Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

CIêNCIA > VLADO, A MEMÓRIA NECESSÁRIA

Jornalismo em tempos de medo

Por Luiz Weis em 25/10/2005 na edição 272

Dos mais importantes grupos profissionais de classe média que se opuseram à ditadura, os jornalistas eram, a rigor, os únicos assalariados, no sentido clássico do termo – empregados em empresas privadas. Se o jornalista quisesse fazer política de oposição e continuar levando vida normal, a condição de assalariado inevitavelmente restringiria suas atividades ‘subversivas’.


Não apenas pela óbvia necessidade de conservar o emprego, mas também para ficar fora das listas negras de indesejáveis políticos, compiladas a quatro mãos – segundo se dizia nas redações – pelos serviços de segurança e o patronato. Ter o nome numa dessas listas era quase meio caminho andado para a prisão, mais dia, menos dia.


Além disso, os novos padrões de desempenho exigidos dos jornalistas com ambições profissionais, bem como a lealdade deles esperada pelas empresas que lhes proviam o ganha-pão e as perspectivas de carreira, não raro colidiam com seus projetos e práticas de resistência à ordem autoritária.


Isso porque no curso do regime militar, principalmente na sua primeira metade, os meios de comunicação de massa no Brasil passaram por profundas transformações. Em nenhum outro período a mídia nacional modernizou-se tanto e tão rapidamente. A TV Globo começou a operar em 1965. Em 1966 surgiram a revista Realidade e o Jornal da Tarde. Em 1968, a revista Veja. O Jornal Nacional foi ao ar em 1969. O Globo Repórter, em 1972.


Essas mudanças no business da comunicação – mudanças técnicas, tecnológicas, administrativas, de escala empresarial e de relacionamento do setor com o mercado e o Estado – afetaram substancialmente o exercício do jornalismo no país, o dia-a-dia dos jornalistas e suas escolhas políticas possíveis.


Nem os jornais chamados alternativos ou nanicos – notadamente os tablóides O Pasquim, Opinião e Movimento – puderam desconhecer as novas preocupações com a qualidade técnica dos produtos, próprias da grande imprensa, embora outros fossem os interesses e as prioridades de seus editores.


Na derradeira edição, de 23 de novembro de 1981, Movimento ressaltou que um dos objetivos da imprensa alternativa era ‘destruir o mito de que jornalista é um técnico, se não da neutralidade, ao menos da objetividade’.


Figurões e prepostos


A crescente ‘industrialização’ do jornalismo, exigindo grandes investimentos, condicionava a conduta e os cálculos dos senhores da mídia, seja diante do governo – no triplo papel de fonte de financiamento, anunciante e censor – seja diante das redações.


Nelas, redefinia os patamares de remuneração; os critérios de ascensão profissional; a estrutura de comando e os jogos de poder. Refletia-se ainda nas relações dos jornalistas com as fontes oficiais (principalmente nas áreas política, militar e econômica); ajudava a estabelecer a hierarquia dos fatos e a acolhida dada aos diferentes personagens que seriam notícia nas publicações e emissoras, o tom e a forma de tratamento das matérias.


Em conjunto e cada qual a seu modo, esses fatores tendiam a desestimular o jornalismo voltado para a denúncia desabrida do regime ditatorial, estimulando soluções de compromisso. Falava-se muito em crítica ‘construtiva’ e liberdade ‘com responsabilidade’, duas estupendas amostras da sintaxe dos militares e escribas a eles fiéis. Faziam companhia a outra preciosidade que faiscava no discurso do poder e nas colunas da imprensa: a democracia ‘relativa’.


Os empresários, quase sem exceção, tinham algo além de interesses econômicos em jogo para não atazanar os generais com cobranças impertinentes por mais democracia, liberdade de pensamento, criação artística e intelectual; respeito aos direitos humanos; apuração das crescentes brutalidades cometidas pelos órgãos repressivos e punição dos responsáveis.


Também suas convicções os faziam adeptos da nova ordem: desde que a Guerra Fria aportara no Continente, com a entrada de Cuba na órbita soviética, eles compartilhavam com os militares a certeza de que a imatura democracia brasileira estava na mira do chamado movimento comunista internacional.


A mídia em peso havia apoiado com entusiasmo a derrubada de João Goulart, pela qual havia clamado e conspirado, assim como exultara com o fim das ‘reformas de base’, da influência dos sindicatos no governo, da ação das Ligas Camponesas e das restrições aos capitais estrangeiros.


