Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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Afogado em lixo digital? Você não está sozinho

Por Melinda Beck em 10/04/2012 na edição 689
Reproduzido do Valor Econômico, 3/4/2012; intertítulos do OI

Mark Carter admite que, no mundo digital, ele é um hoarder.

A palavra não tem tradução direta em português, mas seu sentido não tem fronteiras: alguém que não consegue se desfazer de nada, nem das coisas mais inúteis. Esse americano de 42 anos estima que tenha 24.000 arquivos MP3, 4.000 livros digitais, 2.000 CDs, 3.000 fotos de família em DVDs e pelo menos 1.300 emails gravados, inclusive alguns de 20 anos atrás. “São ótimos para ajudar a memória”, diz o gerente de inventário de um supermercado Wal-Mart no Estado de Illinois. “Eu guardo essas coisas principalmente porque tenho medo que elas possam desaparecer da internet ou que eu possa precisar delas quando não estou conectado”, diz ele.

Hoarder é aquela pessoa que acumula compulsivamente coisas úteis ou não. A definição geralmente se aplica a objetos como roupas e bugigangas, mas pode ser usada para arquivos digitais, que são menos visíveis que itens físicos. “A tralha digital não atrai ratos nem atrapalha as pessoas que andam pela casa”, diz Kit Anderson, ex-presidente do Instituto para o Desafio da Desorganização, uma organização sem fins lucrativos do Estado do Missouri que estuda a inclinação a acumular coisas. “Mas é mais insidiosa porque ninguém vai insistir para que você procure ajuda.”

A proliferação de dispositivos, a explosão de informação e a abundância de meios de armazenagem baratos vêm tornando tentador demais para algumas pessoas acumular mais emails, mensagens de texto, vídeos caseiros e séries inteiras de televisão do que elas jamais poderão usar ou manter organizados. “Acúmulo digital é um problema enorme. Há tantos meios de armazenagem disponíveis, nós não temos mais que tomar decisões”, diz David D. Nowell, um neuropsicólogo do Estado de Massachusetts especializado em distúrbios de atenção. “O problema não é que isso torna o seu computador lento – isso torna o seu cérebro lento”, alerta ele, já que cada uma dessas fotos, links e pastas de arquivos demandam alguma energia mental.

Perfeccionistas obstinados

É claro que muitas pessoas conseguem manter quantidades imensas de emails, arquivos e meios digitais organizados e acessíveis, ao mesmo tempo que eliminam das suas vidas as tralhas físicas. Kathy Riemer, consultora de comunicação de Chicago, diz que a sua “retenção digital” – que inclui 2.400 documentos de texto e 39.575 emails de negócios, divididos em 69 grupos de arquivo – aumenta a sua produtividade e deixa a sua mente tranquila. “Guardar tudo isso me permite dar um contexto histórico a projetos de longo prazo”, diz ela.

Não há um número definido de emails numa caixa de entrada ou de fotos guardadas que caracterizam uma pessoa como hoarder. A acumulação torna-se compulsiva, dizem os especialistas, quando é desorganizada e disfuncional e atrapalha outros relacionamentos e responsabilidades.

Christina Villarreal, uma terapeuta de comportamento e cognição da Califórnia, diz que tem clientes na indústria de tecnologia – a maioria homens jovens – que gastam tanto dinheiro e tempo acumulando coleções de músicas, jogos ou eletrônicos, que acabam se retraindo do mundo real. “Eles não podem pagar o aluguel ou comprar comida porque precisam do mais novo aparelho para alimentar seu hábito”, diz Villarreal. Ela observa que acumular coisas geralmente começa como um modo de preencher os vazios da vida, mas deixa as pessoas ainda mais isoladas. Ela ajuda seus clientes a reaprender regras sociais básicas e encontrar outras atividades prazerosas.

O acúmulo digital pode se originar dos mesmos problemas psicológicos que o acúmulo de outras coisas, dizem os especialistas. “Tem a ver com medo e indecisão”, diz Katherine Trezise, atual presidente do Instituto para o Desafio da Desorganização. “Eu vejo pessoas que têm centenas de ícones na sua tela porque elas têm medo de não conseguir encontrá-los de novo.”

A compulsão a acumular coisas é oficialmente considerada uma forma de transtorno obsessivo-compulsivo, mas alguns hoarders também sofrem de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Alguns hoarders digitais são perfeccionistas obstinados que não sabem quando parar de pesquisar e coletar. De fato, todas essas coisas acumuladas e armazenadas podem voltar-se contra a pessoa e criar mais ansiedade, se ficar difícil encontrá-las. “Muitos dos nossos clientes têm uma grande dificuldade com categorização”, diz Anderson.

A maneira de pensar do hoarder

Desorganização digital pode também criar atritos entre colegas de trabalho e membros da família que compartilham aparelhos, espaço de armazenagem ou arquivos. Felecia Hatcher gerencia uma empresa de sorvetes artesanais em Miami e divide um computador com seu marido, Derick Pearson. Ela odeia deletar as coisas, então tem 31.000 fotos, 26.000 emails não lidos e até aumentou ao máximo o espaço livre da sua conta Gmail, ao passo que seu marido é “super, superorganizado”, diz Hatcher. “Ele fica louco quando usa meu computador, e eu fico louca quando o uso depois e ele organizou tudo.”

Firmas de tecnologia oferecem uma gama de soluções para esses problemas, incluindo ferramentas para armazenar, arquivar, marcar e encontrar as coisas no mais desorganizado dos computadores. E há uma tendência crescente de guardar material digital na nuvem em vez de em discos rígidos. Os sites de músicas, filmes e programas de TV, como Rdio, Netflix e Hulu, eliminaram a necessidade de armazenar arquivos pesados, assim como o Flickr e o Picasa fizeram com as fotos digitais.

Mas, por mais úteis que sejam esses programas, organizadores profissionais alertam que simplesmente acrescentar mais armazenagem elimina todo o incentivo para deletar e priorizar. Às vezes, o que mais precisa de organização é a maneira de pensar do hoarder. “É importante não somente se preocupar com as coisas, mas também se preocupar com o por que desse comportamento estar ocorrendo”, diz Marla Deibler, psicóloga de New Jersey que trata de hoarders.

***

[Melinda Beck, do Wall Street Journal]

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