Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

DOSSIê VLADIMIR HERZOG (1937-1975) > VLADO, A MEMÓRIA NECESSÁRIA

Mártir da redemocratização

Por Celso Lungaretti em 25/10/2005 na edição 272

Há 30 anos morreu sob tortura Vladimir Herzog – como dezenas de outros idealistas que foram vitimados pelos ‘acidentes de trabalho’ nos porões da ditadura. Isto para não falar dos premeditadamente executados e dos que tombaram nos tiroteios com a repressão.


Por que sua morte repercute tanto até hoje e, por exemplo, as de Mário Alves e Joaquim Câmara Ferreira são choradas apenas por parentes e velhos militantes de esquerda? Afinal, ambos também eram jornalistas, tiveram (em vida) uma atuação revolucionária das mais significativas e foram verdadeiramente massacrados pelos verdugos. Mário Alves chegou a ser empalado com um cassetete dentado.


Há vários motivos. Primeiramente, chocou e até hoje choca sabermos que Herzog se dirigiu pelas próprias pernas ao encontro da morte, acreditando que sofreria apenas o interrogatório para o qual foi convocado. Por que ele não desconfiou de que poderia ter o mesmo destino que tantos tiveram antes dele? Por um motivo simples: em 1975 a tortura já arrefecera, depois de dizimada a esquerda armada.


O auge da tortura se deu no período 1969/73, quando os militares reagiram ao enfrentamento aberto da esquerda estruturando a Operação Bandeirantes e os DOI-Codis, que, inicialmente, se incumbiam apenas dos militantes da vanguarda armada. As organizações desarmadas, como o velho Partidão, continuaram por um bom tempo atribuição dos Deops, que ainda mantinham alguns limites. ‘Cair’ na Oban significava não ter garantia nenhuma de sobrevivência, enquanto no Deops só se morria por excessos praticados involuntariamente durante a tortura.


Essa estrutura nasceu clandestina – montada por oficiais das três Forças e policiais civis, com financiamento de empresários fascistas – e foi ‘legalizada’ após alguns meses, passando a funcionar em quartéis da Polícia do Exército. Mesmo assim, desde o primeiro momento, tinha mais poder do que a estrutura legal dos Deops, chegando a arrancar presos políticos de suas mãos sempre que lhe convinha.


‘Envergonhando a farda’


A seus integrantes oferecia ganhos fabulosos e, no caso dos militares, a perspectiva de ascensão meteórica na carreira. A esquerda armada expropriava bancos, executava operações altamente rentáveis, como o roubo do cofre do ex-governador Adhemar de Barros. Então, seus integrantes às vezes retinham altas somas. Na VPR e na VAR-Palmares, por exemplo, cada combatente dispunha de substancial fundo de reserva, que deveria ser mantido intocado até uma circunstância extrema, como a de ficar sem contato e ter de fugir do país por seus próprios meios.


Dinheiro, armas, veículos e até objetos de uso pessoal dos militantes dessas organizações eram, por sua vez, ‘expropriados’ pelos captores, que os dividiam a seu bel-prazer. Além disso, os empresários financiadores da repressão contribuíam para as ‘caixinhas’ de prêmios pela captura ou morte de militantes clandestinos. Cada revolucionário importante tinha o valor previamente fixado, daí o total empenho dos rapinantes em chegar até eles. O ‘bolo’ era dividido segundo a importância de cada um no esquema repressivo, sobrando algum até para os carcereiros…


Com a derrota da luta armada, o presidente Ernesto Geisel pretendia ir desmontando aos poucos esse ‘estado dentro do Estado’. Militar de mentalidade prussiana, não admitia a existência de poder paralelo ‘envergonhando a farda’.


‘Celeiro de subversivos’


Ora, os rapinantes haviam se acostumado a um padrão de vida muito superior ao que lhe permitiam seus soldos e já não conseguiam mais viver sem a rapina – tanto que a notória equipe de torturadores da PE da Vila Militar do Rio envolveu-se com contrabandistas em 1974 e acabou flagrada ao trocar tiros com os outros bandidos.


Então, para atrapalhar a ‘distensão gradual e progressiva’ de Geisel, que incluía a desmontagem do aparelho repressivo de exceção, passaram a efetuar provocações que, esperavam eles, fariam a esquerda reagir. Valia tudo para despertar o ‘fantasma do comunismo’ que lhes era tão vantajoso.


