Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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Facebook no almoço

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 10/07/2012 na edição 702

Alguns comentaristas da mídia não acreditam no poder desagregador das relações pessoais que as redes sociais representam. Principalmente aquelas que não exigem nada de seus usuários e que podem ser acessadas em público por meio da telefonia móvel. O canal pago Bandnews (1/7) exibiu uma cena que demonstra como os smartphones interferem em nossas vidas sociais. A reportagem acompanhou duas jovens funcionárias de uma empresa que, durante a hora do almoço, preferiram acessar as redes sociais (no caso, o câmera filmou o azul e a o tipo gráfico peculiar do Facebook) a manter qualquer tipo de conversação entre elas. Foram “checar” as novidades antes mesmo de pedir o almoço.

A matéria era sobre o aumento do uso de smartphones no Brasil. E observei aquelas duas jovens a teclar nervosamente seus aparelhos, sem qualquer tipo de contato a acontecer entre elas: nenhum olhar, nenhum sinal de linguagem corporal, nenhuma conversa ou sorriso. Nada: as duas estavam completamente absortas em verificar as últimas atualizações na rede social. Ninguém me convence que esse tipo de comportamento favorece o convívio em sociedade.

O jornalista Tiago Dória (23/3) publicou em seu blog um argumento do professor de Harvard Clayton Christensen sobre os períodos de tempo livre que temos em nossos dias. Em 2003, ele escreveu um artigo sobre o BlackBerry (o smartphone original), no qual ele explicava que os momentos “mortos” de nossas vidas públicas – como esperas em portas de restaurantes, teatros ou qualquer tipo de exposição pública do tipo – poderiam ser preenchidos pelo uso destes gadgets.

Cuidado e atenção

Dória comentou:

“Para Christensen, os concorrentes diretos do BlackBerry não eram outros celulares, mas sim, atividades que também ocupassem esses espaços de tempo, como fazer anotações, ler um trecho de uma revista ou ficar à toa olhando para os lados.”

Observe-se que ele jamais cogitou que o BlackBerry estava a concorrer com atividades sociais envolvendo pessoas. Mas o mais importante na argumentação do professor foi ter estabelecido uma concorrência entre a distração superficial e pueril do aparelho com o texto escrito e leituras curtas. E nessa competição, o meio digital sempre tem a prevalência. Por quê? Por modismo ou racionalização robótica de nossos intervalos de ócio? Será que eles não poderiam ser muito mais ricos com leituras, anotações ou conversas?

Não concordo com o professor Christensen, da Harvard Business School. Ele é, por ofício, um racionalizador de tempo que parece fazer poucas concessões à vida social. Seu artigo de 2003 não levava em consideração que os momentos ociosos passados em público poderiam ser aproveitados para estreitar laços sociais concretos. Ou para aumentar a consciência física do cidadão do local onde está. Cuidado e atenção são fundamentais na vida urbana moderna. Não há lugar para os desatentos. Além disso, o que você encontrar numa rede social, ou num insuspeito e-mail, poderá abruptamente arruinar o que seria uma ótima noite ou um encontro marcado com alguém importante em sua vida. Pense nisso, leitor.

Redes sociais contribuem para o isolamento

Os serviços das operadoras de telefonia celular que oferecem smartphones “de graça” no Brasil anunciam muito, mas os nossos preços estão alinhados com o mercado internacional. Que não cobra pouco. As operadoras aproveitam-se da empolgação de usuários inexperientes em pequenas mídias para vender seus planos. A referência digital de armazenamento de dados que a população digitalmente incluída possui é o disco rígido do computador e a tendência é o utente inexperiente contratar mais dados do que ele realmente vai usar. O sucesso comercial mundial dos smartphones acabou por produzir um fenômeno onde o meio é literalmente a mensagem. Eles são tão interessantes, possuem tantas aplicações e aplicativos que passam rapidamente ao centro das atenções. O que eles fazem para aproximar as pessoas passa para segundo plano. O smartphone não é apenas mais um meio de comunicação: ele mesmo é também sua própria mensagem.

Paga-se sem muita cautela no mercado da telefonia móvel no Brasil, num momento em que a expansão do consumo deveria ser controlada para não levar a um potencial endividamento futuro. A atual febre pelos supertelefones acabou por produzir no público uma atração e um fascínio que poderão desempenhar um papel importante no endividamento futuro das famílias. Seus serviços de voz e dados são comercializados como se a troca de mensagens digitais, faladas ou escritas, e a navegação móvel online fossem as últimas e maiores de todas as maravilhas do planeta.

O acesso às redes sociais é um grande trunfo nas mãos dos vendedores das operadoras da telefonia móvel. Mas elas, principalmente quando acessadas em público, potencialmente também contribuem para o isolamento, o apartamento social, e levam ao empobrecimento da experiência pública e a indiferença ao espaço geográfico ao redor do indivíduo. O que pode ser extremamente perigoso numa cidade violenta da América do Sul. Ou qualquer metrópole do mundo.

***

[Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor]

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