Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

DOSSIê VLADIMIR HERZOG (1937-1975) > VLADO, A MEMÓRIA NECESSÁRIA

Trinta anos para não esquecer

Por Luiz Egypto em 25/10/2005 na edição 352

Nesta página e nas seguintes está contada uma história – trinta anos passados – que pode bem ajudar na compreensão do movimento havido em direção a este presente pós-mensalão. São memórias montadas a partir da transcrição de depoimentos de jornalistas que viveram, cada qual à sua maneira, todas elas dramáticas, os dias de medo e da morte de Vladimir Herzog. Malgrado o sofrimento que porejam, os relatos aqui publicados apontam sobretudo para os momentos que se seguiram ao assassinato do jornalista no DOI-Codi de São Paulo, na rua Tutóia, no sábado, dia 25 de outubro de 1975 – uma data para não ser esquecida.


De algum modo, e de todos os modos, depois dessa morte o jogo começou a virar. A ditadura militar e seus batalhões de civis traidores recolheram a guarda somente nove anos depois, mas é aceitável afirmar que ali, nas reações ao assassinato e no culto ecumênico pelo sétimo dia da morte de Vlado, na Catedral da Sé, em São Paulo, o regime em definitivo escancarou suas fissuras e começou a ruir. Mesmo sob repressão, o passo histórico seguinte, dois anos depois, foi a unidade forte e plural que se formou em torno da consigna ‘Pelas liberdades democráticas’, a qual desembocou no Movimento Contra a Carestia, em seguida na luta pela Anistia, nas manifestações pelas Diretas-Já, na eleição de um ex-operário para a presidência da República… Vlado é exemplo vivo de como o passado pode apontar o futuro, próximo e distante.


Nos dias de sua prisão a violência não se dava de forma tão visível no varejo das ruas, nas agressões no campo ou nos confrontos urbanos diários — todos, hoje, fatos banalizados pela reiteração da notícia, da notícia, da notícia. A violência era então algo institucionalizado e assumido como política de Estado, por mais que essa diretriz causasse alguma ojeriza nos setores ‘modernos’ do ‘sistema’.


Em outubro de 1975, a linha dura militar vivia assanhadíssima com a perspectiva real de endurecimento de um regime já vitaminado pelo estatuto do AI-5, de dezembro de 1968. A chamada opinião pública poderia em alguma medida ser desconsiderada, dado que o aparelho de censura funcionava às mil maravilhas. Ainda assim, o que se lia e sabia, mesmo nas entrelinhas, era tudo o que a imprensa publicava – a ‘burguesa’, a alternativa (‘alterativa’) e o que sobrara da clandestina – uma imprensa, diga-se sem saudosismo, cujos veículos eram muito mais animados, resolutos, com freqüência surpreendentes, e que podiam gabar-se de deter sólida confiança pública. O jornalismo era melhor; como agora, pode ser melhor ainda.


Os depoimentos aqui editados foram colhidos pelo projeto ‘Herzog Hoje’, uma parceria deste Observatório com o Museu da Pessoa, um museu virtual de histórias de vida que há mais de dez anos dedica-se a juntar histórias e a construir nexos entre elas. Foram ouvidos os jornalistas Alberto Dines, Audálio Dantas, José Vidal Pola Galé, Luiz Weis e Rodolfo Konder. As histórias possíveis sobre o assassinato de Vladimir Herzog não se resumem às deles. Outras pessoas que vivenciaram o episódio podem enviar seus relatos a partir deste link.


Os depoentes foram entrevistados por José Santos, Mauro Malin, Immaculada Lopez e Carol Misorelli; o signatário participou de uma das entrevistas e é o responsável pela edição que se segue.


***


[do portal Museu da Pessoa.Net]


Vladimir Herzog nasceu em Osijsk, na Iugoslávia, filho de Zora e Zigmund Herzog, em 27 de junho de 1937. Quando criança, seus pais imigraram para o Brasil para fugir do nazi-fascismo.


Vlado formou-se em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), em 1959, onde lecionou Jornalismo alguns anos mais tarde na Escola de Comunicações e Artes. Apaixonado por cultura, era também teatrólogo. Seu primeiro emprego como jornalista foi no jornal O Estado de S.Paulo, no qual participou da cobertura da inauguração de Brasília e acompanhou a constituição da sucursal do Estadão na capital federal. Foi redator-secretário de um telejornal na TV Excelsior, trabalhou três anos na BBC de Londres e foi editor de Cultura da revista Visão. Seu último posto foi o de diretor-responsável do Departamento de Jornalismo na TV Cultura, de São Paulo.


