Terça-feira, 20 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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DITADURA MILITAR > Revisionismo histórico

Canais do YouTube contestam narrativa de filme pró-golpe

Por Ricardo Neto em 23/04/2019 na edição 1034

O filme 1964 – O Brasil entre Armas e Livros foi lançado na plataforma do YouTube no dia 2 de abril pelo grupo Brasil Paralelo (BP) e já soma mais de 5,5 milhões de visualizações. O conteúdo apresenta uma versão alternativa do golpe militar e justifica os eventos da ditadura com o argumento de que os militares são os responsáveis por um movimento revolucionário que impediu a suposta ameaça comunista e socialista de tomar conta do Brasil por meio de instituições, universidades públicas e influências da produção cultural e artística.

(Foto: Reprodução YouTube).

A produção do filme chega a se apropriar de uma imagem do fotógrafo Sebastião Salgado para ilustrar a guerrilha do Araguaia (no tempo 1h22min23seg), que ocorreu entre o final dos anos 1960 e meados dos 1970. A imagem foi editada pelos autores do filme e não está creditada. O registro faz parte de um dos trabalhos mais marcantes do fotógrafo e é intitulado de “Serra Pelada”, quando ele foi ao Pará, em 1986, registrar os trabalhadores durante a corrida do ouro. Conhecido como o Formigueiro Humano, o local chegou a abrigar mais de 80 mil garimpeiros. No final do ano passado, 20 prints da série foram leiloados, em Londres, por R$ 570 mil.

Com direção de Filipe Valerim e Lucas Ferrugem, o documentário chegou a ter publicidade um mês antes do lançamento com trailer. Filho do presidente da República e deputado federal, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), inclusive, chegou a divulgar o material como algo que pretendia “resgatar a verdade sobre o período mais deturpado da nossa história”. O documentário chegou a ser exibido pela rede de cinemas Cinemark em ao menos seis capitais, em 31 de março, dia em que se completaram 55 anos do golpe de 1964. O assunto ganhou repercussão nas redes sociais e chegou a ficar em primeiro lugar nas discussões, o que fez a rede de cinemas a emitir uma nota de esclarecimento. A justificativa, segundo os organizadores, foi um erro de procedimento e o desconhecimento do tema sobre o filme. Arrependida das exibições, a empresa justificou que não se envolve em questões político-partidárias e que não apoia organizações políticas.

O Brasil Paralelo (BP) é um grupo formado em 2014 por jovens gaúchos motivados pelo inconformismo político depois das manifestações de junho de 2013. Em 2016, eles abriram a LHT Higgs Produções Audiovisuais Ltda, que tem como sócios Henrique Viana, Bruno Panazzolo Ruschel, Lucas Ferrugem e Felipe Valerim. No site da Receita Federal, é possível consultar a atividade econômica da empresa: a principal é a geração de conteúdo para o seu site, seguido de comércio varejista de livros, artigos de vestuário, acessórios e o treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial.

(Foto: Reprodução)

 

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução).

É por meio de uma plataforma de vendas de cursos e dos membros assinantes que o BP apresenta o seu Núcleo de Formação, um produto comercial que promete oferecer o maior conteúdo político e historiográfico já produzido no país. Os nomes dos professores incluem, entre eles, Olavo de Carvalho, Luiz Felipe Pondé e o jornalista William Waack. Outro produto financiado pelos membros assinantes é a produção de filmes, conteúdos políticos e históricos, com o objetivo de transformar a cultura através da educação. 1964 – O Brasil entre Armas e Livros serve não somente de conteúdo, mas de trampolim para chamar a atenção dos cursos oferecidos e alavancar a publicidade para conquistar novos assinantes. Durante o mês de abril, período de lançamento do filme na plataforma do YouTube, o BP investiu em propaganda para engajar a divulgação da produção pró-golpe militar.

Na plataforma de vídeos, os canais da resistência — do escritor e filósofo Henry Bugalho, do professor de história Carlito Neto, do chargista e jornalista Maurício Ricardo, além de Clayson Felizola, jornalista e professor especialista em filosofia contemporânea, e do crítico de cinema Pablo Villaça, editor do site Cinema em Cena — contestaram a produção do filme e a autenticidade dos comentários dos entrevistados como sendo mais uma narrativa politicamente enviesada e fruto de teorias conspiratórias com o objetivo de promover o revisionismo histórico no país e “passar um pano” na ditadura. Além de frustrar a expectativa das supostas revelações de documentos secretos produzidos na União Soviética e em países que faziam parte da antiga Cortina de Ferro, no leste europeu. Para eles, a produção traz mais controvérsia ao invés de novas revelações prometidas pelo Brasil Paralelo ou fatos e documentos históricos relevantes sobre algo concreto.

