Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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A vida que teremos na web

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 19/06/2012 na edição 699
Net Smart: How to Thrive Online, de Howard Rheingold, US$ 16,20 (Amazon Books)

Tiago Dória escreve sobre tecnologia e seus impactos sociais para o Último Segundo, do portal iG. E o faz com muita competência e capacidade crítica. Ele publicou na terça-feira (12/06) um artigo de extrema importância no qual disseca o livro Net Smart: How to Thrive Online, do pesquisador, crítico e professor Howard Rheingold, que estuda as “comunidades virtuais” há décadas. Toda a argumentação do autor gira em torno da nova vida que teremos na web, e as adaptações necessárias para uma boa vida em rede.

A vida na web pode ser muito mais difícil do que se pensa. Bem maior do que nosso poder de subestimar o que já damos por conhecido, mas na realidade não foi ainda esclarecido totalmente. Um ambiente povoado por armadilhas, spams, tentativas de apropriação de dados pessoais (phishing), manejo de dados irresponsáveis e venais por parte de plataformas da rede, intimidações online (cyberbulling) limitação de escolhas pessoais… Viver na web é mais perigoso do que se imagina, caro leitor – e acredito que você já aprendeu por si mesmo essa desagradável realidade.

Vivemos em rede, mas pouco sabemos sobre seu funcionamento. Viver em rede não é como existir numa sociedade verticalmente hierarquizada, como já demonstrou Manuel Castells (A Galáxia da Internet, Zahar, 2003). As redes têm “considerável dificuldade em coordenar funções, em concentrar recursos em metas específicas e em realizar uma dada tarefa dependendo do tamanho e complexidade da rede”.

O que é um algoritmo, afinal?

Dória cita Rheingold, que em seu livro traz os exemplos do navegador Internet Explorer e do Facebook:

“De mesmo modo, Rheingold acaba contribuindo para o coro dos que acreditam que, atualmente, o Facebook é uma espécie de Internet Explorer, algo que milhares de pessoas usam, mas que faz um mal para o desenvolvimento da web. A esta altura do campeonato, criticar a plataforma de rede social é meio como chutar gato morto, mas, mesmo assim, o ponto de vista é pertinente.

Rheingold mostra que, ao lançar o botão de ‘curtir’, o Facebook reconheceu a importância da curadoria. O ato de criar um perfil é um exercício de desenvolvimento de identidade. No entanto, a plataforma de rede social deseduca. Diferente da ação de navegar aleatoriamente pela internet e do Twitter, em que você desenvolve a sua própria habilidade de filtrar informações, no Facebook tudo vem pronto e mastigado. Um algoritmo define o que é relevante.”

Quem quer entregar seus gostos pessoais, suas preferências e outros dados a um algoritmo? E o que é um algoritmo, afinal? De forma simplificada, são instruções lógicas em sequência, e que não permitem interpretações ambíguas, destinadas a obter um determinado resultado. O “algoritmo” do Facebook, então, é o conjunto de todas as regras codificadas em linguagem de programação que fazem que a rede tenha obtenha determinados resultados. E a maioria dos usuários não conhece nem um nem outro: não sabem como o Facebook faz o que faz, ou por que.

Milhões de solitários

Rheingold acredita que se você não sabe exatamente como funciona exatamente uma determinada tecnologia, é bem provável que você se torne vítima dela. Concordo com isso. Pode ser paranoia, mas quantas ações judiciais a rede social responde por administrar precariamente os dados dos usuários? Por manipulá-los? Por tomar posse deles e entregá-los a anunciantes? Tiago Dória comenta que, a esta altura das coisas, criticar o Facebook “é lugar-comum, mas necessário”. O fiasco no lançamento público das ações é só um reflexo das expectativas exageradas do mercado e da credulidade ingênua da maioria dos usuários, que se acostumaram a ceder seus dados sem nada em troca. O professor Rheingold, um homem marcado pela contracultura, acredita que deveria ser postado pelas mídias sociais um aviso que tornasse o internauta consciente de que está a fornecer todos aqueles dados de graça cada vez que estivéssemos prestes a entregar nossas intimidades a uma rede.

