Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

DOSSIê DIGITAL > 1964 + 40

Debaixo dos deuses

Por Alberto Dines em 30/03/2004 na edição 270
Vidente: Cuidado com os idos de março!

César: Ele é um sonhador…
(…)
César: Então, os idos de março chegaram.

Vidente: Mas não se foram.

(William Shakespeare, Julio Cesar)


SEXTA-FEIRA, 13 DE MARÇO

Os grandes dias começam com uma distensão. Só depois vem o pressentimento. Esta sexta-feira 13, que todos antecipavam como perigosa e fatídica, começou macia. Céu claro, vento camarada e um jeito pacato de feriado tiravam do ar o perigo que o noticiário da semana insistia em atribuir ao dia. Depois das 12 o comércio fechou, as ruas se esvaziaram e a cidade ficou, de repente, acolhedora. Cidade acolhedora não faz revolução, pensamos todos, e quase tínhamos razão. Greve geral e feriado abafam qualquer rufar de tambor. Era o que tínhamos aprendido nesses três anos de crises. Se querem uma revolução tirem os homens de casa, as mulheres do lar e a garotada da rua. Só se incendeia um país em dia comum de trabalho, com gente cansada nas filas de ônibus, gente espremida nos trens.

O feriado distendia o dia e os ânimos. Na redação, a tranqüilidade dos dias com manchete garantida. As próprias bandas de música que o Governo Federal emprestara aos sindicatos conferia às ruas do centro da cidade um tom entre o Carnaval e o Dia da Independência.

Um sindicato desceu a rua da Assembléia, vindo das Barcas, com uma charanga carnavalesca. Um outro passou em frente ao Jornal do Brasil, num desfile muito bem organizado, quase miliciano. Um terceiro trazia camionetas com chapa-branca, de onde saíam sanduíches e refrigerantes. A maioria dos blocos que passava diante do jornal parava para nos vaiar. Já estávamos acostumados, ainda que vexados sempre, até os esquerdistas. Os estudantes da UNE passaram numa caravana de Volkswagens fazendo uma alegre algazarra.

– Isto vai dar em nada –, comentou alguém. A verdade, é que todos esperavam que o comício fosse igual ao anterior, em 24 de agosto de 1963: um grande aparato sindical, protegido por um outro aparato militar, muito discurso – e só.

Alguns de nós, porém, pressentíamos que o comício poderia terminar tranqüilamente, e dos candentes discursos nada sair, mas estava em marcha ser contornado por um final feliz. A revolução artificial que se queria implantar naquele feriado tranqüilo podia não vingar. Não vingou. Mas aqueles ingredientes que até então nunca tinham aparecido na vida brasileira estavam agora em cena e, tão facilmente, não sumiriam dela. Não sumiriam.

Os grandes dias começam com uma distensão. Retesam-se depois. A notícia do decreto Supra [Superintendência da Reforma Agrária], assinado em palácio e não em palanque, conforme fora prometido, deixou os mais assustados um pouco mais calmos. Afinal, Jango agia ainda sensatamente. Alguns minutos depois veio outra notícia que, desta vez, deixou os mais fatalistas perplexos: o Presidente, contrariando todas as promessas, assinara a encampação das refinarias particulares de petróleo. Enfim, a sexta-feira tensa e negra. Despontava o verdade sentido daquele dia.

A esta altura já estávamos em plena vigência dos archotes e dos gritos; diante de 200 mil pessoas, o Deputado Leonel Brizola pergunto à massa:

– Quem é a favor das reformas?’ – E todos responderam com o braço levantado.

Visto pela televisão, aquele mundo de braços esticados lembrava episódios tristes que envergonharam o mundo. Braços em massa quando se levantam, ainda que para dizer ‘sim’, lembram sempre braços em massa prontos para ir à loucura. O comício foi deprimente até para os esquerdistas.

Todos os oradores diziam asneiras e, se não dissessem, seriam devorados pelo desinteresse. Alguns se excederam na burrice, o que levou Luís Alberto Bahia, ao nosso lado vendo o espetáculo pela TV, a comentar: ‘A esquerda perde tudo quando perde a inteligência…’ O próprio Arraes foi vazio. Só Brizola e Jango acertaram em cheio. Brizola aprimorara sua técnica intercalando cada frase com uma pausa que conferia às suas teses uma retumbância enorme. E Jango estava num de seus dias mais felizes, num dia de festa oratória, abandonando o texto do discurso para se dar ao luxo, raro, de arengar de improviso, com frases certas e certeiras.

Sua mulher, Maria Teresa, ao lado, linda e sorridente completava para Jango o quadro de que tanto gostava: faixas, capacete e mulher bonita. João Belchior Marques Goulart, o político ardiloso e sensato, de pouca fala e que dominara tantas inteligências superiores sempre olhando o chão, olhava agora firme para a multidão. Era o senhor das massas, o dono das aclamações. Era, afinal o herói de Maria Teresa.

Só não nos dominara, através da televisão, porque percebíamos a todo instante o Chefe da Casa Civil, o Prof. Darcy Ribeiro, chegar-se a ele, pelas costas, e, aproveitando-se das pausa dos aplausos, ‘soprar’ algum pensamento novo. O pior foi quando o líder comunista Oswaldo Pacheco, também aproveitando uma deixa dos aplausos, ‘soprou’ para o Presidente tão alto que os microfones registraram a frase para sempre: ‘Pede ao povo para que ajude a fiscalizar os proprietários’. E Jango, segundos depois, aluno bem comportado e já sem nenhuma grandeza, começou a frase seguinte: ‘O povo deve nos ajudar a fiscalizar os proprietários…’

Jango falou, falou e falou. Quando o comício chegou ao fim, ele estava numa euforia que os mais íntimos nunca tinham visto. Eufórico e tonto. Tão eufórico que ao entrar na Mercedes preta bateu violentamente com a cabeça no teto do carro. Tão tonto que não percebeu que, desta vez, fora longe demais.

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