Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Violência contra mulheres incentivada pela mídia

Por Cynthia Semíramis Machado Vianna em 28/10/2008 na edição 509

Em Santo André, na última semana, presenciamos um caso de cárcere privado que desnudou para todo o país o machismo dos policiais e jornalistas, a irresponsabilidade dos meios de comunicação e a insensibilidade nos casos em que as vítimas são mulheres. Um homem manteve como reféns a ex-namorada e uma amiga dela porque estava inconformado com o fim do relacionamento.

O machismo, que utilizarei aqui como a concepção de mundo que considera os homens superiores às mulheres e permite que eles possam impor sua vontade a elas, deve ser combatido. Especialmente em relacionamentos afetivos, não deve haver superioridade ou inferioridade de nenhuma das partes, mas igualdade na relação. Ninguém pode tratar outra pessoa como propriedade, nem obrigá-la a se manter num relacionamento. E, em hipótese alguma, pode-se admitir que sejam cometidos crimes, com o fim de impor a vontade de uma pessoa sobre outra.

Horror e decepção

No entanto, a maioria dos casos de violência cometida contra mulheres decorre da insatisfação do homem com o término do relacionamento e a tentativa de impor sua vontade, agredindo-a para retomar a relação, ou matando-a, para que não se torne ‘propriedade’ de mais ninguém. Quem ama não mata, já diziam as feministas alguns anos atrás; hoje podemos acrescentar: quem ama não mata, não tortura, não agride, não mutila, não mantém em cárcere privado. Qualquer defesa desses crimes, em nome de um pretenso sentimento amoroso, serve apenas para encobrir a violência contra uma pessoa que manifestou legitimamente a sua vontade de sair da relação.

No caso de Santo André, tanto as autoridades quanto os meios de comunicação agiram de forma a desculpar o criminoso, minimizando suas ações e tratando-o como um jovem trabalhador em crise amorosa. Isso não deveria apagar o fato de que estava cometendo um crime para impor sua vontade à ex-namorada. E aqui cabe uma primeira crítica à atuação dos meios de comunicação: por que não falar do horror e decepção que uma jovem de 15 anos possa estar sentindo porque o primeiro namorado dela preferiu cometer crimes para afirmar que ela é propriedade dele, e por isso ela não poderia se separar?

Típico crime de gênero

Se os jornalistas são tão ciosos em mostrar ‘o outro lado’, especialmente quando se trata de homens-pais-de-família-honestos-trabalhadores vítimas de crimes, por que se omitiram neste caso, em que a vítima principal era uma jovem-estudante-séria-responsável com a vida toda pela frente? Temos um criminoso e temos quatro vítimas: dois homens que eram reféns e foram libertados no primeiro dia (e não tivemos mais notícias deles) e duas mulheres reféns, sendo uma delas a ex-namorada do agressor. Por que a empatia da mídia foi para o homem, e não para as vítimas mulheres? É praticamente impossível pensar em alguma explicação além de machismo, pois é óbvio que neste caso os homens foram tratados como superiores e mais importantes que as mulheres.

Apesar de a Constituição da República pregar a igualdade e vedar a discriminação, seja qual for a sua forma, o que foi visto na atuação das autoridades foi uma discriminação de gênero. As reféns, mulheres, foram ignoradas pelas autoridades (inclusive pelo Ministério Público, que sempre atua cioso dos direitos das vítimas), que procuraram manter a integridade física de um homem que estava cometendo um crime. Foram divulgadas informações de que o rapaz estava agredindo a ex-namorada durante o cárcere. Era um caso em que a atuação policial deveria ser mais incisiva, de forma a proteger as vítimas o máximo possível.

Mas a impressão passada à população foi a de que garantir a integridade física do homem era mais importante do que impedir as agressões à ex-namorada, ou impedir que uma refém já libertada voltasse ao cativeiro. O resultado também foi típico de crimes relacionados a gênero: o homem saiu ileso; uma das mulheres (a ex-namorada) morreu após ser baleada no púbis (provavelmente para garantir o argumento machista ‘se não é minha, não será de mais ninguém’) e na cabeça; a outra mulher foi ferida no rosto e talvez precise de mais cirurgias para não ficar desfigurada.

Falas estarrecedoras

A atuação dos meios de comunicação foi uma subversão de todos os valores que devem reger a comunicação social, especialmente a dignidade da pessoa humana e a não-discriminação. Programas de televisão não respeitaram sequer a situação delicada das vítimas e interferiram, ao vivo, conversando com alguém que estava cometendo um crime. Como se a situação por si só não fosse absurda, optaram por não condenar a atitude do criminoso, tratando-o o tempo todo como se estivesse agindo corretamente. O rapaz, feliz por aparecer na televisão e tornar-se celebridade, sentiu-se estimulado e optou por estender o cárcere privado até o limite possível, que foi o desfecho trágico.

Com essa postura, os meios de comunicação interferiram nas negociações, estimularam uma inversão de valores (quem, em sã consciência, torceria por alguém que está cometendo um crime?) e agiram de forma escandalosa, violando o Código de Ética dos Jornalistas (o art.11, parágrafo II, veda a divulgação de informações de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em casos de crime).

Uma dessas manifestações televisivas, em especial, merece repúdio. Trata-se do programa de Sônia Abrão, no qual foi concedida extrema importância ao criminoso, com um repórter entrevistando-o ao vivo e chamando-o de ‘querido’. Ao final da ligação, optou-se por conversar com especialistas sobre o caso. As falas de um advogado foram estarrecedoras: ele ignorou o sofrimento da refém, considerou-se otimista, pretendeu que o caso terminasse em pizza e que houvesse um casamento feliz entre vítima e carcereiro! Tamanha falta de respeito e empatia pela vítima de um crime jamais deveria ser incentivada por profissional algum, nem divulgada sem ressalvas.

Facilitando a impunidade

Todo este caso é de extremo mau-gosto, pois mantém uma situação de violência contra mulheres. Uma mulher que esteja pensando em terminar o namoro ou casamento, após acompanhar o noticiário, ficará em dúvida sobre o que fazer. O recado passado pela sucessão de acontecimentos da última semana é claro: mostra que mulheres que fazem valer sua vontade correm grande risco de serem agredidas e perderem a vida, enquanto os homens que as agrediram para impor um relacionamento se tornam estrelas de televisão e recebem toda a simpatia dos meios de comunicação.

Igualdade entre homens e mulheres pressupõe um tratamento digno nos meios de comunicação, para que não sejam perpetuados atos machistas que dificultam e desvalorizam a vida das mulheres. Porém, quando a mídia opta por valorizar um agressor de mulheres abre espaço para a manifestação de outros agressores, justificando-os e facilitando a sua impunidade, já que não são vistos como os criminosos que realmente são. Não é este o papel dos meios de comunicação em um Estado democrático de direito e o mínimo que se espera da postura dos profissionais da comunicação é compreenderem o próprio machismo, a fim de evitar futuras abordagens tão trágicas e ofensivas às mulheres quanto as do caso de Santo André.

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Professora universitária, mestre em Direito pela PUC-MG

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