Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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O Facebook não nos torna solitários

Por Eric Klinenberg em 24/04/2012 na edição 691
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 21/4/2012; intertítulos do OI

Os americanos devoram livros segundo os quais nós nunca nos sentimos mais sozinhos ou mais dissociados dos nossos semelhantes do que agora. The Lonely Crowd, The Fall of Public Man e The Pursuit of Loneliness (em português, A Multidão Solitária, A Queda do Homem Público e A Busca da Solidão) são algumas das obras mais vendidas na área de sociologia em toda a história. Nos últimos anos, Bowling Alone e Alone Together (Sozinho no Boliche e Sozinhos Juntos) receberam uma considerável atenção e geraram amplos debates.

Frequentemente, esses livros lamentam a perda dos anos dourados em que os americanos casavam melhor, tinham comunidades melhores, ruas mais seguras e eram muito mais felizes. Eles nos advertem de que estamos nos tornando perigosamente ilhados e que, se os lermos, voltaremos para os nossos amigos, famílias e colegas para discutir o motivo pelo qual não passamos mais tempo juntos.

Na matéria de capa da revista Atlantic deste mês, “Is Facebook making us lonely?” (O Facebook está nos tornando solitários?), o romancista Stephen Marche faz uma afirmação inusitadamente radical sobre a nossa desunião: “Padecemos de uma alienação sem precedentes”, escreve. “Nunca estivemos mais afastados uns dos outros ou mais sozinhos, do que agora. Em um mundo consumido por formas cada vez mais modernas de socialização, a nossa é cada vez menos uma sociedade de verdade. Vivemos numa contradição acelerada: Quanto mais nos conectamos, mais solitários estamos.”

Solidão vem crescendo

Artigos que falam da alienação americana talvez pareçam fidedignos para aqueles que anseiam por tempos mais simples, mais felizes, mas eles se baseiam sobre fábulas e fantasias. Na realidade, não há qualquer evidência de que estejamos mais distantes ou solitários do que nunca. Mas como o artigo da Atlantic já está se tornando uma leitura cada vez mais popular e relevante, enquanto colunistas e articulistas o citam como prova de que a internet na realidade contribui para nos dividir, será interessante mostrar como ele constrói o mito de que estamos mais solitários do que nunca.

O artigo começa com a história de Yvette Vickers, uma ex-coelhinha do Playboy, uma senhora de meia idade e atriz de filmes classe B, que morreu sozinha em Los Angeles e quando seu corpo foi encontrado já estava “mumificado”. Sua morte, diz Marche, é o símbolo da nossa era atomizada. É uma boa história, contada numa linguagem poética, e é tão forte que consegue distrair nossa atenção de uma falha fundamental do ensaio: ele não apresenta nada que sustente sua tese “nunca estivemos mais sozinhos”.

Só há uma frase que chega mais perto disso: um estudo da AARP divulgado em 2010 constatou que a solidão crônica aumentou drasticamente entre as pessoas acima dos 45 anos (mas não entre as multidões que muito provavelmente usam o Facebook), e limita-se a acenar que “vários estudos mostraram que a solidão vem crescendo dramaticamente num breve período da história recente”. Desculpem, mas isto não basta para corroborar as notáveis afirmações de Marche.

25% das pessoas não tinham com quem conversar

Ele também se refere com insistência à obra de John Cacioppo, um psicólogo da Universidade de Chicago que ele define “o maior especialista mundial em solidão” (concordo). E cita o livro Loneliness (Solidão), no qual Cacioppo escreve que “Relacionar-se com animais de estimação ou amigos online ou mesmo com Deus é uma nobre tentativa de uma criatura obrigatoriamente gregária de satisfazer uma necessidade premente”, e que “substitutos nunca conseguiram compensar de todo a ausência da coisa real”. Mas, para a maioria das pessoas, os amigos do Facebook são suplementos, não substitutos, das nossas vidas sociais. Nem Cacioppo nem outros pesquisadores acreditam que as pessoas esperem que os contatos online “substituam completamente a coisa real”.

Especialista. Procurei Cacioppo que me disse que não acredita na tese de que “nunca fomos mais solitários” de Marche. “Eu não diria nunca”, o psicólogo me respondeu. Na realidade, Cacioppo prosseguiu, “a evidência de que isso esteja aumentando nos últimos tempos é um tanto confusa”. Marche faz um certo esforço para nos convencer de que os americanos nunca estiveram mais isolados socialmente.

Ele afirma que “encontramos menos pessoas. Nos reunimos menos, e quando nos reunimos, nossos vínculos são menos significativos e menos fáceis”. Mas os dados que ele apresenta para respaldar esta afirmação foram extraídos de um estudo chocante que afirma, nas palavras de Marche: “Em 1985, apenas 10% dos americanos diziam que não tinham ninguém com quem discutir assuntos importantes, e 15% diziam que tinham apenas um bom amigo com quem poderiam fazê-lo. Em 2004, 25% das pessoas não tinham ninguém com quem conversar, e 20% tinham apenas um amigo e confidente.”

“O Facebook é apenas um instrumento”

Digo chocante porque, como eu disse em Going Solo (Vivendo sozinho), meu livro sobre o aumento da tendência das pessoas a morarem sozinhas (citado por Marche), as conclusões do estudo – e os dados da pesquisa sobre os quais elas se baseiam – são tão incongruentes com todas as outras pesquisas realizadas nesse campo que os principais sociólogos que se analisam aos vínculos sociais não confiam neles.

O fato de os americanos não estarem mais solitários nem mais distantes uns dos outros do que nunca torna dificulta para Marche a tarefa de provar que o Facebook é responsável por nos transformar numa nação de narcisistas solitários. Mas essa tese não resistiria, mesmo que as taxas de solidão e isolamento tivessem alcançado níveis sem precedentes.

Como Cacioppo e os outros especialistas entrevistados por Marches afirmaram, as pessoas que se sentem solitárias em sua vida offline provavelmente levam essa solidão para o Facebook, enquanto os que se sentem mais relacionados não fazem isto. “O Facebook é apenas um instrumento”, diz Cacioppo. “O uso que fazemos destas tecnologias poderá nos levar a uma maior integração, e não a um maior isolamento.”

***

[Eric Klinenberg é professor da Universidade de Nova York]

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