Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

DIRETóRIO ACADêMICO > FIM DE SEMANA, 8 E 9/09

Veja

11/09/2007 na edição 450

LÍNGUA PORTUGUESA
Reinaldo Azevedo

Restaurar é preciso; reformar não é preciso

‘A reforma ortográfica que se pretende é um pequeno passo (atrás) para os países lusófonos e um grande salto para quem vai lucrar com ela. O assunto me enche, a um só tempo, de indignação e preguiça. O Brasil está na vanguarda dessa militância estúpida. Por que estamos sempre fazendo tudo pelo avesso? Não precisamos de reforma nenhuma. Precisamos é de restauração. Explico-me.

A moda chegou por aqui na década de 70, espalhou-se como praga divina e contribuiu para formar gerações de analfabetos funcionais: as escolas renunciaram à gramática e, em seu lugar, passaram a ensinar uma certa ‘Comunicação e Expressão’, pouco importando o que isso significasse conceitualmente em sua grosseira redundância. Na prática, o aluno não precisava mais saber o que era um substantivo; bastava, dizia-se, que soubesse empregá-lo com eficiência e, atenção para a palavra mágica, ‘criatividade’. As aulas de sintaxe – sim, leitor, a tal ‘análise sintática’, lembra-se? – cederam espaço à ‘interpretação de texto’, exercício energúmeno que consiste em submeter o que se leu a perífrases – reescrever o mesmo, mas com excesso de palavras, sempre mais imprecisas. O ensino crítico do português foi assaltado pelo chamado ‘uso criativo’ da língua. Para ser didático: se ela fosse pintura, em vez de ensinar o estudante a ver um quadro, o professor se esforçaria para torná-lo um Rafael ou um Picasso. Se fosse música, em vez de treinar o seu ouvido, tentaria transformá-lo num Mozart ou num Beethoven. Como se vê, era o anúncio de um desastre.

Os nossos Machados de Assis, Drummonds e Padres Vieiras ‘do povo’ não apareceram. Em contrapartida, o analfabetismo funcional expandiu-se célere. Se fosse pintura, seria garrancho. Se fosse música, seria a do Bonde do Tigrão. É só gramática o que falta às nossas escolas? Ora, é certo que não. O país fez uma opção – ainda em curso e atravessando vários governos, em várias esferas – pela massificação de ensino, num entendimento muito particular de democratização: em vez de se criarem as condições para que, vá lá, as massas tivessem acesso ao conhecimento superior, rebaixaram-se as exigências para atingir índices robustos de escolarização. Na prova do Enem aplicada no mês passado, havia uma miserável questão próxima da gramática. Se Lula tivesse feito o exame, teria chegado à conclusão de que a escola, de fato, não lhe fez nenhuma falta. Isso não é democracia, mas vulgaridade, populismo e má-fé.

Não é só a língua portuguesa que está submetida a esse vexame, é claro. As demais disciplinas passaram e passam pela mesma depredação. A escola brasileira é uma lástima. Mas é nessa área, sem dúvida, que a mistificação atingiu o estado de arte. Literalmente. Aulas de português se transformam em debates, em que o aluno é convidado (santo Deus!) a fazer, como eles dizem, ‘colocações’ e a ‘se expressar’. Que diabo! Há gente que não tem inclinação para a pintura, para a música e para a literatura. Na verdade, os talentos artísticos são a exceção, não a regra. Os nossos estudantes têm de ser bons leitores e bons usuários da língua formal. E isso se consegue com o ensino de uma técnica, que passa, sim, pela conceituação, pela famigerada gramática. Precisamos dela até para entender o ‘Virundum’. Veja só:

‘Ouviram do Ipiranga

as margens plácidas /

De um povo heróico

o brado retumbante’

Quem ouviu o quê e onde, santo Deus? É ‘as margens plácidas’ ou ‘às margens plácidas’? É perfeitamente possível ser feliz, é certo, sem saber que foram as margens plácidas do Rio Ipiranga que ouviram o brado retumbante de um povo heróico. Mas a felicidade, convenham, é um estado que pode ser atingido ignorando muito mais do que o hino. À medida que se renuncia às chaves e aos instrumentos que abrem as portas da dificuldade, faz-se a opção pelo mesquinho, pelo medíocre, pelo simplório.

As escolas brasileiras, deformadas por teorias avessas à cobrança de resultados – e o esquerdista Paulo Freire (1921-1997) prestou um desserviço gigantesco à causa -, perdem-se no proselitismo e na exaltação do chamado ‘universo do educando’. Meu micro ameaçou travar em sinal de protesto por escrever essa expressão máxima da empulhação pedagógica. A origem da palavra ‘educação’ é o verbo latino ‘duco’, que significa ‘conduzir’, ‘guiar’ por um caminho. Com o acréscimo do prefixo ‘se’, que significa afastamento, temos ‘seduco’, origem de ‘seduzir’, ou seja, ‘desviar’ do caminho. A ‘educação’, ao contrário do que prega certa pedagogia do miolo mole, é o contrário da ‘sedução’. Quem nos seduz é a vida, são as suas exigências da hora, são as suas causas contingentes, passageiras, sem importância. É a disciplina que nos devolve ao caminho, à educação.

