Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

DOSSIê DIGITAL > 1964 + 40

Da conspiração à revolução

Por Carlos Castello Branco em 30/03/2004 na edição 270

Quando, em março e abril de 1963, logo após a instalação
do novo período legislativo, o deputado Leonel Brizola assinou
prazo ao Congresso Nacional para votar as reformas de base, sob ameaça
de, em caso contrário, ir procurar em outros caminhos a solução
da crise brasileira, iniciava-se entre nós a pregação
ostensiva da revolução.

Na mesma época, ou seja, a 25 de março daquele

ano, num
almoço realizado em
Fortaleza, Ceará, o general Humberto Castelo Branco mantinha contato pela
primeira vez com o futuro chefe da oposição, Deputado Bilac Pinto,
que seria eleito pouco depois Presidente da UDN. O general estimulava a oposição
a resistir no Congresso, dando idéia do propósito dos comandos militares
de se oporem a uma ação subversiva que partisse dos círculos
governamentais.

O Sr. Leonel Brizola foi vencido dentro da Câmara dos Deputados a tal ponto que não pôde prosseguir lá dentro sua campanha. Retirou-se para a procura dos caminhos da revolução, indo à mobilização de sindicatos e de bases militares.

Aparentemente, o Presidente João Goulart não endossava a atitude do Sr. Brizola. Vitorioso com o plebiscito, que lhe devolveu os plenos poderes de poderes de Presidente da República, organizou um Governo de conciliação com pessedistas e trabalhistas, centralizado em torno do Prof. San Thiago Dantas e tendo como planejador o economista Celso Furtado. Com o Plano Trienal e gestões iniciadas no exterior, dava o Governo a impressão de procurar resolver, em termos de normalidade e confiança, os problemas do País.

O Ministério San Thiago Dantas durou pouco, porém, caindo sob o impacto das denúncias brizolistas, de contemporização com as ‘força espoliativas’. Em abril, no entanto, na plena força desse Ministério, uma ação militar frustrada ocorrera na Guanabara: a esquerda, que tinha o seu chefe militar, General Osvino Alves, no comando do I Exército, denunciou o malogro de uma estranha movimentação de forças que teria por objetivo depor o Governador Carlos Lacerda concomitantemente com o governador Miguel Arraes, de Pernambuco.

Em junho, o Presidente João Goulart demitiu os ministros – inclusive, e um pouco em tom de desafio, o Ministro da Guerra, General Amauri Kruel. Nessa ocasião, embora não houvesse uma preparação militar adequada, o Governo poderia ter caído. Se o General Kruel atendesse aos numerosos e insistentes apelos para não passar a chefia do Exército, teria apoio suficiente para repetir o episódio da frustrada demissão do General Texeira Lott, em novembro de 1955. O Ministro da Guerra considerou, no entanto, que sua demissão era um ato da estrita competência do Presidente da República, uma afirmação, portanto, do império da legalidade democrática.

A vitória brizolista foi, porém, malograda com a constituição do novo Governo. O General Osvino não foi elevado ao Ministério da Guerra, entregue ao General Jair Dantas Ribeiro, o qual, meses antes, como comandante do III Exército, expedira excitada mensagem na qual informava não ter condições de manter a paz se o Congresso não convocasse o plebiscito. O Ministério da Fazenda foi entregue a uma expressão das elites industriais e financeiras de São Paulo, o Prof. Carvalho Pinto. No Ministério do Trabalho, o Sr. Almino Afonso, que executava por conta própria um programa de estímulo à ação política dos sindicatos, foi substituído por um desconhecido, o Senador Amauri Silva. O conjunto do Governo dava a impressão de que o Sr. João Goulart tinha o seu próprio plano, paralelo ao do Sr. Brizola: o Presidente procurava fortalecer-se pessoalmente com vistas à sua permanência no poder.

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