Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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Jango ou o suicídio sem sangue

Por Antônio Callado em 30/03/2004 na edição 270

Entre todas as comemorações do Quarto Centenário
de Shakespeare no mundo inteiro nenhuma teria agradado tanto ao próprio
quanto o comício que houve no Rio de Janeiro na sexta-feira, 13
de março. O Bardo afetava um certo respeito pelos enredos históricos,
mas seu prazer era mostrar como a paixão humana faz explodir qualquer
estrutura de ordem pública.

Desde que soube, no Extremo Oriente, em agosto

de 1961, da renúncia
de Jânio
Quadros,Jango sentiu que a Presidência da República em suas mãos
ia ser fogo. Sabia-se despreparado. E pessoalmente um homem indeciso e os que
o conhecem e respeitam têm um adjetivo que lhe aplicam sempre: humilde.
Aceitou, empurrado por Brizola, o encargo. E vagou em seus paços do Planalto
e Laranjeiras durante quase três anos (ou três atos) lutando contra
a própria inoperância.

Dia 13 de março deste ano, incapaz de suportar por mais tempo o desnível entre o que era e o que devia ser, Jango-Hamlet saiu para o comício. Tomara uma refeição ligeira de manhã, na base do chimarrão e depois, durante todo o dia, não comera mais nada. Tinha bebido muita limonada e em seguida uísque. (Nos dois últimos governos da República esse personagem escocês desempenhou papel macbethiano.)

Na Praça Cristiano Otoni, contra o maciço ciclorama do Ministério da Guerra (consome mais energia elétrica do que o Estado de Goiás) e sobre o palco cheio de milicos do dispositivo militar (inexistente) e de pelegos dos sindicatos que o Deputado Bilac Pinto amavelmente imaginara armados até os dentes, Jango resolveu iniciar aquela corrida para a destruição que desencadeia o orgasmo das tragédias. Brizola-Laertes já se dirigira ao povo em tom duro, esperando que mais uma vez Jango-Hamlet pedisse as reformas como quem pede um a esmola. Mas Jango ia descer a rampa. A Constituição-Gertrudes não podia continuar conspurcada por Lacerda-Cláudio, o assassino do Rei. Precisava ser redimida, reformada.

Segurando o microfone como um crânio de Yorick, Jango olhou a multidão lá embaixo. Gente de meter medo. Na sua boca, um gosto bom de turfa e água de arroio escocês. Ao seu lado, linda, Ofélia-Maria Teresa. Os heróis não sabem como a vida pode ser mansa e doce, pois não haveriam de sacrificá-la em nome de objetivos históricos que não durarão eternamente, por muito que durem.

Jango-Hamlet teve sua última hesitação. Mas aí viu, subindo e descendo, desaparecendo detrás dos fícus no Campo de Santana para reaparecer perto do cavalo de Caxias, iluminado vividamente pelas tochas da Petrobrás para mergulhar na escuridão dos arredores do Itamarati – o Fantasma. Ali estava ele, o Pai, a efígie de Getúlio Vargas pintada em dezenas de cartazes, ora erguida no alto, ora mergulhando de novo no seio do povo que ainda o ama, que ainda espera vê-lo vingado, que ainda chora aquele tiro no peito que manchou o pijama listrado.

– Eles não me perdoam porque eu sou o herdeiro da Revolução de 30 e de Getúlio Vargas – tinha dito Jango a uma amigo antes do comício.

Ali estava Getúlio agora, boiando sobre o povo e mergulhando nele como uma cabeça de afogado. O Pai morto, alma penada vagando feito fantasma porque continua por vingar.

– Manda brasa, Presidente, manda brasa – era o que mais lhe diziam durante aqueles dias. A expressão da gíria carioca parecia ter sido inventada para ele. Ainda a caminho do comício um seu ajudante de ordens tinha dito:

– Getúlio fez a Petrobrás e a Eletrobrás. O senhor hoje vai inaugurar a Mandabrás.

E Jango, diante do fantasma, mandou brasa no comício do dia 13 de março.

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