Professores de português e literatura vivem hoje pressionados pela idéia de ‘seduzir’, não de ‘educar’. Em vez de destrincharem o objeto direto dos catorze primeiros versos que abrem Os Lusíadas, apenas o texto mais importante da língua portuguesa, dão um pé no traseiro de Camões (1524-1580), mandam o poeta caolho cantar sua namoradinha chinesa em outra barcarola e oferecem, sei lá, facilidades da MPB – como se a própria MPB já não fosse, em nossa esplêndida decadência, um registro também distante das ‘massas’. Mas nunca deixem de contar com a astúcia do governo Lula. Na citada prova do Enem, houve uma ‘modernização’ das referências: em vez de Chico Buarque, Engenheiros do Hawaii; em vez de Caetano Veloso, Titãs. Na próxima, é o caso de recorrer ao funk de MC Catra: ‘O bagulho tá sério / vai rolar o adultério / paran, paran, paran / paran, paran…’.

Precisamos de restauração, não de mais mudanças. Veja acima, no par de palavras ‘educação/sedução’, quanto o aluno perde ao ser privado da etimologia, um conhecimento fascinante. As reformas ortográficas, acreditem, empobrecem a língua. Não democratizam, só obscurecem o sentido. Uma coisa boba como cassar o ‘p’ de ‘exce(p)ção’ cria ao leitor comum dificuldades para que perceba que ali está a raiz de ‘excepcional’; quantos são os brasileiros que relacionam ‘caráter’ a ‘característica’ – por que deveriam os portugueses abrir mão do seu ‘carácter’? O que um usuário da nossa língua perderia se, em vez de ‘ciência’, escrevesse ‘sciência’, o que lhe permitiria reconhecer na palavra ‘consciência’ aquela mesma raiz?

Veja o caso do francês, uma língua que prima não por letras, mas por sílabas ‘inúteis’, não pronunciadas. E, no entanto, os sempre revolucionários franceses fizeram a opção pela conservação. Uma proposta recente de reforma foi unanimemente rejeitada, à direita e à esquerda. Foi mais fácil cortar cabeças no país do que letras. A ortografia de Voltaire (1694-1778) está mais próxima do francês contemporâneo do que está Machado de Assis do português vigente no Brasil. O ditador soviético Stálin (1879-1953) era metido a lingüista. Num rasgo de consciência sobre o mal que os comunistas fizeram, é dono de uma frase interessante: ‘Fizemos a revolução, mas preservamos a bela língua russa’. Ora, dirão: este senhor é um mau exemplo. Também acho. O diabo é que ele se tornou referência de política, não de conservação da língua…

Já que uma restauração eficaz é, eu sei, inviável, optemos ao menos pela educação, não por uma nova e inútil reforma. O pretexto, ademais, é energúmeno. Como escreveu magnificamente o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935), houve o tempo em que a terra surgiu, redonda, do azul profundo, unida pelo mar das grandes navegações. Um mar ‘portuguez’ (ele grafou com ‘z’). Hoje, os países lusófonos estão separados pela mesma língua, que foi se fazendo história. A unidade só tem passado. E nenhum futuro.’

Jerônimo Teixeira

Riqueza da língua

‘MEIA-SOLA ORTOGRÁFICA

‘Sou contra o acordo. Sei que isso é um tiro no próprio pé, pois, se o acordo passar, vou ser chamado para fazer muitas palestras. Mas não quero esse dinheiro, não. Com outro espírito, outra proposta, uma unificação talvez fosse possível. Mas esta é uma reforma meia-sola, que não unifica a escrita de fato e mexe mal em pontos como o acento diferencial. Vamos enterrar dinheiro em uma mudança que não trará efeitos positivos.’ Pasquale Cipro Neto, professor de português

Engavetado desde sua assinatura, em 1990, voltou a assombrar o acordo ortográfico que visa a unificar a escrita do português nos países que o adotam como língua oficial. O Ministério da Educação chegou a anunciar a entrada em vigor da reforma no Brasil já em 2008. Felizmente, essa data foi postergada. Por mais modorrenta que seja, essa discussão não deve se extinguir. Ela tem implicações profundas de ordem técnica e comercial, além de provocar ainda mais ansiedade nos milhões de brasileiros mergulhados em dúvidas no seu empenho diário para falar e escrever bem. Dominar a norma culta de um idioma é plataforma mínima de sucesso para profissionais de todas as áreas. Engenheiros, médicos, economistas, contabilistas e administradores que falam e escrevem certo, com lógica e riqueza vocabular, têm mais chance de chegar ao topo do que profissionais tão qualificados quanto eles mas sem o mesmo domínio da palavra. Por essa razão, as mudanças ortográficas interessam e trazem dúvidas a todos. O acordo diz como se devem usar o hífen e o acento agudo e outros desses minúsculos sinais gráficos que já fizeram estatelar muitas reputações. A diferença entre um sucesso e um vexame pode ser determinada por uma simples crase mal utilizada. Portanto, não há como ignorar quando os sábios se reúnem para determinar o que é certo e errado no uso do português.