Apesar de todo o seu desenvolvimento, e do aumento do nível de segurança no ambiente da rede social de Zuckerberg, ela ainda representa perigo para todos os que não conhecem bem suas matreirices e caminhos tortuosos. Certeiramente, ele avisa que redes como a de Zuckerberg “deseducam”. Pensam por nós mesmos, reduzindo-nos a meros aparvalhados peões envolvidos em um jogo que não compreendemos e por isso saímos sempre perdedores. Ponto para o professor. Há perigo na rede, e este é o maior deles: retirar do usuário seu poder de decisão, sua capacidade de escolha, assimilação e aprendizado. O segundo maior dano provocado pela navegação inconsciente é a alienação e a falsa sensação de companhia e amizade que o Facebook e as mídias sociais simulam.

Dória reconhece a paradoxal alienação da vida digital na web quando cita a autora e pesquisadora Sherry Turkle, do MIT, que avisa: “Usar uma rede é como andar numa avenida de uma grande metrópole. Estamos rodeados de pessoas, mas, mesmo assim, sozinhos.” A alienação urbana é o equivalente espacial ao alheamento na web. Todo o progresso trazido pela sociedade em rede é baseado na desconstrução da vida pública fundamentada nos encontros face a face. Estamos juntos na rede, mas nunca antes tantas pessoas estiveram tão sós ao mesmo tempo: somos milhões de solitários a acreditar que temos “um milhão de amigos”. Multidões na web estão aparentemente juntas, mas quantas pessoas que você tem como amigas na web estão ao seu alcance em sua vida social rotineira? Quantas estão ao alcance de uma chamada telefônica, ou um convite para sair?

Decifrar e entender

Continuando com o raciocínio de Rheingold, ele acredita que a web ainda não desenvolveu todas as suas possibilidades e que nós devemos adquirir novas habilidades para extrair dela seu potencial máximo: atenção, colaboração, participação, inteligência de rede (ou coletiva) e capacidade para detectar o que não é relevante. Em destaque fica a inteligência de rede, pois diz respeito as nossas relações sociais na web e fora dela. Criamos frágeis “amizades” na web, que não têm paralelo com as verdadeiras amizades concretas da vida real. O professor explica que a sociedade não é mais estruturada por grupos de pessoas, mas por conexões em rede. “Não é mais o local físico que cria a identidade das pessoas, mas as redes”, diz Rheingold. E o que importa é tomarmos conhecimento de nossas posições dentro dela. Absorto e envolvido por seu objeto de estudos, o autor substituiu a vida real pela existência frágil e virtual em rede. Não concordo com ele. Fico com meus amigos reais. Poucos, mas essenciais.

Ele traz a analogia da migração do campo para a cidade, no início da Revolução Industrial, para provar seu ponto de vista: temos que aprender mais para nos prevenirmos das “armadilhas e distrações” desta nova vida em rede, do mesmo modo que o homem do campo teve que se adaptar à nova realidade da vida urbana no século 19. Fica claro neste ponto que o autor acredita que a sociedade deve moldar-se à rede. Não temos que acomodar na web as nossas necessidades e nossas vidas, mas, ao contrário, precisamos nos ajustar para a inexorável e ubíqua presença da web, prega o autor. É fato consumado e não temos nada a fazer a respeito. Precisamos nos adequar à vida em rede, acredita o autor.

Não sei se concordo com sua ideologia. Discordo de seu tom determinista, embora aparentemente vivamos num universo determinista, onde tudo o que acontece parece condicionado pelo que aconteceu antes. A argumentação do autor, neste ponto, tem a característica de uma matriz de pensamento de tendência absoluta, que não permite contestações e reduz todos os que discordam dela ao silêncio. Se realmente existe uma necessidade de ajuste, ele deverá ser feito no sentido de adaptar a web às nossas necessidades, e não o contrário. Não estou a negar a necessidade de se adquirir maior controle e conhecimento sobre as ferramentas que utilizamos na internet. Justo ao contrário: precisamos decifrá-las e entendê-las para não cairmos vítimas incautas das armadilhas da web. Mas a vida real vem primeiro. Sempre.

