Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Desculpas para recaídas

Por Márion Strecker em 31/07/2012 na edição 705
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 26/7/2012; intertítulo do OI

Os dependentes em tecnologia têm sempre mil desculpas para defender o vício. Falo por experiência. Quando a gente fica cansado de olhares de censura, usa o aparelho escondido ou procura outros dependentes para conviver sem repressão. Os profissionais vão dizer que precisam ficar noite e dia disponíveis. Hoje em dia, pega bem se intitular workaholic (viciado em trabalho) ou contar como vive com tão poucas horas de sono e tantas doses de café. Será que alguém fica mais inteligente ou criativo assim? Duvido. Cafeína é sabidamente um alcaloide que causa dependência. Quem precisa tomar café para raciocinar está apenas provando sua dependência.

Mas voltemos à tecnologia. Mães e pais vão dizer que não desgrudam do celular para receber ligações dos filhos, mesmo quando estes estão ocupados na escola. Filhos vão dizer que precisam falar com os pais, mesmo os que costumam ficar “sem bateria” ou “fora da área de alcance” justo quando são procurados. A grande maioria dos dependentes elogia todos os benefícios da vida online: fazer muitas coisas ao mesmo tempo, reduzir distâncias, ter acesso a mais informações, descobrir coisas novas, fazer mais contatos, expor-se para o mundo. Tudo isso é possível. Mas, na vida real, quando a pessoa se torna um dependente, isso tudo se torna praticamente impossível. Ao menos é essa a minha experiência.

Checar e rechecar a cada minuto e-mails, notícias e redes sociais pode ser algo angustiante e improdutivo. Vejo milhares de pessoas online, mas pouquíssimas pessoalmente. Tenho acesso à informação de toda a internet mundial, mas frequentemente não sei nem por onde começar, de tanta bobagem que me rouba o tempo. Posso me expressar livremente, mas sou obrigada a deparar com comentários preconceituosos, mal informados e mal escritos, de pessoas que nem conheço.

Casamento em crise

O lado B da internet é imenso. Mas qual é a linha que separa o uso produtivo, divertido, enriquecedor da pura dependência, improdutiva, que traz sofrimento? O Facebook, por exemplo, além de ser o maior ladrão de tempo na internet do mundo – que o digam as empresas –, é um campo fértil, porém minado, para o amor. Todo mundo disponível ali, à distância de um clique. Um momento de solidão e qualquer coisa pode acontecer.

Uma amiga desapareceu do Facebook e acaba de voltar. Perguntei o que houve. Ela contou que o marido é muito ciumento e que o Facebook pôs o casamento em crise. Respondi que ciúme e Facebook são incompatíveis. Ponha-se na pele do marido, lendo os galanteios que ela deve receber. Há casais que deixam senhas abertas, para mostrar que não fazem nada errado. Essa amiga disse que, desta vez, fez um pacto de voltarem ao Facebook com a condição de não fuçarem nas coisas do outro, nem mencionarem com quem andam falando. Ela se pergunta se vai dar certo. Não quis desanimá-la, então me calei.

“Inteligência coletiva”

O problema em ficar distraído ou simplesmente entretido na internet é a perda de tempo e a dificuldade de se aprofundar. O problema das mensagens curtas e rápidas é que nos consomem um tempo enorme e raramente são profundas. O problema do excesso de informação é nossa dificuldade em selecionar, processar e reter o que importa.

Quem se preocupa com o futuro dos adolescentes hiperconectados de hoje teme a hipótese de que eles possam deixar de desenvolver capacidade de pensar com profundidade e possam perder o traquejo social na vida real, além de ficarem dependentes das funcionalidades de seus eletrônicos. Quem não se preocupa com isso… bem, ou não tem filhos ou acredita na capacidade de o cérebro aprender a alternar tarefas profissionais e pessoais com rapidez e principalmente eficácia. Defende que a sociedade vai ficar cada vez mais culta, pois terá oportunidade de fazer pesquisas mais amplas e profundas, aproveitando a chamada “inteligência coletiva” da internet, ou seja, a colaboração.

Por dever de consciência, às vezes confiscamos os eletrônicos da adolescente aqui em casa.

***

[Marion Strecker é jornalista, cofundadora e correspondente do UOL em San Francisco]

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