Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Flanar na internet me faz trabalhar melhor

Por Jenna Wortham em 10/07/2012 na edição 702
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 9/7/2012; tradução de Paulo Migliacci

A internet é um estímulo à distração. É fácil entrar só para ver uns e-mails e cair em fotos do bebê da Beyoncé.

Mas, há duas semanas, tive uma experiência diferente. Estava estressada, com um prazo a cumprir e frustrada a ponto de não conseguir trabalhar, quando comecei a usar o Twitter e o Tumblr.

Por um tempo, deixei minha mente e meus dedos me conduzirem sem rumo pela web. Logo cansei disso, concluí meu texto e o entreguei. O passeio demorou menos de dez minutos e parece ter me tornado mais eficiente.

É claro que a norma aceita é a de que nossa concentração e a nossa atenção estão sendo solapadas pela barragem constante de serviços que inundam nossas telas, e que a tendência é negativa.

John Herrman, editor do “FWD”, site de tecnologia do BuzzFeed, diz ter desenvolvido uma espécie de neurose tecnológica em virtude da corrida frenética para se manter atualizado, acompanhando e-mails, Twitter, Facebook, mensagens e telefonemas o dia todo.

“Como muitas outras pessoas que trabalham com computadores, pareço muito ineficiente”, escreveu em post recente. “Mesmo que minha produção seja alta, consumo muito mais informações do que produzo. Estou sempre desviando a atenção daquilo que faço, nunca ocupado demais para olhar para outra coisa, e nunca ignoro o que atrai minha atenção.”

Minha experiência é parecida com a dele, quase todos os dias -mas nem sempre. Descobri que, de vez em quando, é revigorante me perder na web. Em lugar de ignorar o ruído, eu muitas vezes o emprego como forma de me acalmar para que possa concluir meu trabalho.

Parece que, em vez de fraturar minha concentração e estilhaçar a atenção, a distração digital se tornou parte do meu ritmo de trabalho. Talvez possa encarar com eficiência tudo aquilo que requer minha atenção se eu descobrir como me alternar entre a multidão de aplicativos e serviços que me imploram presença, leitura, resposta.

Se meu cérebro está aprendendo a enfrentar as distrações, será que o mesmo vale para outras pessoas?

É claro que o consenso entre cientistas e pesquisadores é o de que tentar alternar entre muitas tarefas fratura nosso pensamento e degrada a qualidade de cada ação. Mas compreender a plasticidade do cérebro, ou sua capacidade de se adaptar e reorganizar seus percursos neuronais, é uma disciplina que apenas começa a receber atenção.

Adam Gazzaley, neurocientista da Universidade da Califórnia em San Francisco, que estuda o impacto das interrupções sobre o desempenho e a memória, diz que é possível que nossos cérebros estejam se adaptando para lidar melhor com os diversos estímulos digitais.

Ele e sua equipe de pesquisa estão usando videogames para observar de que maneira o cérebro se adapta a múltiplas tarefas cuja dificuldade cresce ao longo do tempo.

“Podemos nos treinar para melhorar nosso desempenho”, diz. “Estamos estudando a plasticidade do cérebro para podermos compreender de que forma as capacidades podem ser melhoradas.”

Pode ser que o cérebro seja capaz de aceitar certos níveis de tarefas múltiplas, mas não outros, diz. Navegar pela web e falar ao telefone podem não impor aos recursos cognitivos exigências semelhantes às de dirigir por uma estrada enquanto você envia uma mensagem de texto. Essa é uma área de pesquisa que os cientistas e psicólogos estão apenas começando a explorar, segundo ele.

“Estamos pressionando o cérebro a promover uma alternância de tarefas”, diz Gazzaley. Algumas pessoas certamente desenvolveram mecanismos próprios para enfrentar esse tipo de desafio.

Steve Greenwood, um empresário que trabalha em Manhattan, diz que prefere acordar cedo para ler e-mails e fazer outras tarefas simples antes que as redes sociais comecem a ficar agitadas.

Um amigo meu diz que ativa o modo avião no celular em festas e jantares, o que suspende sua capacidade de enviar e receber sinais.

Não perturbe

Há um setor de negócios incipiente cujo objetivo é ajudar as pessoas a gerirem sua atenção e os vários sites e serviços que a requerem.

A Apple planeja adotar um novo recurso de “não perturbe” em uma futura atualização do iOS, seu software para aparelhos móveis. O recurso permitirá suspender telefonemas e notificações.

Susan Etlinger, consultora do Altimeter Group, que assessora empresas sobre o melhor uso da tecnologia, disse que telefones e serviços que oferecem controles eficientes para administrar interrupções se tornarão mais importantes como argumento de vendas para consumidores e usuários de tecnologia.

“Vem se tornando cada vez mais claro que a atenção é a nova moeda”, ela diz. “Considere as redes sociais e empresas com que interagimos a cada dia. Todos concorrem por uma fatia de nosso tempo e atenção. Portanto, a capacidade de reter a atenção de um usuário se torna vantagem competitiva.”

Mas, ainda que antecipe o avanço dos recursos e aplicativos que ajudam a pessoa a gerir distrações digitais, ela espera que uma nova leva de sites e serviços comece a disputar nossa atenção.

“Para cada recurso de ‘não perturbe’, surgirão novos alertas cujo objetivo será transmitir informação em tempo real”, diz. “Se você ‘curtir’ uma rede de restaurantes no Facebook, vai receber um alerta sempre que passar perto de uma de suas unidades, a pé ou de carro”.

Mas ela oferece um vislumbre de esperança. Mesmo que nossos cérebros não sejam capazes de se ajustar à onda de informações e serviços que requerem nossa atenção, talvez um dia surja uma tecnologia que cuide disso por nós.

“No futuro, o contexto dos dados e outros fatores -tempo, movimento, preferências declaradas, comportamentos tópicos- vão informar os aplicativos com que eu interajo de modo que eles passem a se adaptar à minha maneira de trabalhar e aprender.”

***

[Jenna Wortham, do New York Times]

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