Os ‘excessos’ do Primeiro de Abril eram questões de somenos; logo passariam. Quantos editorais, por exemplo, foram escritos contra a mais brutal manifestação pública do golpe recém-vitorioso – o desfile pelas ruas do Recife, amarrado a um veículo militar, do sexagenário dirigente comunista Gregório Bezerra? Entre os maiores jornais brasileiros, apenas o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, voltou-se contra o novo regime, tão logo começaram seus atos de violência.


Em pouco tempo, por sua independência e pelo vigor de suas críticas ao autoritarismo, assinadas por alguns dos principais nomes do patriciado intelectual e jornalístico brasileiro – Antonio Callado, Carlos Heitor Cony, Hermano Alves, Marcio Moreira Alves, Otto Maria Carpeaux e Paulo Francis, entre outros – o matutino se tornou uma espécie de porta-voz informal da elite oposicionista. Depois de prolongada agonia financeira, estimulada pelo regime, o Correio da Manhã deixou de circular em junho de 1974.


Regra geral, as empresas jornalísticas tampouco se dispuseram a sair em defesa de seus profissionais acusados de subversão. E, embora a crônica dos primeiros tempos da ditadura registre gestos de honradez e decência de proprietários de órgãos de comunicação e seus executivos, registra também expurgos e vilanias.


À parte as questões de caráter, o fato é que a imprensa brasileira, espelho do tempo, estava ainda longe de considerar a democracia um valor absoluto. Para a mídia conservadora, nos idos de Abril, a suspensão presumivelmente breve dos direitos civis era o preço a pagar pelo restabelecimento da ordem e a supressão da ameaça comunista.


Para não raros jornalistas de esquerda, de seu lado, a adesão à democracia era utilitária: defendiam-na, antes de tudo, como esquerdistas de outras profissões, porque propiciava o avanço dos movimentos de massa. ‘Liberdade sem comida é mentira / não é verdade’, ensinava antes do golpe uma canção da peça Revolução na América do Sul, de Augusto Boal, gravada em disco, junto com a famosa Canção do subdesenvolvido, pelos Centros Populares de Cultura (CPC), ligados ao Partido Comunista Brasileiro.


De certo modo como a resistência dos franceses à ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, a oposição da imprensa brasileira ao regime de 1964 parece ter sido mais idealizada do que entendida nas suas devidas proporções – e contradições.


Durante a maior parte do tempo, as relações com o poder, mesmo daquela parcela da indústria preocupada em resguardar sua independência editorial, por princípios ou para fazer boa figura perante o mercado, caracterizaram-se não pela contestação retilínea à asfixia das liberdades públicas, mas por um labirinto de acertos, negociados e renegociados sem cessar em torno do que poderia ser noticiado e como.


Os assuntos que ouriçavam os militares nem sempre eram políticos em sentido estrito. A revista Realidade, por exemplo, teve apreendida uma edição especial sobre a mulher. Sua pauta costumeira era definitivamente indigesta para a pudicícia oficial: comportamento sexual, drogas, rebelião juvenil, conflito de gerações, fidelidade conjugal, divórcio, aborto etc. Depois do AI-5, a revista foi se descaracterizando até morrer em surdina.


O caso solitário de ruptura plena foi o dos jornais O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde, da família Mesquita, que conspirara com os golpistas, sob censura prévia desde agosto de 1972. No ano seguinte, o Estado passou a preencher os espaços das matérias proibidas com versos de Os Lusíadas. O Jornal da Tarde, com receitas culinárias (muitas delas deliberadamente sem pé nem cabeça, para irritação dos leitores de mente literal, a anos-luz da política). Os censores só se foram a 3 de janeiro de 1975, véspera do centenário do jornal .


Acomodações e conflitos eram igualmente o prato de todo dia no relacionamento entre os comandantes das editoras e os generais das redações, na grande e na pequena imprensa. O tablóide Movimento, por exemplo, foi fundado por jornalistas que deixaram o semanário Opinião, em protesto contra o afastamento do seu editor pelo dono da empresa que publicava o jornal.