Nas grandes corporações, os testes de admissão concedem à competência lingüística dos candidatos, muitas vezes, o mesmo peso dado à aptidão para trabalhar em grupo ou ao conhecimento de matemática. Diversas pesquisas estabelecem correlações entre tamanho de vocabulário e habilidade de comunicação, de um lado, e ascensão profissional e ganhos salariais, de outro. Salte-se agora do micro para o macro. Uma decisão aparentemente arcana sobre o uso correto do trema, por exemplo, pode ganhar contornos bem mais amplos em um momento em que os idiomas nacionais sofrem todo tipo de pressão desestabilizadora. Como diz o lingüista britânico David Crystal (veja entrevista), a globalização e a revolução tecnológica da internet estão dando origem a um ‘novo mundo lingüístico’. Entre os fenômenos desse novo mundo estão as subversões da ortografia presentes nos blogs e nas trocas de e-mails e o aumento no ritmo da extinção de idiomas. Estima-se que um deles desapareça a cada duas semanas. Cresce a consciência de que as línguas bem faladas, protegidas por normas cultas, são ferramentas da cultura e também armas da política, além de ser riquezas econômicas.

A reforma do português ora em curso vai se defrontar com um desafio inédito. Outras mudanças foram feitas em situações em que era bem menos intenso o ritmo de entrada de palavras e conceitos na corrente da vida cotidiana. Em tempos de internet, as línguas, por natureza refratárias a arranjos de gabinete e legislações impostas de cima para baixo, podem se comportar como potros indomáveis. Quem vai ligar para as novas regras de uso do hífen quando mantém longas e satisfatórias conversações na internet usando apenas interjeições e símbolos gráficos como os consagrados ‘emoticons’ para alegre 🙂 ou triste :-(?

David Crystal cunhou o termo netspeak para designar as formas inéditas de expressão escrita que a internet gerou. A inclusão de símbolos audiovisuais, os links que permitem ‘saltos’ de um texto para o outro – nada disso existia nas formas anteriores de comunicação. A comunicação por escrito se tornou mais ágil e veloz, aproximando-se, nesse sentido, da fala. ‘A necessidade de diminuir o tempo de escrita e se aproximar do tempo da fala levou os usuários a ser cada vez mais objetivos e compactos’, diz o lingüista Antonio Carlos dos Santos Xavier, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Essa tendência é mais notória nas conversas que os adolescentes mantêm através de programas como o MSN, com abreviações como blz (beleza) e frases de sonoridade tribal como bora nu cinema – pod c as 8? (vamos ao cinema – pode ser às 8?). Mas o netspeak não é só para os imberbes. Até no âmbito profissional a objetividade eletrônica está imperando. A carta comercial que iniciava com a fórmula ‘vimos por meio desta’ é peça de museu. ‘Gêneros como a carta circular ou o requerimento estão em extinção. O e-mail absorveu essas funções’, observa a lingüista Cilda Palma, que, em sua dissertação de mestrado na UFPE, estudou a comunicação interna de uma empresa pública – um posto regional dos Correios – e de uma empresa então recentemente privatizada, a Petroflex. Ela constatou que a correspondência eletrônica tornou a comunicação mais informal – e que essa tendência foi mais longe na empresa privada. Observa a pesquisadora: ‘Os Correios ainda mantêm uma infra-estrutura anacrônica, que exige fotocópias e carimbos nos comunicados internos’.

Embora a língua sofra ataques deformadores diários nos blogs e chats, a palavra escrita nunca foi usada tão intensamente antes. Os mais otimistas apostam que os bate-papos da garotada travados com símbolos e interjeições hoje podem ser a semente de uma comunicação escrita mais complexa, assim como o balbuciar dos bebês denota a prontidão para a fala lógica que se seguirá. Pode ser. Seria ótimo que fosse assim. Por enquanto, uma maneira de se destacar na carreira e na vida é mostrar nas comunicações formais perfeito domínio da tradicional norma culta do português. Vários estudos demonstram a correlação positiva entre um bom domínio do vocabulário e o nível de renda, mesmo que não se possa traçar uma correlação direta e linear entre uma coisa e outra. Além de conhecer as palavras, é preciso que se tenha alguma coisa a dizer de forma lógica e racional. O vocabulário, por si só, não garante precisão ou beleza na escrita. ‘Machado de Assis compôs toda a sua obra com aproximadamente 12.000 vocábulos, enquanto Coelho Neto, autor ilegível, teria empregado mais de 35.000 palavras diferentes na sua longa e obscura carreira’, lembra o professor de português Cláudio Moreno. Mesmo que pareça meio quadrado na mesa do bar, quem mais se distanciar do linguajar trivial dos chats nas comunicações formais mais será notado pela competência.