Nada pode conter o que não é esperado

A virtual é secundária e ilusória, mas cada vez mais e mais presente em nossas vidas. Cada dia que passa dedicamos mais e mais tempo à internet. Por isso o manual da “malandragem” na web do professor Rheingold é importante. Porque, como dizia Moreira da Silva, o mais famoso malandro carioca, “malandro que é malandro não é malandro”. Em outras palavras, uma boa dose de esperteza consciente e benigna é necessária e fundamental. Na web e na vida. Aliás, é isto o que quer dizer o título do livro de Rheilgold: “esperteza”, ou “malandragem de rede”. Seu equivalente das ruas e da vida é street smart – esperteza ou, como eu prefiro, malandragem de rua.

Reconheço que estou a colocar-me numa posição romântica e meio antiquada, para muitos, mas tenho um sonho. Um simples sonho: retomar nossas vidas públicas de conversa nas calçadas, nos bares das cidades, através da reapropriação de tudo aquilo que nos foi tomado à força pelos especialistas. Da web e de outras áreas em geral. Basta de especialistas. Basta de seus tons didáticos a ditar rumos em nossas vidas. Quero uma vida onde homens e mulheres saibam tomar conta de suas vidas sem medo, ou amparos espertalhões e oportunistas, como a praga da “literatura” de autoajuda, que nos deixa a todos como idiotas infantilizados.

Sonho com a volta da vida pública, das redes sociais reais dos encontros e reencontros pessoais. Com a força do acaso a determinar um futuro incerto, sem que sejamos possuídos pelo medo de algo inesperado acontecer. Porque acontece sempre. Nada pode conter o que não é esperado. A web não vai dirigir nossas vidas. Nós é que estamos a organizá-las através da web. A diferença é sutil, mas importantíssima. A web não tem o poder de deter a força do acaso e o inesperado não se submete às forças insuperáveis que trazem às nossas vidas tudo aquilo que não pode ser previsto, planejado ou desejado.

Adaptar a web às nossas necessidades

O acaso, o inesperado e as surpresas que a vida cotidiana nos traz conduzem nossas vidas. Neles residem nossas maiores alegrias e também nossas maiores dores e decepções. É um sonho da espécie humana ansiar por um mundo previsível, que a resguarde e previna das agruras da vida, mas infelizmente isto é apenas um devaneio: a web não vai nos salvar do que quer que nos espere no futuro. Que ignoramos completamente. Mas as megaplataformas da web querem que pensemos diferente. Querem invadir e apropriar-se de nossas vidas através de artimanhas. Nem toda conversa ou comunicação na web é partilha. As companhias de comunicação conseguiram fazer o público acreditar que trocar palavras em meio digital é a coisa mais prazerosa e necessária que há. Nada pode estar mais longe da verdade.

Quando estamos online, nossos comportamentos mudam. Tornamo-nos ousados, imprevisíveis e muitas vezes agressivos. Dizemos coisas que jamais seríamos capazes de expressar num encontro pessoal. Este é o mais danoso efeito na vida social da ingenuidade e da falta de cautela na web: ela nos dá uma falsa e covarde sensação de segurança para expressarmos os maiores absurdos sem que percebamos. Para fazermos o que não deveríamos, mas fazemos assim mesmo. Só porque podemos fazê-lo. No fim das contas, não estamos frente a frente. A mídia junta e separa: estamos fisicamente longe uns dos outros e isso modifica nosso comportamento: no campo das relações entre as pessoas pode haver facilitação para que seja dito o que nunca deveria ser, e feito o mal que nunca deveria ocorrer: invasões de privacidade, pornografia infantil, roubo de dados, desinformação, invasão de e-mail de terceiros, vírus e outras pragas que compõem a ecologia da web. Por isso tudo a esperteza esclarecida online é extremamente necessária. Ela significa conhecimento do que se passa ao redor, na web, e como funcionam as coisas dentro dela também.

A argumentação do professor em seu livro é extremamente relevante e eu só discordo dela em um ponto: não acredito que a sociedade humana deva adaptar-se à web. Creio que temos que pô-la a nosso serviço e evitarmos sempre que possível entregar a ela todas as nossas habilidades, interesses e particularidades que nos distinguem como seres humanos únicos. Não temos que nos adaptar a ela, mas fazê-la mais e mais adaptada às nossas necessidades. No fim das contas, o consórcio mundial da web não é, e não será nunca, tão interessante, misterioso e deslumbrante quanto a vida real.

***

[Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor]

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