Assim, uma base do PCB que fora formada na ECA/USP e se expandira com o ingresso de seus integrantes na carreira de jornalistas – continuando, entretanto, bem longe de representar um risco real para o regime – acabou sendo escolhida como alvo. Como a ECA era tida pela repressão como ‘celeiro de subversivos’ e certamente tinha agentes infiltrados, é difícil acreditar que essa base não constasse dos relatórios policiais há muito tempo. O fato é que, até o fim de 1975, não interessou estourá-la. Aí, de repente, a repressão se deu conta de que a ditadura começaria a ser derrubada pela ‘insidiosa infiltração’ na TV Cultura, com seus 1% de audiência em São Paulo…


Sempre lembrados


Vlado não levou em conta os bastidores do regime e seguiu confiante para o matadouro, certo de que em seu caso não abririam a caixa de ferramentas. Os torturadores, ao excederem a dose, despertaram a indignação mundial – para o que também concorreu a ascendência judaica da vítima, repetindo em escala ampliada o que já sucedera no fim de 1969, quando da morte em circunstâncias semelhantes de Chael Charles Schreier, militante da VAR-Palmares.


Geisel e seu fiel escudeiro Hugo de Abreu aproveitaram a chance para minar o DOI-Codi sem despertar resistências na caserna. O presidente deu o ultimato de que uma morte como aquela não deveria se repetir. Antes que se completassem três meses, os torturadores erraram a mão de novo, levando à morte o metalúrgico Manoel Fiel Filho, também do PCB. Forneceram a Geisel motivo suficiente para exonerar o então comandante do II Exército, Ednardo D’Ávila Melo, e desmontar o DOI-Codi, robustecendo seu projeto de abertura política.


Por último, devem ser lembrados o cansaço dos cidadãos que viviam sob terror policial desde 1969 e já não agüentavam mais o clima de autoritarismo e intolerância – ainda mais quando, visivelmente, não havia mais uma ameaça verdadeira ao regime; a resistência dos jornalistas, que afinal se avolumou; e a coragem dos líderes religiosos de três confissões, que correram todos os riscos para não permitir que mais esse assassinato fosse acobertado pela ditadura.


Heróis e mártires


Nem assim as tentativas de inviabilizar a redemocratização do Brasil cessaram de todo. Em 1976 houve atentados a bomba contra o semanário Opinião, a ABI, a OAB e a residência de Roberto Marinho, além do seqüestro e espancamento do bispo de Nova Iguaçu e do massacre dos militantes da gráfica do PCdoB. Em 1979/81, a ação dos grupos paramilitares de direita se intensificou, com novos ataques a entidades e cidadãos ilustres (como o jurista Dalmo de Abreu Dallari) e até bizarros incêndios de bancas de jornais em que eram vendidas publicações alternativas. Até que, em 30 de abril de 1981, o feitiço virou contra o feiticeiro: a bomba explodiu no colo do terrorista que pretendia provocar pânico de conseqüências imprevisíveis em show musical no Riocentro. A onda virou e a redemocratização prosseguiu.


Vlado merece todas as homenagens que está postumamente recebendo e outras mais. É triste, entretanto, que não seja prestado tributo semelhante aos combatentes que enfrentaram a ditadura de armas na mão e morreram às centenas (inclusive executados friamente em aparelhos clandestinos da repressão, como a ‘Casa da Morte’ em Petrópolis/RJ). Enquanto a Resistência Francesa é cultuada em seu país, o Brasil continua dividido em relação ao papel dos que enfrentaram pela via armada os militares que derrubaram um presidente legítimo, fecharam o Congresso, cassaram mandatos, rasgaram a Constituição, proscreveram partidos e organizações, praticaram a censura, torturaram e mataram.


Os que ousaram opor-se ao poder de fogo infinitamente superior desses usurpadores despóticos são – e deveriam ser sempre lembrados – como heróis e mártires. Não basta o reconhecimento oficial, corporificado nas anistias federal e estaduais. Há muito ainda o que fazer em termos de História e na batalha pela opinião pública, como se pôde constatar na recente comemoração dos 25 anos da Lei da Anistia, quando o que mais se leu foram depoimentos rancorosos de antigos praticantes ou cúmplices da tortura.

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Jornalista, ex-preso político anistiado pelo Ministério da Justiça e escritor de Náufrago da utopia (lançamento de novembro da Geração Editorial)

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