Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

DIRETóRIO ACADêMICO > FORMAÇÃO DO JORNALISTA

Vídeo registra luta de alunos da UEPG

Por Helcio Kovaleski em 25/10/2005 na edição 352

No fim de fevereiro de 2004, algo de podre no ar da Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR) ameaçava professores, funcionários e principalmente alunos com a possibilidade real de não haver aulas durante o ano letivo. Por quê? Um pouco de uma legislação estadual capenga e muito de uma falta crônica e irritante de vontade política, travaram completamente a garantia de haver professores nas salas de aula – nem mesmo colaboradores, que dirá via concurso público. Foi nesse momento que um grupo de professores e alunos do curso de Jornalismo – histórico núcleo de resistência na própria instituição – resolveu se rebelar contra o sistemão e mostrar que a formação de alunos também passa pela participação efetiva em movimentos sociais.


Outros cursos se juntaram ao Jornalismo no que ficou conhecido como ‘Movimento 2 de Março’, seguramente o maior movimento estudantil da história de Ponta Grossa, que durante pouco mais de um mês literalmente chacoalhou a UEPG e a cidade com passeatas, apitaços, aulas ao ar livre, faixas e cartazes com slogans e palavras de ordem, palestras, apresentações culturais e o inesquecível Acampamento Emiliano Zapatta, na praça Santos Andrade. Quem passou em frente à UEPG naquele fim de verão jamais vai esquecer daquele pessoal que protestava com um sorriso de ironia estampado no rosto.


Cenas desses bons tempos de intensa movimentação estão registradas no videodocumentário A resistência começa em março, roteirizado e dirigido por Rodrigo Czekalski, aluno do terceiro ano de Jornalismo, também com cenas e depoimentos de alunos, professores e algumas autoridades, tiradas da imprensa televisiva que cobriu a movimentação.


Documento de valor


O vídeo foi lançado em 24 de agosto passado, nas comemorações dos 20 anos do curso de Jornalismo da UEPG. O momento escolhido não poderia ter sido mais simbólico, pois o vídeo teve a felicidade de resumir em 30 minutos tudo o que significa esse curso para a UEPG e para Ponta Grossa. Sim, porque é disso que se está falando: A resistência começa em março acabou se constituindo numa espécie de discurso do que é o curso de Jornalismo, porque faz muito tempo que, anualmente, a resistência começa em março. A falta de professores sempre foi uma constante para o Jornalismo.


A partir de depoimentos de alunos e professores, Czekalski construiu um roteiro em que a fala dominante é a apatia crônica quanto à falta de professores, por parte do governo do estado. Mas isso é flagrante também em relação à própria UEPG. Uma das entrevistadas, a professora Hebe Maria Gonçalves, lembra a ‘participação baixa dos professores’ nas discussões sobre a situação. Outra professora, Cíntia Xavier, fala da importância de se ‘sair de cima do muro e marcar território’.


A edição também foi muito feliz. Em dado momento, Czekalski contrapõe a entrevista que o secretário de Ciência e Tecnologia, Aldair Rizzi, deu a um telejornal – no qual ficou quase mudo diante das perguntas insistentes das apresentadoras – às imagens das passeatas dos alunos. Ou seja, o governo estadual realmente não tinha nada a dizer sobre nada, restando-lhe a arrogância em protelar a contratação de professores. E olha que o pedido, naquele momento, era somente por colaboradores. Depois, Czekalski também contrapõe imagens do reitor Paulo Godoy falando ao mesmo telejornal sobre o número de professores que faltava a outras dele mesmo dizendo aos alunos do movimento que isso seria uma ‘solução sempre paliativa’.


Para completar, a trilha do vídeo conta com composições de Victor Miranda e Luciano Dutra Miguel, respectivamente ex-aluno e aluno do curso, e com a clássica El condor pasa, canção popular que se tornou ícone da resistência histórica da América Latina. Preciosismo. No fim, de maneira gentil e inteligente, Rodrigo Czekalski credita a direção do videodocumentário a ‘todas as pessoas que participaram efetivamente do movimento’, e o dedica ‘aos que apenas achavam uma causa justa e aos que lutam até hoje’.


Por todos esses motivos, A resistência começa em março é um valioso documento de como se faz história na universidade.

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Estudante de Comunicação da UEPG/PR, diretor de vídeo e roteirista de cinema

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