Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

DOSSIê DIGITAL > 1964 + 40

32 mais 32, igual a 64

Por Eurilo Duarte em 30/03/2004 na edição 270

Os alegres Trens da Reforma partem da estação Roosevelt
lotados de delegados paulistas ao comício do dia 13, no Rio. Barulhentos,
cheios de faixas, levam desde operários a sacerdotes da Igreja
Católica Brasileira, criada pelo Bispo de Maura. Não há
problema de passagem. A viagem é de graça. Ônibus
e caminhões transportam outras comitivas de sindicatos – todos
ao comício. São Paulo deve pôr 30 mil representantes
na praça Central.

Mas alguns resistem ao convite. Oficiais do Exército que constituem
o Conselho de
Justiça da 2ª Auditoria Militar encaminham expediente às autoridades
militares.Protestam e pedem inquérito por terem recebido correspondência
oficial da Petrobrás, convidando-os para o comício. Junto, um apelo
assinado por Oswaldo Pacheco, líder comunista em São Paulo.

Quem não foi, assistiu pela televisão ou escutou pelas rádios. No dia seguinte, São Paulo todo comenta, nervoso. As classes produtoras classificam de ‘surpresa desagradável’ a atitude de João Goulart. Um pronunciamento conjunto da indústria, comércio e agricultura é esperado a qualquer momento. ‘Pintando-nos da forma que pintou – diz um representante da indústria na reunião extraordinária da Associação Comercial – o Sr. João Goulart jogou operários contra patrões, segundo ele, quase criminosos, comprometendo a harmonia social e o ritmo do desenvolvimento econômico’.

A UDN promove também reunião extraordinária. Aponta como ‘pregação subversiva’ as afirmações reformistas de Goulart. Em nota oficial declara que ‘o grande objetivo do comício mobilizado pelos comunistas e patrocinado pelo Presidente da República é a desmoralização das instituições, o desrespeito aos legítimos representantes do povo e o fechamento do Congresso Nacional’.

Os Deputados Cunha Bueno e Teófilo de Andrade denunciam que Goulart pretende, após o comício, governar através de decretos, ignorando o Poder Legislativo e iniciando uma ‘ditadura branca’.

Movimento para criação de um Conselho Permanente de Presidentes de Partidos Políticos e apelo ao Congresso para votar o impeachment de João Goulart é lançado pelo Partido Libertador. Pede pronunciamento das Forças Armadas e sugere São Paulo para funcionamento do Congresso.

Estamos a 16 de março e São Paulo vai agitar-se.

A noite da faculdade

Já no fim da tarde do mesmo dia 16, o Largo de São Francisco exibe aspecto diferente. O normal da praça é movimento intenso, principalmente quando escritórios e lojas encerram o expediente e dos grandes edifícios milhares de funcionários ganham a rua.

Mas a multidão do Largo de São Francisco está parada.

O jornaleiro fecha sua banca, porque há 18 anos é íntimo da praça. As frases, a fisionomia, os gestos dos ocupantes daquela hora indicam agressividade. Plantada ao fundo, a Faculdade de Direito – portões abertos, vaivém de estudantes. É noite de conferência no centro Acadêmico XI de Agosto. Tema de grande atualidade: a reforma agrária. E o conferencista, João Pinheiro Neto, superintendente da Supra.

Em qualquer ponto do Largo, há um constante ruído surdo de vozes, que vai crescendo à medida da chegada de mais gente, como se estivesses empenhados na gestação de um ruído cada vez maior.

Às 20h15m um carro preto entra no Largo e o ruído dispara em milhares de gritos. É um veículo da Supra, com João Pinheiro neto e Mário Donato, delegado local do órgão, e o motorista. Mário Donato abre a porta e recebe um soco na boca. A porta é fechada rapidamente: ‘Fora, comunistas!’ Pauladas quebram os vidros. ‘Aqui não descem!’ Pauladas e pontapés na carroceria. Motor ainda em movimento, faróis altos acesos, o motorista acelera ao máximo, prendendo a embreagem. Os manifestantes brigam entre si em torno do carro. Estudantes contra estudantes, cada grupo querendo um tipo de reforma agrária. Lento, com aquele estranho anel de batedores, o automóvel desfila pelo Largo, para sair. O carro escapa, mas as brigas continuam.

Choques da Força Pública e da Polícia Civil desembocam no Largo. Rajadas de metralhadora para o ar e bombas de gás lacrimogêneo. Correrias. Cassetetes em ação. Sai ferido um fotógrafo. Os portões da faculdade são fechados aos empurrões e uma barricada é montada por trás. Nas paredes de fora e nas janelas, o rastro da metralha.

Os dois grupos estão, agora, realmente separados. Dentro da faculdade, os defensores da conferência. E os contrários espalhados nas ruas vizinhas. João Pinheiro Neto toma uma decisão logo que se afasta: vai direto à casa do general Amauri Kruel, comandante do II Exército. Pede garantias. No diálogo, o general esclarece que essas garantias devem ser dadas pela Polícia Civil. Não pode lançar o Exército numa contenda de estudantes. Enquanto se processam as gestões, Pinheiro Neto resolve ir à televisão, para falar.

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