Na imprensa convencional, capitulações e confrontos podiam ser suscitados pela decisão de contratar (ou demitir) um jornalista antipático ao regime; pela intenção de afrontar (ou acatar) a Polícia Federal, com seus bilhetinhos e telefonemas; pela idéia de promover (ou tratar discretamente) as facções e personalidades do universo político e militar identificados com a ‘linha branda’, favoráveis ao que se chamou, em diferentes períodos, descompressão, distensão e, enfim, abertura. A razão da discórdia podia ser também a conveniência de publicar (ou engavetar) episódios de corrupção envolvendo figurões de Brasília e seus prepostos nos Estados.


Sobretudo, podia ser espetar (ou poupar) o nervo exposto do regime: a tortura.


Denúncia do autoritarismo


Para a negociação ser ao menos admissível, o órgão ou a empresa jornalística tinha de dar evidências prévias de boa fé, demonstrações cabais de não estar aliada aos inimigos do regime. O que excluía liminarmente a imprensa alternativa sob censura, obrigada ainda por cima a mandar os originais à Polícia Federal em Brasília, para tornar inviável sua operação industrial e matá-la de inanição.


O semanário Opinião foi produzido sob censura prévia desde seu oitavo número, em janeiro de 1973, até deixar de ser publicado, em abril de 1977. Movimento sofreu censura prévia durante 153 semanas, a contar do número de estréia, em julho de 1975. Nesses quase três anos, segundo os editores do jornal, foram proibidas, na íntegra, 3.093 matérias.


No caso da grande imprensa, supunha-se que a moeda de troca junto às autoridades fosse a distribuição equânime de estocadas a amigos e desafetos do autoritarismo. Ao atacar duramente uma figura desagradável ao regime, por exemplo, uma publicação acreditava estar adquirindo as indispensáveis indulgências para divulgar (ou o perdão por ter divulgado) denúncias incomparavelmente mais graves no campo das violações dos direitos humanos.


A esperteza poderia dar certo ou não. De qualquer modo, para os jornalistas envolvidos, o gambito equivalia a um pacto com o diabo, com todas as suas implicações para a alma e a imagem de cada um.


O convívio com a censura exigia dos profissionais em cargos de direção disposições as mais diversas e contraditórias, da temeridade à resignação, além de fartas reserva de humor. A 14 de dezembro de 1968, o Jornal do Brasil, do Rio, sob a chefia de Alberto Dines, driblou os censores instalados na redação desde a véspera, dia do AI-5, publicando no alto da primeira página, espaço habitual da previsão meteorológica, o seguinte texto: ‘Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos. Máx.: 38°, em Brasília. Mín.: 5°, nas Laranjeiras.’


Trinta e oito foi o número do Ato Complementar que suspendeu o Congresso. Laranjeiras é o nome do Palácio, no Rio, onde o marechal Costa e Silva reuniu o gabinete para anunciar a decisão de editar o ato institucional nº 5. A censura prévia no Jornal do Brasil durou menos de um mês. Os donos do matutino assumiram o compromisso de acatar ao pé da letra os telefonemas e bilhetes proibindo fatos e nomes.


As proibições podiam ser coerentes, descabidas, tontas – ou imprevisíveis. Certo dia, um colega de jornal procurou o novo editor-chefe do JB, Carlos Lemos, para pedir que não desse o caso da empregada de sua família, que matara o filho recém-nascido. Lemos conta ter-lhe respondido que, se o caso não tivesse repercussão, o jornal o ignoraria; se tivesse, iria publicar algo, discretamente.


Para seu espanto, pouco depois chegou o aviso de que a notícia estava proibida. Como veio a saber depois, um oficial do Exército, parente da mulher do colega, fora mais eficaz do que este: simplesmente pediu o veto à Polícia Federal.


Duas dimensões da vida nacional estavam definitivamente fora da barganha, por desnecessária: a política econômica (o falado modelo) e a resistência armada (o terrorismo). No primeiro caso, a substância, os meios e os fins buscados, primeiro, pela dupla Octávio Gouveia de Bulhões-Roberto Campos e, depois, por Delfim Netto, mereceram o apoio rasgado dos proprietários da grande imprensa e, se não a simpatia, a neutralidade benévola ou cínica dos principais editores.


No segundo caso, podia a mídia trombar com o governo pelo destaque dado às ações dos movimentos de contestação, ou, a partir de certo ponto, até por sua mera divulgação. Mas a abominação da guerrilha era mandamento sagrado. O repúdio abrangia, como desde antes do golpe, o noticiário relativo ao PCB.