O documentário chega a sugerir que a cidade de Brasília foi construída com os mesmos princípios soviéticos e que o arquiteto Oscar Niemeyer se inspirou em um livro comunista para distanciar do povo a capital e os políticos do país. Sem embasamento histórico ou fonte de justificativa, um dos entrevistados, Alexandre Borges (no tempo 36min09seg), chega a dizer que a obra é um dos primeiros sinais do comunismo e de ações esquerdistas no país para mudar a sede da capital, antes no Rio de Janeiro (RJ), a partir de 1955. Sem citar o “Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil”, em 1956, e dizer que seu vencedor foi o arquiteto e urbanista Lúcio Costa, o documentário omite informações históricas sobre a ideia da transferência da capital ter começado no século XVIII, por motivos estratégicos e demográficos. Além de não citar a cronologia oficial, que pode ser consultada no site da Câmara dos Deputados, o filme não faz referência a outros momentos históricos, como o sonho de Dom Bosco, em 1883, e a nomeação de Luiz Cruls, em 1892, como diretor do Observatório Nacional por Floriano Peixoto, para chefiar a expedição que demarcaria no Planalto Central o território oficial e, muitos anos depois, o início da construção da nova capital, que ocorreria em 1956.

Henry Bugalho apontou duas teses em seus vídeos para aprofundar o debate e contestar as informações do filme. Ele concluiu que a produção do BP tenta apresentar uma teoria conspiratória inspirada nos norte-americanos e nos novos neoconservadores brasileiros. Das teses, a primeira fala sobre o filme querer mostrar a ameaça comunista e o risco de o Brasil virar Cuba, ou mesmo a China, além de abordar o golpe como uma parceria civil e militar que impediu o país de virar uma nação comunista. Na segunda tese, Bugalho conclui que o documentário é uma tentativa de mostrar que os militares evitaram que a esquerda florescesse ao longo do regime e, com a redemocratização, não dominasse e ocupasse todos os espaços e a cena política, impedindo uma suposta hegemonia política.

O canal do Carlito Historiador contestou as versões alternativas e interpretações incorretas de arquivos de documentos históricos apresentados. Além de não divulgar fontes e reunir entrevistados que sugeriram opiniões, o professor de História questiona a produção e afirma que essa é uma tentativa de desconstruir de forma social e histórica, sem comprovação científica, aliando opiniões e narrativas de pessoas que não são especialistas no tema. Um dos pontos questionados pelo youtuber é a omissão da interferência dos Estados Unidos e de agentes da inteligência americana no Brasil durante o golpe, além do número de mortes na ditadura que não foi considerado durante o documentário. Carlito responde à omissão com matérias sobre documentos que comprovam as mortes e a interferência dos Estados Unidos durante o regime militar.

Clayson Felizola, jornalista e professor especialista em filosofia contemporânea também contestou informações disseminadas pelo Brasil Paralelo desde 2017. Até agora, o youtuber já fez nove vídeos contestando e respondendo o conteúdo revisionista sobre a história do Brasil e, em alguns casos, abordando a ausência de comprovação ou constatação de fontes. Na última produção dos jovens gaúchos, o professor explica que o documentário apresenta questões desconexas para induzir informações que diminuem o AI-5, por exemplo, e diz que o filme não mostra o que ocorreu durante o governo Médici. A conclusão é de que se trata de um filme que reafirma discursos e teorias de um marxismo cultural no país e uma narrativa de conspiração, além de demonizar os movimentos de esquerda.

O canal do youtuber Maurício Ricardo critica em seu vídeo o desalinho cronológico e confuso, além da omissão de informações sobre a Ditadura. O chargista conclui que a obra é um “tiro pela culatra”, na visão dos autores, pois, segundo ele, além de confirmar que o golpe existiu, não há como entender o documentário, que mexe constantemente na cronologia.

O crítico de cinema Pablo Villaça publicou em seu canal no YouTube sua análise ao questionar o formato do documentário em três áreas diferentes: ética, estética e factual (histórica). Do ponto de vista estético, o filme, segundo Villaça, possui uma linguagem ultrapassada, além de uma editorialização na forma de “cabeça falante”, que é quando o narrador molda a percepção do espectador, com uma narrativa manipuladora sobre aquilo que o telespectador deve pensar.

Sob o ponto de vista ético, o crítico destaca o uso da foto de Sebastião Salgado para ilustrar um evento fora do contexto e afirmações durante o documentário; sobre o revisionismo histórico, diz que não tem base na realidade e que, em alguns casos, apresenta inverdades. Outro apontamento é a ausência de especialistas e o uso de citações apócrifas ou de pessoas que já morreram, inclusões que favorecem questionamentos do ponto de vista histórico.

Pablo Villaça conclui a crítica com um posicionamento editorial extraído da própria obra cinematográfica 1964 – O Brasil entre Armas e Livros: “a mentira ganhou forma na tática da desinformação; a desinformação é uma mentira, não contada por um mentiroso, mas por outra fonte, uma fonte legítima em que a vítima da mentira confia. Essa tática não apenas dificulta o discernimento da realidade mas também faz com que a mentira tenha uma vida própria, até que, repetida muitas vezes, torna-se parte da história”.

Segundo Villaça, é o Brasil Paralelo falando dele mesmo.

***

Ricardo Neto é jornalista.

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