É empobrecedor, porém, ignorar a revolução cultural da internet. Como toda inovação tecnológica abrangente, a civilização digital ampliou o léxico de muitos idiomas, entre eles o português. E o fez, basicamente, pela incorporação de palavras em inglês (site, download, hardware). Essas adições causam horror aos puristas da linguagem. Bobagem. A maior fonte de enriquecimento dos idiomas em todos os tempos é a incorporação de vocábulos oriundos de línguas estrangeiras e de revoluções tecnológicas. O português cresceu muito enquanto seus navegadores exploravam os ‘mares nunca dantes navegados’ cantados por Luís de Camões. ‘Calcula-se que o português medieval tinha perto de 15 000 vocábulos. Em meados do século XVI, com a expansão marítima, o total chegaria a 30.000, 40.000’, observa o filólogo Mauro Villar, do Dicionário Houaiss. Nesse processo, é preciso levar em conta também a popularização do vocabulário especializado, que em geral não entra nos dicionários. Por mais abrangente que seja um dicionário, ele recolhe apenas algumas centenas de milhares de palavras. O Houaiss tem perto de 230.000 verbetes. O Oxford English Dictionary, o famoso OED, registra 615.000. Ambos são recortes muito limitados de um universo em permanente expansão. Só as palavras necessárias à prática da medicina estariam na casa de 600.000. Eventualmente, uma grande virada em um desses campos científicos puxa o vocabulário especializado mais para perto do chão dos dicionários. DNA é um exemplo eloqüente: o acrônimo em inglês de ácido desoxirribonucléico (componente fundamental do código genético) saiu dos laboratórios e se incorporou ao dia-a-dia.

A internet é, além de tudo, um campo essencial na disputa pelo mercado dos idiomas. O estudo da economia da língua é um campo promissor. A Fundação Telefónica, da Espanha, está promovendo um projeto de pesquisa que deve durar quatro anos e pretende aferir o peso econômico do idioma espanhol no mundo. ‘O valor de uma língua se relaciona com sua capacidade de incentivar os intercâmbios econômicos’, explica o economista José Luis García Delgado, coordenador do projeto. Embora não seja possível atribuir uma cifra monetária a uma língua, faz pleno sentido falar no valor relativo que ela tem na comparação com outras línguas. O número total de falantes nativos é um fator essencial. O espanhol tem cerca de 450 milhões, patamar semelhante ao do inglês (o português fica em torno de 250 milhões). O inglês, porém, domina a internet: de acordo com o Internet World Stats, site que concentra números mundiais sobre a rede, 30% dos usuários da rede são falantes nativos do idioma de Shakespeare, contra 9% de usuários da língua de Cervantes. Mais importante, o inglês é forte como segunda língua. O British Council estima que pelo menos 1 bilhão de pessoas estão estudando inglês hoje no mundo.

‘O inglês está destinado a ser uma língua mundial em sentido mais amplo do que o latim foi na era passada e o francês é na presente’, dizia o presidente americano John Adams no século XVIII. A profecia se cumpriu: o inglês é hoje a língua franca da globalização. No extremo oposto da economia lingüística mundial, estão as línguas de pequenas comunidades declinantes. Calcula-se que hoje se falem de 6.000 a 7.000 línguas no mundo todo. Quase metade delas deve desaparecer nos próximos 100 anos. A última edição do Ethnologue – o mais abrangente estudo sobre as línguas mundiais -, de 2005, listava 516 línguas em risco de extinção.

O português está entre os vencedores da globalização. É uma língua que vem crescendo na internet: nos últimos sete anos, o número de falantes da língua portuguesa que navegam na rede aumentou em 525% (embora ainda represente apenas 4% dos usuários). O acordo ortográfico tem a intenção manifesta de incrementar o ‘valor de mercado’ do português. Desde o início criticada dos dois lados do Atlântico, a unificação da língua portuguesa foi uma causa cara ao filólogo brasileiro Antônio Houaiss, morto em 1999. O acordo foi firmado em 1990 pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), então com sete membros – Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Mais tarde, o Timor Leste também faria sua adesão. Os prazos de implantação das novas regras estipulados em 1990 nunca foram cumpridos, e a ratificação do acordo foi adiada sucessivamente. Um novo acerto firmado em uma conferência de chefes de estado da CPLP em 2004 determinou que bastaria a ratificação de três membros para que o acordo entrasse em vigor, o que aconteceu no fim do ano passado. O problema é que só os três países que ratificaram – Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe – deram mostras de querer levar a reforma adiante. Naturalmente, nenhuma unificação ortográfica merece ser chamada assim se a matriz da língua, Portugal, não a seguir. Autoridades portuguesas têm falado em esticar os prazos de adaptação às novas regras em até dez anos.

VEJA ouviu quatro profissionais da língua portuguesa. O único que considera a unificação importante do ponto de vista da política da língua é o gramático Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras. Mas ele faz restrições ao conteúdo da reforma, que teria perdido a oportunidade de racionalizar algumas regras. Os outros três especialistas são mais radicais na crítica. ‘É um acordo meia-sola’, avalia Pasquale Cipro Neto. Ele cita algumas palavras que continuam sendo grafadas de duas formas, conforme a pronúncia ou as idiossincrasias de cada país – caso de ‘cómodo’ (Portugal) e ‘cômodo’ (Brasil), ou de berinjela/beringela. ‘Essa idéia messiânica, utópica de que a unificação vai transformar o português em uma língua de relações internacionais é uma tolice’, diz o professor Cláudio Moreno. Sérgio Nogueira considera que só uma categoria vai ganhar vantagens com o acordo: os professores que dão aulas e palestras sobre língua portuguesa. ‘Se a reforma sair, vou ficar rico de tanta palestra que vou dar’, ironiza. As editoras em geral estariam no lado perdedor do acordo, já que teriam de adequar seus catálogos à nova grafia. O custo médio para a revisão e a preparação de um único livro ficaria em torno de 5.000 reais. A revisão de enciclopédias e dicionários seria ainda mais custosa. ‘Só a atualização do nosso banco de dados ficaria entre 200.000 e 400.000 reais’, calcula Breno Lerner, diretor-geral da Melhoramentos, que publica os dicionários Michaelis.