Nos escalões inferiores – e mais jovens – das redações, os agrupamentos que imaginavam derrubar a ditadura pela força provavelmente tinham mais simpatizantes do que o Partidão, execrado como conciliador e reformista. Mas seria mais fácil um militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) passar pela Alfândega do Galeão com uma caixa de granadas do que um repórter contrabandear uma notícia favorável à luta armada para dentro de um jornal.


Os comunistas, de longe, eram os mais organizados jornalistas de oposição. Não que fossem muitos. Porém, escolados, davam a devida importância à ocupação de postos nas redações, de modo a formar redes de proteção recíproca e dar emprego a outros militantes e simpatizantes.


Isso não significa que o seu ativismo fosse necessariamente mais combativo ou temível do que o dos colegas de outros ramos da esquerda. Tanto que suas figuras mais conhecidas no meio mereciam até a confiança de donos de jornal. Outros mantinham os comunas em seus empregos, fingindo não saber aquilo que eles fingiam não ser. Era um arranjo confortável para ambas as partes.


De um lado, porque os membros do clube, como chegou a ser moda se referir ao partido, representavam um antídoto às surpresas que poderiam aprontar numa redação. De outro, porque a competência profissional era ponto de honra para os comunistas, a maioria absoluta dos quais fazia por merecer o salário no fim do mês. De outro ainda, porque sua presença permitia aos empregadores preocupados com essas coisas provar que não discriminavam ninguém por motivos ideológicos.


O arranjo convinha aos jornalistas do Partidão também porque – num ofício em que nove de cada dez praticantes pertencem a alguma patota – eles podiam se outorgar uma espécie de superioridade moral na competição por cargos e salários com colegas de outras panelinhas, formadas a partir de afinidades mais pedestres do que a luta pela justiça social.


No PCB, fora dele, ou contra ele, ser jornalista de oposição significava, na prática, cultivar duas regras essenciais à profissão: informar e fazer pensar. Elas foram se tornando cada vez mais valiosas para a resistência democrática à medida que a censura oficial, somada à censura interna, estreitava o rol de assuntos publicáveis e a maneira de abordá-los; e à medida que a ressaca de 1968, combinada com o chumbo do AI-5 e a crença no milagre econômico, alienava, como era de rigor dizer, ponderáveis parcelas da população letrada da dimensão política das questões que lhes deveriam dizer respeito.


Desse modo, a oposição jornalística não consistia em outra coisa se não em querer transmitir ao público os fatos que contavam, com precisão e objetividade, e as diversas idéias que pudessem iluminá-los. Ao trazer dentro de si a denúncia do autoritarismo, as idéias e fatos divulgados conteriam também a semente da restauração democrática.


Concessão ao medo


Mais fácil falar do que fazer. Não só pelo cerceamento declarado ou oblíquo das notícias, personagens e reflexões indesejáveis, mas também pela prevalência, nas redações, do interesse supremo pelo apuro técnico do trabalho como tal.


Por inclinação profissional, cálculo pessoal, desdém pelos políticos, indiferença pela política, ou resignação ao jogo imposto de cima, um bom número de jornalistas de primeiro time aplicou o valor de seu talento – e do seu poder de contratar, promover e demitir – para produzir jornais, revistas e noticiosos de TV nos quais a informação politicamente significativa saía, quando saía, desvitalizada, carregada de irrelevâncias, ironias e efeitos formais.


O ceticismo cultivado com elegância comprazia-se especialmente em alfinetar o pensamento de esquerda. Jornalistas detestavam a censura, mas desprezavam os estudiosos que alertavam para a crescente concentração da renda nacional.


Anos depois, em 1979, eles fariam a festa com a declaração posta na boca do carnavalesco Joãosinho Trinta, da Acadêmicos do Salgueiro: ‘O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual’.


A miopia política da imprensa – surpreendida como qualquer coronel em seu quartel com o voto de protesto no MDB em 1974 – tinha a ver com o fato de numerosos jornalistas focalizarem quase exclusivamente um só ator – o governo. E essa escolha, por sua vez, resultava do peculiar relacionamento entre o profissional e suas fontes no poder.


No Brasil, antes do golpe de 1964, os governantes corrompiam jornalistas com mordomias, viagens, empregos públicos, financiamentos para casa própria, quando não dinheiro vivo.