Foi nessa função que, em 24 de outubro de 1975, Vlado foi intimado pelo DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna). Ele conseguiu permissão para comparecer ao interrogatório no dia seguinte, pela manhã. Foi preso no dia 25 de outubro de 1975 acusado de ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Morreu no mesmo dia, depois de intensa tortura.


A versão divulgada pelo militares em nota oficial afirmava que o jornalista se suicidara: ‘Encontrado morto, enforcado, tendo para tanto utilizado uma tira de pano’. Mas George Duque Estrada e Rodolfo Konder, jornalistas presos na mesma época no DOI-Codi, afirmam ter ouvido ruídos que indicavam a tortura e conseqüente assassinato de Herzog. Além disso, a versão de suicídio não foi confirmada pelos religiosos da comunidade judaica que examinaram o corpo, o que fez com que seu enterro fosse realizado em área do cemitério destinada a não-suicidas.


Posteriormente Clarice Herzog, viúva do jornalista, moveu um processo contra a União pelo assassinato de Vlado. Em outubro de 1978, a Justiça Federal responsabilizou e condenou a União a indenizar a família.


Em 2004, o episódio de sua morte voltou à tona devido à descoberta de fotos que seriam do jornalista [ver remissões abaixo], quando estava sob custódia do Exército, em 1975. Mas logo se descobriu que a foto era de um padre canadense. O equívoco, no entanto, voltou a impulsionar a campanha pela abertura dos arquivos da ditadura.







Retrato de Vladimir Herzog; setembro de 1975 (acervo do Sindicato dos Jornalistas
Profissionais no Estado de São Paulo)


A escola, o jornal
LUIZ WEIS


Eu tive um professor de Filosofia – ah, sim, você tinha Filosofia no terceiro ano do colegial, no terceiro ano do clássico, imagino que também no terceiro ano do científico – e ele chamava Mário – chamava porque morreu, morreu jovem –, Mário Leônidas Casanova, era professor de filosofia formado pela USP; a paixão dele era samba e escrevia sobre isso; ele trabalhava no Estado de S. Paulo. Este cidadão foi responsável por duas coisas em minha vida e na vida do Vlado. Fomos os dois fazer Filosofia – havia uma diferença de um ano, ele estava um ano na minha frente –, e graças ao Mário Leônidas Casanova eu pisei pela primeira vez na redação do Estado de S.Paulo. Ele tinha indicado: ‘Vocês vão lá, me procurem que eu apresento vocês ao chefe de reportagem’ – que era o Perseu Abramo. A segunda coisa ficou para o resto da vida: a Filosofia dançou logo, eu larguei, não era minha praia, definitivamente não era, logo de cara tive aquele choque cultural, eu não sei como é hoje, mas era brutal o choque entre o colégio e a faculdade. Eu nunca tinha ouvido falar em trabalho de aproveitamento na minha vida, aí chega o [José Arthur] Gianotti, no primeiro dia, e diz: ‘Bom, trabalho de aproveitamento!’. Ele ensinava Lógica, era um terror; ele achava que a gente ia passar 24 horas estudando Lógica. Eu desisti, abandonei o curso de Filosofia e voltei, aconselhado por uma moça pela qual muitos tiveram grandes paixões, Vera Brisola. Ela insistia muito comigo: ‘Sai dessa coisa de Filosofia, vem para Ciências Sociais’. E o Perseu Abramo: ‘Olha, Ciências Sociais é uma boa, faça isso, faz, não fica só em jornal’.


Eu não via a hora de entrar no jornal e não queria sair do jornal. Eu esperava, descia na gráfica às 3 da manhã para ver, para tirar o jornal da boca da gráfica, da boca da oficina. Era uma absorção, o que sobrava era muito pouco. Sobrava sexo, sobrava cinema, teatro, mas era o jornal… comia jornal, bebia jornal, dormia jornal. O Perseu Abramo foi uma figura talvez a mais fabulosa. Eu adorava o Perseu, todos gostavam do Perseu, quem não gostava do Perseu? Eu adorava a ironia dele, o sarcasmo do Perseu. Tinha sempre uma verve, parece que isso está na família Abramo. E ele era extremamente acessível, ao contrário do Cláudio, que não era – o Cláudio era um semideus que estava lá na redação, e tinha todo aquele teatro. O Perseu não tinha teatro nenhum, o Perseu falava baixo, escrevia admiravelmente bem. O que eu aprendi no jornal, 70% foi com o Perseu.