As diferenças culturais não se resolvem assim apenas com um golpe de pena. Mesmo com a ortografia unificada, dificilmente uma dona-de-casa portuguesa vai comprar um livro de culinária brasileiro que fala em ‘açougue’ (‘talho’ em Portugal), e o carpinteiro brasileiro com um manual português nas mãos talvez fique embasbacado com a palavra ‘berbequim’ (furadeira). De outro lado, a grafia cheia de letras mudas – tecto, facto, acto – não impediu o português José Saramago de ser best-seller no Brasil. Como a natureza, a arte e a inteligência sempre encontram uma maneira de se manifestar. Com a ajuda de uma norma culta e amplamente aceita, esse trabalho fica mais fácil.

MINHA PÁTRIA, MINHA LÍNGUA

‘Creio que a unificação do português tem um sentido político positivo. Aumenta o conceito da língua como nação. A adaptação talvez seja difícil. Mas a língua é um organismo vivo e vai seguir em frente. No meu trabalho de compositor, a ortografia repercute pouco. Nas letras de rock, a gente trabalha com a informalidade, com a fala da rua.’ Tony Bellotto, músico da banda Titãs, autor de Bellini e a Esfinge e apresentador do programa Afinando a Língua

PREGUIÇA CÉTICA

‘Encaro com grande ceticismo esse acordo ortográfico. É uma reforma tímida, que não traz grandes inovações. Mas não gostei. Queria que meus tremas ficassem onde estão. Os escritores mais velhos e mais preguiçosos têm de confiar no pessoal da editoração para fazer as mudanças necessárias no texto.’ João Ubaldo Ribeiro, escritor, autor de Sargento Getúlio e Viva o Povo Brasileiro

MUDANÇA TÍMIDA

‘Do ponto de vista político, a unificação ortográfica é importante. Implica numa maior difusão da língua portuguesa nos seus textos escritos. Mas a reforma poderia ter avançado mais e de forma mais inteligente na racionalização dos acentos e do hífen. As regras ainda são pouco acessíveis para o homem comum.’ Evanildo Bechara, gramático, membro da Academia Brasileira de Letras

SIMPLES E CIVILIZADA

‘A unificação já devia ter ocorrido antes. É uma medida civilizada. A diferença na escrita dos países que falam português atrapalha o intercâmbio econômico e editorial. Como toda reforma, essa proposta tem suas falhas. Mas acho ótimo, por exemplo, o fim do trema. Sou a favor de tudo que vai no sentido da simplificação.’ Lya Luft, escritora, autora de Perdas & Ganhos e colunista de VEJA’

***

UMA REVOLUÇÃO SEM GRAMÁTICA

‘Professor honorário de lingüística da Universidade do País de Gales, em Bangor, David Crystal, de 66 anos, é uma das maiores autoridades mundiais em linguagem. Autor de A Revolução da Linguagem (Jorge Zahar), ele falou a VEJA sobre as mudanças que a internet trouxe ao uso da língua e sobre as línguas em extinção.

A INTERNET ESTÁ MUDANDO O CARÁTER DAS LÍNGUAS?

Em cinqüenta ou 100 anos, todas as línguas que utilizam a internet serão diferentes. Está surgindo o que chamo de netspeak, ‘fala da rede’, ou comunicação mediada pelo computador, em jargão acadêmico. Ainda é impossível prever, no entanto, quais serão a forma e a extensão dessa mudança. Leva muito tempo para que uma transformação efetiva se manifeste numa língua. No inglês, por exemplo, notamos uma grande diferença entre a linguagem de Chaucer e a de Shakespeare. Duzentos anos separam o nascimento de um e de outro. Pergunte às pessoas quando foi a primeira vez em que elas mandaram um e-mail. Foi há dez, talvez cinco anos. É algo recente demais. Existem curiosos fenômenos de ortografia, o uso de sinais tipográficos e dos chamados emoticons. Mas, se procurarmos por novas palavras ou uma nova gramática na internet, não encontraremos muita coisa. O inglês é uma língua com mais de 1 milhão de palavras, e somente umas poucas centenas foram incorporadas a ela por causa da internet. Isso não altera o seu caráter.

A INFORMALIDADE É UMA CARACTERÍSTICA CENTRAL DO NETSPEAK?

Sim, até o momento. Isso tudo começou com os nerds da internet, há vinte, trinta anos. E eles eram rebeldes. Viam a rede como uma revolução, uma alternativa democrática às formas de comunicação mais formais. Esses pioneiros não pontuavam, não se preocupavam com ortografia, criavam formas estranhas de grafar as palavras. Quando a internet se espalhou, a informalidade se popularizou também. Nos anos 80 e 90, e-mails se tornaram muito informais. Mas a idade média do usuário de internet vem subindo, e com isso a comunicação está ficando mais formal novamente. Acredito que os estudos sobre netspeak que virão daqui por diante vão documentar um aumento da formalidade.