No regime militar, os termos da transação foram ficando cada vez mais rarefeitos e sofisticados, a ponto de ela nem ser identificável pelo que era.


Isso porque, com a modernização da mídia, o metro mais rigoroso para avaliar a competência básica de um profissional tornou-se a sua aptidão em trazer da rua informações importantes e exclusivas. Como a rua – a sociedade – deixara de ter vez e voz, o endereço da informação passou a ser o gabinete.


Os mais atilados militares, tecnocratas e políticos de primeiro escalão dispunham de uma moeda de alto valor de troca para seduzir os jornalistas influentes nas redações: a notícia.


O profissional de tendência oposicionista se via, dessa forma, diante de um dilema moral e político: esquematicamente, ou ele se daria bem com os poderosos da hora, ou manteria com eles apenas a relação formal compatível com suas convicções.


No primeiro caso, sairia do gabinete portando informações quentes e inéditas, que pavimentariam seu prestígio profissional, mesmo quando não pudessem ser publicadas, mas apropriadamente vazadas aos patrões, chefes e colegas próximos.


Na segunda hipótese, ele seria tratado como qualquer repórter sem luz própria, virtualmente confinado aos textos burocráticos dos press-releases e às declarações ocas ‘em on‘ – nada, em suma, que fizesse a fama e a fortuna de um jornalista na nova mídia brasileira.


Esse arranjo sabidamente contribuiu para domar durante os anos críticos o potencial oposicionista de um certo número de bons profissionais aparentados com a esquerda e o centro.


Condicionado pelos compromissos, receios e convicções de quem lhes pagava o salário; pela censura externa, interna e própria; pela despolitização das redações e publicações; pela primazia dada à técnica, como um fim em si; pelo convívio forçado com partidários do regime, provocadores e informantes dos serviços de repressão; pela dupla contaminação, política e profissional, da vida particular; pelas idiossincrasias dos chefes, que se sobrepunham até às professadas convicções democráticas deles próprios; pelo grampeamento rotineiro dos telefones; e pela eterna incerteza sobre o que o censor, o patrão e o editor iriam permitir ou proibir, o cotidiano dos jornalistas de oposição lhes dava o sentimento desalentador de travar uma interminável batalha inglória.


Para os mais engajados, ficar sem emprego não era apenas perder o depósito em conta no fim do mês; era tornar-se mais vulnerável diante da repressão: pelo pouco que valesse como escudo – e foi valendo cada vez menos na escalada do terror estatal –, o emprego conferia ao jornalista um arremedo de salvo-conduto. Já o fato de estar na rua sugeria que o jornalista talvez fosse um agitador: o desemprego era um estigma político.


O emprego não salvou Vlado Herzog de ser torturado e morto no DOI-Codi de São Paulo, onde se apresentou para depor no sábado, 25 de outubro de 1975, como tinha sido acertado com os agentes que foram buscá-lo na noite anterior na TV Cultura, seu lugar de trabalho.


Vlado era mais um de uma longa relação de jornalistas e profissionais liberais presos e torturados nas razzie promovidas pela facção hidrófoba do Exército para expor as supostas ligações do PCB com o MDB e os ‘liberais’ do regime.


Os jornalistas presos antes de Vlado passaram por terríveis sessões de tortura. Sua morte poupou do sofrimento físico os que entraram depois. (Mas a tortura de presos políticos ‘comuns’ continuou pelo menos até a morte do operário Manoel Fiel Filho cujo nome viria a ser outro símbolo da resistência poucos meses mais tarde.)


A morte de Vlado, como se sabe, mudou a história do regime. Mas não deixa de ser significativo que, para desmascarar a farsa de seu suicídio, se tivesse construído espontaneamente a imagem de um Vlado apolítico, que não existia nem fazia justiça à sua memória – como se, caso não fosse um cidadão igual aos outros, o regime pudesse ser absolvido de sua morte, indefeso, numa repartição do Exército.


Vlado fazia política – em sentido amplo – e tinha plena consciência do que fazia. Não alimentava ilusões sobre a ‘neutralidade’ do jornalismo; tampouco se sentia tentado a buscar refúgio e consolo na técnica da profissão, que não lhe dava prazer, apesar de seu conhecido perfeccionismo. A ‘isenção’ do jornalista e o apreço à forma pela forma, Vlado os percebia, naquelas circunstâncias específicas, como desserviço ao país e à busca da liberdade. Ou uma concessão ao medo.

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