A redação era na [rua] Major Quedinho [no centro de São Paulo], quinto andar. A primeira vez chegamos lá em outubro de 1958. O Mário Leônidas Casanova nos apresentou ao Perseu: éramos eu, o Vlado e o José Chasin, que também era colega nosso do colégio. ‘Olha, vocês vão fazer um estágio de 15 dias [como] repórteres’ – noticiarista, se chamava – ‘e aí vamos ver’. Fizemos os 15 dias e ele disse: ‘Tudo bem, aguardem notícias’.




A militância política
RODOLFO KONDER


Eu fiquei [durante os anos de] 1969 e 1970 na [revista] Realidade e, em 1971, eu fui para a [revista] Visão. Cheguei na Visão e conheci o Miguel Urbano [Rodrigues], que me levou para me apresentar ao [Antonio] Pimenta [Neves]. Miguel Urbano é português, do PCP [Partido Comunista Português], extremamente sectário, stalinista convicto. Depois foi embora para Portugal e dirigia, em Lisboa, o jornal do Partido Comunista Português. E aí eu fiquei conhecendo o pessoal da redação, o Vladimir Herzog, o Marco Antonio Rocha e o Luiz Weis já estavam lá. E o Vlado logo se aproximou de mim, porque, primeiro, tínhamos uma leitura muito parecida de certas coisas. Nosso apreço pelos italianos, Antonio Gramsci, socialismo de face humana, essas coisas. Ele pensava de maneira muito parecida com a minha. E ele me via discutir com os outros, porque era uma redação pequena, e todo mundo de esquerda ali, então não tinha muito sigilo, nada. Ele se identificava muito comigo, quando me via discutir com Miguel Urbano. Até que um dia ele tomou a iniciativa de me dizer que queria entrar para o partido. E eu carreguei esse peso na consciência. A iniciativa foi dele. Eu não o convoquei, não o mobilizei, não o recrutei, como a gente dizia: ele quis entrar. Isso deve ter sido entre 1971 e 72. Fazíamos algumas reuniões, mas o PCB era contra a violência, era contra a luta armada, tínhamos posições extremamente moderadas, cautelosas, até no exercício da profissão. Eu não diria que éramos um clube de intelectuais, mas éramos parecidos. Nos reuníamos para discutir como enfrentar a censura, como contornar os obstáculos, mas não significávamos nenhuma ameaça ao governo. Até depois, quando a democracia voltou e tivemos eleições, o número de votos do PCB foi pequeno. Quer dizer, não é que a multidão estivesse apenas aguardando o momento para tomar o palácio do governo. Não. Ali nós temos, primeiro, no plano mundial, a Guerra Fria, a partir dos anos 1950. Depois, 1959, a revolução cubana. A partir dos anos 1960, em resposta aos desafios da revolução cubana, multiplicam-se as ditaduras de direita na América Latina. A ditadura de direita no Brasil é claramente uma resposta estratégica, dentro do quadro da Guerra Fria, aos desafios trazidos pela proximidade do socialismo com a revolução cubana de 1959.


E aqui no Brasil a ditadura se implanta, é claramente uma ditadura anticomunista, até porque faz parte dessa lógica da Guerra Fria. Mas, depois, no exercício do poder, começam a surgir divergências entre os militares. E aí surgem duas grandes correntes: uma do pessoal do aparelho de repressão, que tinha poderes especiais, que não precisava prestar contas, podia entrar na sua casa de manhã, como entraram na minha, às 6h da manhã, sem ordem judicial nem nada, e levar você para o DOI-Codi. E a outra que era o pessoal que chegou à conclusão – era o [Ernesto] Geisel e o Golbery [do Couto e Silva] – de que estava na hora de devolver o poder aos civis, até porque a economia já dava sinais de cansaço. Então, começou a promover um projeto que chamava ‘abertura lenta, gradual e segura’. Só que surgiram atritos claros entre eles. Isso para mim é a raiz de tudo. E por quê? Porque o pessoal da repressão tinha cometido muitos crimes e não queria a abertura, porque sabiam que se viesse a abertura eles teriam que responder pelos crimes. Eles já tinham acabado com as organizações mais radicais da esquerda, mas restava o Partido Comunista, até porque era a mais moderada, a mais tranqüila, mas estava ali. E eles para mostrar ao público que a subversão estava viva, eles vieram em cima do PCB. Essa é a razão clara para mim. Na época, recorri a um velho provérbio indiano que diz que quando dois elefantes brigam, quem sofre é a grama. Nós éramos a grama. E havia uma briga entre o grupo da ultradireita da repressão e o grupo mais moderado, do Geisel e do Golbery, que felizmente ganhou a batalha, mas ganhou a batalha porque eram enxadristas, eles foram movendo as peças ali.