O SENHOR AFIRMA QUE, NO ATUAL RITMO DE EXTINÇÃO, EM UM SÉCULO TEREMOS SO METADE DAS LÍNGUAS QUE SÃO FALADAS NO PLANETA HOJE. POR QUE TANTAS LÍNGUAS ESTÃO DESAPARECENDO?

O principal motivo é a assimilação cultural por causa da globalização. O crescimento das grandes línguas do mundo funciona como um trator, esmagando os idiomas que se põem no caminho. Isso não é um fenômeno restrito a duas ou três línguas. Não é apenas o inglês que ameaça línguas nativas na Austrália, ou o português que põe em perigo idiomas indígenas no norte do Brasil. O chinês, o russo, o hindi, o suahili – todas as línguas majoritárias ameaçam idiomas de comunidades pequenas. O futuro dessas línguas minoritárias está vinculado a políticas regionais. Nos lugares onde elas sobrevivem, há uma série de práticas políticas e econômicas que valorizam a diversidade.

O QUE SE PERDE QUANDO UMA LÍNGUA MORRE?

Quando me fazem essa pergunta, costumo rebater com outra: como seria o mundo se a sua língua não houvesse existido? O que você teria perdido, o que todos teríamos perdido se não existisse o português? Se não houvesse o inglês, não teríamos Chaucer, Shakespeare, Dickens. Quando colocamos as coisas nesses termos, as pessoas vêem. Uma língua expressa uma visão peculiar do mundo. Não importa se a comunidade que utiliza essa língua vive em uma selva, em um iceberg ou na cidade, sua história, seu ambiente e seu modo de pensar não têm igual. O único meio de comunicarmos a percepção do que é ser humano em determinado ambiente é através da linguagem.

NO BRASIL, JÁ HOUVE TENTATIVAS DE RESTRINGIR LEGALMENTE O USO DE PALAVRAS ESTRANGEIRAS, ESPECIALMENTE DO INGLÊS. O INGLÊS PODE SER CONSIDERADO EM ALGUMA MEDIDA UMA AMEAÇA AO PORTUGUÊS?

Não, de forma alguma. Esses movimentos puristas aparecem no mundo todo. E o fato básico é que todas as línguas tomam empréstimos das outras. Ao longo dos últimos 1.000 anos, o inglês incorporou palavras de mais de 350 línguas. Só 20% das palavras do inglês atual remontam às origens anglo-saxônicas e germânicas da língua. Essa incorporação de palavras tornou o inglês uma língua expressiva e rica. Shakespeare não poderia escrever o que escreveu se não contasse com um vocabulário que era germânico, francês e latino. Palavras se incorporam a uma língua não para destruí-la, mas para permitir novas oportunidades de expressão. Se cada palavra que entra no português apagasse uma palavra anterior, isso seria de fato um fenômeno estranho e indesejável. Mas não é assim que funciona. A nova palavra não substitui palavras preexistentes, ela passa a vigorar ao lado delas. A língua evolui desse modo e alcança uma gama expressiva mais ampla.

COMO LIDAR COM A QUESTÃO DO VOCABULÁRIO IMPORTADO AO EDUCAR AS CRIANÇAS?

Os jovens gostam de usar palavras estrangeiras, pois em geral elas soam inovadoras. Gostam também de empregar gírias que eles próprios criam. Não se pode proibir jamais crianças e adolescentes de utilizar suas formas particulares de linguagem. É como dizer a eles: ‘Valorizem a linguagem – mas não a sua própria’. É muito importante que, nas escolas, os estudantes aprendam toda a gama de possibilidades da língua. Eles precisam descobrir que há palavras tradicionais e palavras novas para as mesmas coisas. E devem saber também a diferença estilística entre essas opções.

POR QUE O INGLÊS É A LÍNGUA MAIS VISADA PELOS PURISTAS?

Pela razão simples de que é a língua mais globalizada. É sobretudo uma questão política, que varia de região para região. Quem fala quíchua, no Peru, não está preocupado com o inglês, mas com vocábulos que remetem à história do domínio espanhol sobre os povos indígenas. A política está sempre por perto nessas questões.’

MAINARDI vs. LULA
Diogo Mainardi

O Mulá Omar brasileiro

‘Luciano Coutinho é o Mulá Omar brasileiro. Mulá Omar tentou deter o progresso e a modernidade proibindo o uso de radinhos de pilha em Cabul. Luciano Coutinho fez o Brasil retroceder no tempo ao implementar a reserva de mercado para a área de computadores no governo de José Sarney, em meados da década de 1980. Dito de outra maneira: no mesmo período em que, nos Estados Unidos, a Microsoft introduzia o Windows, a Apple fazia o lançamento do Macintosh e a Intel desenvolvia o 386, o Brasil, seguindo o caminho indicado por Luciano Coutinho, decidia espontaneamente fabricar sucata tecnológica na Zona Franca de Manaus, o Vale do Silício no tacacá.

