Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

DIRETóRIO ACADêMICO > FIM DE SEMANA, 25 E 26/08

Vi o Mundo

28/08/2007 na edição 448

MÍDIA & POLÍTICA
Luiz Carlos Azenha

Há mais de vinte anos eu não andava de ônibus em São Paulo, 21/08/07

‘Fui me atualizar no assunto, viajando da divisa entre o município de Taboão da Serra e o bairro de Campo Limpo até a região central da cidade.

Fiz o trajeto que a Gilmara, que trabalha aqui em casa, faz todos os dias.

Conosco estavam o ex-marido dela, Bira, e a irmã Giovanna.

As duas trabalham no mesmo prédio.

Os ônibus mais novos da frota paulistana são mais confortáveis.

Porém, os bancos sumiram para dar mais espaço para quem viaja em pé.

Resultado: a grande briga é para conseguir um assento.

Todos lá no bairro da Gilmara acordam com essa preocupação: hoje vou viajar em pé ou sentado?

Quem veio me buscar em casa foi o Júnior, irmão da Gilmara.

Ele não está nem um pouco preocupado com o caos aéreo.

Nem com o caos na catraca.

Sobre o transporte de mão-de-obra empilhada para o centro de São Paulo, Júnior nota que não chama a atenção de ninguém ‘porque sempre foi assim.’

A família da Gilmara faz parte da nova classe média que surge na periferia paulistana.

São eleitores do Lula e da Martha Suplicy, a quem agradecem por ter levado uma escola moderna até o bairro.

Cerca de quinze quilômetros separam a origem de nosso ônibus do destino.

Estava tudo normal no trânsito e a viagem durou uma hora e quarenta minutos.

Sem contar quarenta minutos de caminhada para chegar ao ponto inicial e ao destino final.

De ônibus, levamos em média mais de 6 minutos para percorrer 1000 metros.

Para quem não consegue um assento a viagem é cansativa: as pessoas se espremem no ônibus e chegam ao destino amassadas – foi o meu caso.

Antes da viagem, procurei nos jornais, nos telejornais e nas emissoras de rádio informações sobre quantos ônibus estavam deixando os seus destinos com atraso; quantos quebraram durante o trajeto; quantas horas de trabalho foram perdidas.

A nova ordem para os motoristas paulistanos é de que não podem viajar com as portas abertas – e gente pendurada para fora.

Dona Isabel, a mãe de Gilmara, sabe tudo sobre as linhas de ônibus.

O melhor horário, o melhor ponto para pegar a condução mais vazia, como combinar duas linhas para chegar mais rápido ao destino.

Perguntei se ela já tinha visto repórter de jornal ou equipe de televisão cobrindo a lotação dos coletivos.

Nunca.

Enfrentar um ônibus lotado todos os dias nem é o maior problema para quem mora em Campo Limpo.

O rio Pirajussara corta o bairro e, quando enche, inunda várias ruas.

Gilmara diz que a água é contaminada e conhece o caso de uma criança que pegou leptospirose, a doença transmitida pelos ratos.

Assassinatos na região são comuns.

Na semana passada, por exemplo, um bando local matou dois rapazes que faziam assaltos no bairro.

A polícia é mais temida que os bandidos.

Como não confia nos médicos do posto de Saúde, Gilmara dá duro levando os filhos para atendimento no ambulatório do Hospital das Clínicas.

Ou seja, o ônibus é apenas MAIS UM problema.

A família da Gilmara votou no Lula porque acha que ele governa para os pobres.

A vida deles melhorou nos últimos quatro anos.

Todos têm acesso a bens de consumo antes inatingíveis.

Marina, irmã da Gilmara, vai se tornar em breve a primeira pessoa da família a tirar diploma universitário.

Júnior, o irmão, tem uma pequena empresa de informática.

Gilmara voltou a estudar, quer completar o segundo grau e, quem sabe, tentar uma faculdade.

Dona Isabel, a mãe da Gilmara, veio da Bahia com o marido.

Ele foi assassinado pela polícia depois de uma briga em um bar.

Dona Isabel trocou o catolicismo pela Igreja Universal, mas não dá dízimo para o pastor.

Ela acha que essa história de gay ‘é coisa do diabo’, mas Júnior discorda, convive normalmente com os amigos gays.

Giovanna, a irmã de Gilmara diz que o patrão vive pegando no pé dela por causa dos atrasos.

‘Ele nunca andou de ônibus na vida’, disse.

‘Eu tive que imprimir na internet a notícia de que o salário mínimo tinha aumentado para ele me reajustar’, contou.

Mesmo assim, o patrão diz que só pagará a ela um salário mínimo se ela trabalhar oito horas por dia, cinco dias por semana.

‘Ele mora sozinho. Não tem o que fazer na casa dele. Fui ao sindicato e eles me disseram que ele tem que me pagar o mínimo’, disse ela.

Não há nada de extraordinário no que batizei de Caos na Catraca.

A não ser pelo desgaste físico incorporado à rotina.

E a dona Isabel, aos domingos, ainda dirige um Gol até campos de futebol do bairro, onde vende sanduíches e refrigerantes.

A Gilmara anda de ônibus cerca de 3 horas por dia, sem contar as caminhadas até o ponto e o tempo de espera.

Por baixo, durante um ano todo, ela passa UM MÊS dentro de um ônibus.

‘Acostuma’, disse ela, curiosa para saber o que eu tinha achado da aventura.

‘Isso eu chamo de caos’, respondi.

Cheguei em casa, tombei na cama e dormi.

Gravei alguns vídeos para ilustrar a história.

Estão na playlist ROTINA DO CANSAÇO:

Pedra do Reino, um erro no rótulo

Publicado em 20 de agosto e editado para acréscimo em 21 de agosto de 2007

Para você ter uma idéia aproximada, a viagem de ônibus que fiz começou na região 70 (Raposo Tavares) e terminou na 82 (Consolação).

Minha próxima viagem será da área 57 (Marsillac) até a 82 (Consolação).

Em julho de 2007 a SPTrans transportou 214 milhões de passageiros.

O Metrô de São Paulo tem pouco mais de 61 quilômetros de extensão e transporta 3 milhões de passageiros/dia.

Para efeito de comparação, o Metrô de Nova York tem cerca de 1.056 quilômetros de linhas.

[A elite americana é um horror: torrou dinheiro público para fazer esse metrô gigantesco em Nova York; nossa elite é muito mais educada, informada e inteligente. Só fez 61 km em São Paulo]

Ou seja, o sistema empilha-mão-de-obra-e-carrega-até-o-trabalho afeta mais de 90% dos moradores de São Paulo.

Não é caos, porque sempre foi assim.

Já o caos aéreo, que contabiliza diariamente quantos vôos atrasaram na saída de Congonhas, afeta diretamente uma parcela ínfima de paulistanos, aqueles que pagam dois reais e meio para comprar um jornal.

Quem anda de ônibus ou metrô lê o Destak, jornalzinho de grátis distribuído na cidade.

Só 8% dos brasileiros viajam de avião.

Isso dá a você uma idéia de como nossa mídia corporativa é elitista.

É feita por – e dirigida para – uma parcela ínfima dos brasileiros.’

******************

Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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