Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Analista discreto abala mundo da internet

Por Jessica Toonkel em 19/06/2012 na edição 699
Reproduzido do Valor Econômico, 13/6/2012; intertítulos do OI

Scott Devitt se destaca há muito por ser cauteloso num universo dos que apostam na alta da internet. Nos mais de 12 anos em que cobriu empresas de internet como analista de Wall Street, Devitt desenvolveu um enfoque comedido sobre um setor que muitas vezes sucumbe ao excesso de badalação.

Devitt, que substituiu a estrela da análise de internet Mary Meeker no Morgan Stanley em 2010, foi um dos poucos analistas a reduzir sua meta de preço para o Google em janeiro, depois que os resultados do quarto trimestre da empresa ficaram aquém das expectativas dos analistas em mais de US$ 1 por ação. Em fevereiro, Devitt rebaixou a Amazon de “aumentar a exposição” para “manter a equivalência da exposição”, enquanto a maioria dos analistas recomendava “compra” ou “comprar com ênfase” o papel. E Devitt insistiu uma vez para que seu patrão na época deixasse de subscrever uma oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) na era da bolha das empresas pontocom por não estar convencido de que a companhia tinha capacidade de competir com um concorrente de maior porte. Mas todas essas recomendações divergentes se obscurecem quando comparadas à que ele fez apenas alguns dias antes de o Facebook fixar o preço de seu IPO de US$ 16 bilhões. Essa se tornou alvo de discussão no setor, exames minuciosos dos órgãos regulatórios e processos judiciais de investidores.

Devitt foi um de uma série de analistas a baixar suas expectativas de receita e de lucros da colosso da mídia social depois que a empresa informou aos analistas que estava retirando suas projeções de receita trimestral e anual. O Facebook também emitiu uma versão reformulada do prospecto advertindo que a mudança de seus usuários para plataformas móveis poderia ter um impacto negativo sobre o crescimento da receita.

“As regulamentações pertinentes”

Foi uma iniciativa altamente incomum por ocorrer poucos dias antes do tão aguardado IPO do Facebook, cujo principal subscritor foi o Morgan Stanley. O banco de investimento não apenas tinha controle sobre o processo, como também sobre 38% das ações do Facebook que estavam sendo vendidas. As projeções de receita revisadas de Devitt e de outros analistas foram compartilhadas por meio de telefonemas com investidores institucionais, antes que a ação começasse a ser negociada publicamente. Isso, por sua vez, levantou interrogações sobre se a operação estaria voltada contra os investidores públicos desde o início e desencadeou a abertura de processos judiciais.

Esses são holofotes com que Devitt não está acostumado e com os quais não se sente à vontade, segundo pessoas que o conhecem. “Por um lado, poderíamos dizer que é fantástico que o analista teve a coragem, na véspera da maior IPO da história, de dizer uma coisa pessimista”, disse Josh Brown, autor do blog The Reformed Broker. “Por outro lado, os únicos que participaram daquele telefonema eram um punhado de investidores institucionais”, disse Brown, que não conhece Devitt. Devitt não deu retorno a ligações telefônicas ou e-mails.

O Morgan Stanley disse em comunicado ter encaminhado o prospecto reformulado do Facebook a todos os seus clientes de varejo e institucionais e que seus procedimentos de IPO “cumpriam todas as regulamentações pertinentes”.

De ônibus para o trabalho

A empresa não respondeu a perguntas sobre o motivo pelo qual ela não notificou todos os seus clientes, inclusive os pequenos investidores, sobre a mudança de previsão.

Quando Devitt substituiu Meeker, não tinha qualquer anseio de se tornar um nome tão famoso como Meeker – que foi apelidada de “Rainha da internet” no setor –, segundo duas pessoas que conhecem Devitt mas que pediram para não ter seus nomes revelados porque seus empregadores não as autorizam a falar com a imprensa. “Ele não é, em nenhuma medida, ruidoso nem espalhafatoso”, disse uma das pessoas próximas a Devitt.

Embora os amigos digam que Devitt é frugal, registros públicos mostram que no terceiro trimestre do ano passado ele e sua esposa, Katherine, compraram uma casa de valor histórico de 446 metros quadrados, construída num terreno de 9,3 mil metros quadrados em Ho-Ho-Kus, Nova Jersey, por US$ 1,575 milhão. Apesar disso, Devitt, de 39 anos e pai de três filhos, vai de ônibus a Manhattan todos os dias. Ele muitas vezes mantém o carro durante vários anos, dizem os amigos, e atualmente dirige uma minivan. Uma vez, ele vendeu um Saturn tão velho que o amigo que o comprou brincou que o carro não conseguiria ir além do imóvel do próprio Devitt, afirmou a segunda fonte, um ex-colega de trabalho, que preferiu manter o anonimato.

“Muito atento”

“Ele é um tipo de peixe fora d’água em Nova York. A família é muito importante para ele”, disse a pessoa, próxima ao analista. Devitt quase deixou o universo da análise setorial em 2007, quando aceitou o emprego de diretor financeiro da varejista de joias online Blue Nile. Mas mudou de ideia porque não queria transferir a família para Seattle, segundo reportagem publicada na época.

A maneira pela qual analisa empresas pode também chamar a atenção de algumas pessoas do universo dos analistas do setor bancário de Nova York como diferente. Devitt, disseram as fontes, muitas vezes, conversa longamente com investidores sobre suas recomendações e os motivos que o levaram a fazê-las. Além disso, solicita feedback das pessoas com as quais trabalha, mesmo de colegas de nível inferior, segundo os que o conhecem.

Devitt tem um histórico de cautela. Em 2007 e 2008, muitos analistas apostavam na alta da provedora de comércio eletrônico GSI Commerce, quando ela entrou numa disparada de aquisições, menos Devitt, disse Michael Rubin, fundador e ex-principal executivo da GSI, adquirida pelo eBay por US$ 2,4 bilhões no ano passado.

“Outros gostavam da gente só pelo fato de estarmos comprando, mas Devitt queria ver como as coisas terminariam”, disse Rubin, fundador e principal executivo da Kynetic. Rubin viu isso como um desafio. “Eu prestava mais atenção ao que ele tinha a dizer", disse ele. “Ele era muito atento em toda a sua pesquisa.”

***

[Jessica Toonkel, da Bloomberg]

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