No segundo mandato de Lula, Luciano Coutinho foi nomeado presidente do BNDES. Ele tem o poder de determinar o rumo da economia do país, escolhendo onde o governo aplicará boa parte de seu capital. Em 1997, com seu tapa-olho da Cepal, com seu nacionalismo ciclópico, o Mulá Omar brasileiro atacou a venda da Telebrás às operadoras estrangeiras, com o argumento de que era melhor criar uma grande empresa nacional de telefonia. Agora, no BNDES, ele terá a oportunidade de retroagir dez anos e participar com dinheiro público na fusão de duas operadoras privadas, Oi e Brasil Telecom. Em 1997, ele atacou também o processo de venda da Vale do Rio Doce. Agora que o PT, no congresso realizado na última semana, resolveu apoiar oficialmente o plebiscito para reestatizar a companhia, ele poderá colocar suas idéias em prática.

Por que é que estou dizendo tudo isso? Por causa dos 56.348 servidores que o governo pretende contratar em 2008, a um custo de 3,4 bilhões de reais. Esse é o dado bruto. Mas o que me interessa é o dado particular: o tipo de gente que será contratada. Veja o caso do BNDES. Luciano Coutinho transformou-o numa espécie de Zona Franca do lulismo. Há um diretor indicado por Benedita da Silva, há outro diretor indicado pelo Bispo Crivella, há o pessoal trazido pelo próprio Luciano Coutinho de uma reserva de mercado da Unicamp. O BNDES está cheio de técnicos formados nas melhores universidades do mundo. O patriotismo de Luciano Coutinho acabou prevalecendo, e um departamento do banco foi entregue a um professor da Faculdade Esuda.

Luiz Gonzaga Belluzzo, colega de Luciano Coutinho e um dos responsáveis pela política econômica de José Sarney – aquela que presenteou o país com uma inflação de 2.751% -, também foi convidado para ocupar um cargo no governo: presidente do conselho curador da TV Pública. Ele é sócio da Carta Capital. Dá para ser empresário da mídia e, ao mesmo tempo, controlar a TV estatal? Quem mais? Romeu Tuma Júnior é o novo secretário nacional de Justiça. Um de seus papéis será ajudar a rastrear o dinheiro mantido ilegalmente fora do Brasil. Num depoimento à magistratura italiana, um dos diretores da Telecom Italia considerou-o ligado a Daniel Dantas. O talibanismo lulista é assim mesmo: cabem os amigos e os inimigos, cabem os membros de uma tribo e de outra. Desde que o Brasil caminhe para trás.’

INTERNET
Rafael Corrêa

A guerra por outros meios

‘O Pentágono, em Washington, onde funciona o Departamento de Defesa americano, é um dos prédios mais bem guardados do mundo, inclusive contra ataques cibernéticos. Apesar disso, o serviço de inteligência do órgão não é capaz de evitar invasões a seus computadores. A mais recente delas veio a público há três meses, quando um programa malicioso – conhecido como cavalo-de-tróia – foi detectado no sistema de e-mails do gabinete do secretário de Defesa, Robert Gates. Na semana passada, revelou-se que o ataque partiu não de simples hackers em busca de aventura, mas de centros militares da China. O comando militar americano recebeu a notícia com apreensão. Em maio, foram descobertos cavalos-de-tróia nos computadores da chanceler alemã Angela Merkel e de seus ministros. Militares alemães suspeitam que os ataques vieram da China. Nos últimos meses, o serviço de inteligência da Inglaterra repetidas vezes encontrou programas maliciosos nos computadores do governo. Origem dos ataques: China.

Para os militares e especialistas em segurança dos três países vítimas de programas maliciosos, a invasão do Pentágono é mais uma prova de que o Exército chinês adotou os ataques a redes de computadores de governos como uma estratégia militar. Em caso de guerra, ataques cibernéticos seriam empreendidos, por exemplo, para interromper as comunicações do inimigo e cortar o fornecimento de energia elétrica em grandes áreas. Segundo o Pentágono, num eventual conflito com os Estados Unidos, táticas como essas, destinadas a tumultuar as ações do inimigo, compensariam em grande parte a inferioridade bélica chinesa frente ao poderio americano. O governo chinês tem adotado uma postura dúbia diante das suspeitas de que seu Exército vem espionando computadores em outros países. Ao governo alemão, as autoridades chinesas prometeram tomar providências para evitar novos ataques. Na semana passada, os chineses negaram o envolvimento na invasão dos computadores do Pentágono e afirmaram que as acusações americanas eram fruto de ‘mentalidade da Guerra Fria’.

Os chineses negam as invasões cibernéticas, mas não escondem que, como muitos outros países, mantêm programas que visam ao uso de computadores em ações militares. O alcance de uma eventual guerra informatizada ficou evidente no começo deste ano quando a Estônia foi alvo de um ataque em massa feito por hackers russos, em retaliação à retirada de um monumento público do tempo em que o país fazia parte da União Soviética. Sites do governo e de bancos saíram do ar, ninguém conseguia ler e-mails e o país ficou paralisado. Recentemente, o general James Cartwright, do alto-comando militar americano, avaliou que uma invasão cibernética em larga escala aos Estados Unidos não chegaria a causar uma catástrofe, mas teria um enorme impacto na população. ‘Do ponto de vista psicológico, seria como um ataque com armas de verdade’, disse ele.’