Quando morreu o Vlado, foi um impacto muito grande que deu força ao projeto de abertura do Geisel. Eles inclusive substituíram não o Ednardo D’Ávila, aquele bandidão que chefiava o 2º Exército, eles substituíram o comando militar em Campinas, já preparando as peças para ocupar o comando do 2º Exército. A tortura contra o pessoal de classe média parou depois que o Vlado morreu, mas eles continuavam torturando os operários, tanto assim que a morte seguinte é do [metalúrgico] Manuel Fiel Filho. E quando morre o Manuel Fiel Filho, sob tortura, o Geisel aí substitui o Ednardo.


Eu tinha feito um depoimento, saindo da prisão, no escritório do [advogado] José Carlos Dias, sobre o que aconteceu com o Vlado lá dentro, falando das torturas, que é uma coisa que nunca tinha se falado publicamente. Fiz esse depoimento no escritório do José Carlos Dias na presença do [advogado] Hélio Bicudo, do [advogado] Goffredo [da Silva Telles] e de outras figuras. Quando o Geisel substitui o Ednardo, a Clarice Herzog e o Fernando Pacheco Jordão foram à minha casa e pediram que eu divulgasse o depoimento. Eu sabia que eu estava frito, mas disse: ‘Está bem, vamos divulgar’. Aí o depoimento saiu nos jornais, teve uma repercussão grande e eu comecei imediatamente a receber ameaças do braço armado da repressão, uma organização que se autodenominava ‘o braço armado da repressão’. Mas aí eu já estava vacinado, já não dormia em casa. Eu não fui apanhado em casa, como da primeira vez.




LUIZ WEIS


[Minha militância começou por intermédio] da Vera Brisola, na UJC (União da Juventude Comunista). Nisso eu devia ter uns 16 anos, por aí. Vlado era anticomunista. E o Vlado teve uma metamorfose [com a] visita do [filósofo Jean Paul] Sartre ao Brasil, vindo de Cuba. O Vlado estava encantado, foi cobrir a passagem de Sartre pelo Brasil, não desgrudou do Sartre. O Sartre, que era um intelectual engajado, fez um transplante cerebral no Vlado, entende? Antes disso o Vlado era muito irônico demais, muito perfeccionista demais – não vou dizer cínico, mas muito indiferente demais a este Brasil. Achava o nacionalismo uma coisa horrorosa, e por força do pai dele e da mãe, achava o comunismo uma coisa hedionda – eles eram iugoslavos, enfim. E o Vlado gostava mesmo era de teatro, ópera, cinema, tudo isso é sabido. Era uma pessoa refinada. Ele dizia: ‘Essa coisa de nacionalismo é uma imbecilidade. O país é atrasado porque o Brasil atura corrupto, os políticos não prestam’. Ele não estava nem aí com política. A política de varejo, do dia-a-dia, lhe dava um profundo enfado. Ele gostava de filosofia, gostava de estética, gostava de literatura, era um jovem com uma bagagem deste tamanho. E depois do raio que caiu na cabeça dele por causa do Sartre, essa bagagem mudou de sentido e o olhar dele mudou de sentido profundamente. Mas o Vlado não tinha nada que ver com comunismo.




JOSÉ VIDAL POLA GALÉ


A gente passou a ter um envolvimento maior com o Sindicato dos Jornalistas, que teve um papel importante não só nesse episódio especificamente. Foi fundamental o trabalho do Audálio Dantas. O sindicato tinha um papel junto com a ABI e a OAB, um papel de denunciar o arbítrio, a censura, tinha uma coisa institucional forte. Era menos corporativo e mais voltado para as lutas da sociedade, a liberdade de imprensa principalmente, mas também pela redemocratização do país. Tinha o MDB – naquela época não era PMDB, era MDB –, eram dois partidos, Arena e MDB, e MDB aglutinava as forças de oposição. Era uma oposição consentida, mas era uma oposição que serviu para a sociedade se organizar, para a representação política também se organizar.


Numa redação você conversa muito, nossa matéria-prima é a conversa, é a informação. Nas eleições havia um processo rico de discussão. Nós tivemos eleição em 1976, para vereadores. A gente também participava da eleição, lutava, tinha campanha pelo voto nulo, [pessoas defendendo] que a eleição era uma farsa. Mas a gente achava que a participação força a abertura, abre as portas para a discussão, porque você de alguma maneira interfere no processo. A gente sempre teve muito claro que negar o que estava acontecendo e se afastar era dar espaço para outras forças ocuparem, o atraso, quem não estava a fim de que a coisa evoluísse. Então, sempre participando desse processo com a visão de que as portas têm que ser abertas.

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