Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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A palavra e o papel

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 05/06/2012 na edição 697

Quando se passa algum tempo a ler ou a escrever notícias online é que se aprende a dar valor ao velho jornal: folha grande (broadsheet), com grandes matérias e temas bem desenvolvidos, com profundidade e tempo para as reflexões do autor. E mais: o toque, o tato, as posições de leitura… Diversos sentidos estão envolvidos quando lemos um jornal impresso. A experiência sensorial é prazerosa. Há uma inexplicável paz que vem do ato da leitura dos periódicos impressos. Como se eles pudessem organizar o mundo em seus cadernos e seções e impor algum sentido ao caos da vida humana.

Quando eu era menino, meu pai tentou ensinar-me a ler os grandes jornais do Rio em automóveis e veículos de transporte coletivos. Era um processo complicado, de dobras sobre dobras, que visava não incomodar a quem estivesse ao nosso lado. Não quis desapontá-lo. Fingi que aprendia seu método, mas não mudei meu comportamento de leitura de jornais. Continuei a me divertir com eles na hora da leitura: espalhava-os pelo chão ou pela mesa, num caos de palavras e notícias que eu sabia exatamente como organizar.

Estávamos no Rio de Janeiro, no início dos anos de 1950. A cidade era a capital do país. A paisagem midiática era impressionantemente diferente dos dias de hoje. Havia uma diversidade imensa de jornais e revistas, o rádio ainda tinha força e a televisão ensaiava seus primeiros passos. Os periódicos eram extremamente politizados.

O prometido futuro frio e distante dos jornais online me assusta. É um fenômeno curioso e paradoxal: deveríamos estar ali, na web, a anular as distâncias, a aquecer mais um mundo cada vez mais distanciado de tudo aquilo que faz a vida valer a pena. Mas as telas de duro material transparente são insípidas, inodoras e estranhamente formais. Os teóricos da percepção poderiam explicar melhor do que eu por que não é tão prazeroso ler em computadores, iPads, tablets e outros artefatos similares (não vou comentar sobre smartphones). Talvez seja um problema da minha geração, criada com os jornais impressos em papel. Talvez não.

Instrumentos de combate

Creio que não é só um problema de gerações mais ou menos adaptadas à tecnologia. O ato de ler tem que considerar algum tipo de envolvimento mais íntimo com a mídia em que as palavras estão escritas. E a escrita digital não permite intimidades. Há muita interatividade, mas as mídias digitais são como pudicas moças de outras eras: não permitem brincadeiras e liberdades com elas. O conteúdo de mídia digital parece, pelo menos a mim, distanciado e impessoal. As palavras estão apartadas de nós por material inorgânico transparente. Não podemos tocá-las, rasgá-las ou estabelecer qualquer tipo de relação emocional espontânea com esta mídia. Não são como as que estão ali, impressas diretamente no papel, disponíveis aos nossos arroubos emocionais.

Podemos destruir um periódico impresso pelas mais diversas razões: desagravo, ofensa, contrariedade, desafeto, desentendimentos políticos. Podemos largá-los pela casa, recortar pedaços deles, rabiscar ou escrever nesses velhos companheiros. Eles são tolerantes e flexíveis. Livros também aguentam castigos da vida diária com estoicismo ancestral. Mas quem seria louco o suficiente para atirar um laptop ou um tablet pela janela só porque não gostou da notícia ou da história?

Tudo o que estou a dizer aqui (rasgar jornais, maltratar livros), tudo isso pode parecer loucura sem sentido, mas a relação social casual e histórica que temos com os impressos revelam seu real poder e importância estratégica: a palavra escrita em papel possui uma qualidade perene que sua homóloga digital não tem. Os sonetos de Shakespeare, publicados no século 17, ainda podem ser lidos hoje. Objetos de papel geralmente são muito frágeis. Mas quando acrescentamos a eles palavras escritas, ordenadas e dispostas em forma de livros ou impressos, tornam-se poderosos instrumentos de combate, conselho, amparo humanitário, emoção e mudança social.

Escrita fria e anódina

Mas o que mais incomoda nas notícias online é o formato em que são apresentadas em computadores: jornal na web não é “folha grande”, berliner nem tabloide. Elas vêm em sentido horizontal (16 x 9), ou vertical (4 x 3). Só isso. Tudo devidamente cercado por uma moldura atrativa cheia de botões, anúncios em movimento e outras atrações que interferem na concentração que a leitura exige. Não existe a relação figurafundo tradicional: fundo branco com letras negras em destaque. O fundo digital chama muita atenção e impõe sua interferência perturbadora. No caso da leitura digital, a moldura atua como um tipo de ruído, um distúrbio que altera o conteúdo da mesma maneira que a forma impõe sua rigidez à mensagem.

Não sei explicar objetivamente meu mal-estar com a leitura digital. Nostalgia antecipada injustificada? Problema neurológico? Medo da mudança ou acomodação ao que já estamos acostumados? Talvez. O jornal de papel pode acabar um dia. Pelas mais diversas razões. Mas a palavra impressa vai continuar. Em papel ou em seus substitutos ambientalmente sustentáveis, a palavra impressa não vai morrer. Ela permite que, como escreveu o colunista Tim Harford, do Financial Times (02/06), “você pense por si mesmo, e deixe sua marca no mundo” de forma mais contundente que a fria e anódina escrita digital.

***

[Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor]

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