MEMÓRIA / LUCIANO PAVAROTTI
Veja

O tenor das multidões

‘O tenor italiano Luciano Pavarotti, morto na sexta passada de câncer no pâncreas, foi a personificação da ópera no fim do século XX. Ele não tinha a extensão vocal de um Enrico Caruso (1873-1921), primeira estrela do ramo, nem a erudição do espanhol Plácido Domingo, seu maior rival. Ainda assim, Pavarotti deu à ópera uma visibilidade sem precedentes. Para além de seu timbre possante, isso se deveu a uma estratégia comercial bem-sucedida. Pavarotti gravou versões celebradas de óperas famosas. Mas fez sucesso sobretudo com discos em que investia somente em árias conhecidas. Com esse enfoque pop, atingiu ouvintes numa escala nunca vista. Os Três Tenores, projeto que dividiu com Domingo e Jose Carreras em 1990, resultou num dos álbuns mais vendidos da música clássica. Pavarotti esteve ainda à frente de concertos filantrópicos ao lado de roqueiros como Elton John, Sting e Bono Vox- todos também transformados em CDs de sucesso. Entre seus projetos-solo e tais parcerias, vendeu 70 milhões de discos. Com seu corpanzil e seu estilo bon vivant, Pavarotti foi uma figura exuberante. Era especialista em cancelar récitas em cima da hora e certa vez foi vaiado impiedosamente pelos italianos por desafinar no palco. Noutra ocasião, fez uso de playback num recital em Nova York. Filho de um padeiro que foi tenor diletante e da funcionária de uma fábrica de cigarros, atingiu o estrelato em 1963, ao interpretar Rodolfo numa montagem de La Bohème no Covent Garden londrino. Nos últimos anos, os problemas de saúde forçaram-no a deixar os palcos. Ao adoecer de câncer, no ano passado, passou por uma operação e várias internações. Morreu em sua casa, na cidade italiana de Modena, aos 71 anos.’

TELEVISÃO
Marcelo Marthe

Novela mutante

‘Povoada por criaturas mutantes, a novela Caminhos do Coração, da Record, é ela própria uma espécie de mutação no genoma das novelas brasileiras. Com personagens como uma garotinha dotada de asas e um menino-lobo, o folhetim tem lá algum parentesco com o realismo fantástico das tramas de um Dias Gomes. Mas o noveleiro Tiago Santiago leva seu enredo a um campo inexplorado. O velho realismo fantástico calcava-se na cultura popular. Já as matrizes de Caminhos do Coração são a ficção científica e a cultura pop americana. Suas crianças mutantes são primos pobres dos personagens do sucesso dos quadrinhos X-Men ou da série Heroes. Além dos já citados, há uma garota com dotes telecinéticos que quase derrubou um Boeing, um adolescente que lê pensamentos e outra garota com visão de águia. O irmão desta, por fim, corre como corisco e tem capacidade de autocicatrização de Wolverine. Esses mutantes seriam fruto de uma experiência genética conduzida por uma cientista numa clínica no Guarujá. O caldeirão mental de Santiago é mesmo espantoso. Ao explicar o que criou, ele cita de Alfred Hitchcock à mitologia grega (o mutante-corredor se chama Aquiles, como o guerreiro invulnerável da Ilíada). Mas ninguém pode negar: ausente até na tradição literária brasileira, a ficção científica acaba de ser colocada por ele na rota dos folhetins.

A aposta de Santiago é arriscada. Temas assim funcionam bem num seriado como Heroes, cujas temporadas têm pouco mais de vinte episódios. É mais complicado manejá-los num horizonte de 200 capítulos. Antes da estréia, o autor já admitia reduzir a participação dos mutantes se eles causassem rejeição (daí a profusão de subtramas: se o pior ocorrer, o autor tem saídas). Caminhos chegou a marcar 20 pontos de média, mas depois passou a oscilar abaixo disso. Mesmo que se confirme uma queda, contudo, seria preciso apurar se a causa são os mutantes ou outro fator. Em meio à pirotecnia de ação e efeitos especiais, ainda não sobrou espaço nem para apresentar o par romântico da história. A trapezista Maria (Bianca Rinaldi) e o policial federal Marcelo (Leonardo Vieira) só deverão se encontrar lá pelo capítulo vinte. Santiago já deu mostras, aliás, de que essa heroína vai pagar muito mico. Numa seqüência insólita, ela foi presa por assassinato depois de ser achada desacordada (e vestida de estátua viva) ao lado do cadáver do dono da tal clínica. ‘Maria tem superforça, como a mulher brasileira’, diz o noveleiro.

Santiago tem ao menos a tecnologia a seu favor, já que a Record investiu um caminhão de dinheiro nisso. A menina que voa, por exemplo, é filmada diante de um fundo neutro, pendurada por cabos, e todo o restante da cena é composto digitalmente. A rede gastou quase 2 milhões de reais no equipamento que permite esses efeitos. Ele é conhecido como ‘Inferno’. Por ibope, os bispos da Record não se importaram em cometer esse pequeno sacrilégio.’

******************

Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

Blog Vi o Mundo

Veja

Terra Magazine

Comunique-se

Cult

Último Segundo

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem