cabeça, cujo único mérito foi ter tirado a roupa em alguma publicação masculina ou participado de reality-show ridículo, ocupando nosso lugar fazendo reportagens em emissoras de televisão? (E o pior, nosso sindicato não faz coisa nenhuma para tirar da telinha esses picaretas seguradores de microfone)

** Por que sonhamos em, um dia, exercer o jornalismo em veículo respeitado, e esse dia pode não chegar nunca, mas não por nossa culpa, e sim porque as portas não se abrem?

** Por que passam pelo nosso caminho estudantes de faculdades renomadíssimas, que trabalham em excelentes publicações, mesmo sem, ao menos, saber unir duas frases, mas que ‘dormiram’ com editores ou simplesmente foram apadrinhados? Será que temos de nos condicionar a ter ‘casinhos’ com editores em vez de ler e estudar? Será que temos de nos humilhar para que alguém nos coloque em alguma redação?

** Por que não dá para conseguir um lugar ao sol escrevendo textos como esse, caso eu não ceda meu traseiro a alguém?

** Por que péssimos jornalistas assinam crônicas em veículos respeitadíssimos e nós, que nos dedicamos desde o primeiro ano do curso, não temos chance alguma de assinar uma coluna?

Não sei o porquê, mas não consegui fazer as perguntas. Respirei fundo e olhei para o calouro. Lembrei da época em que eu estava no primeiro ano do curso, dos sonhos, das ambições, do motivo que me levou a fazer Jornalismo… Me condicionei a dizer, apenas: ‘Estou com pressa. Me passe seu e-mail para eu enviar alguns textos’. Anotei, me despedi e fui embora.

Até hoje não enviei nada, confesso. E, para ser honesto, nem sei se enviarei. Mas não tem problema. Ele nunca me verá novamente, a não ser que nos esbarremos numa redação qualquer no futuro. Ate lá não lembrará mais de mim, e se lembrar festejaremos juntos, talvez. E o papo, ainda que muito rápido, ficará na lembrança dos dois, mais na dele do que na minha.

******

Jornalista, 22 anos, formou-se no fim do ano passado

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