Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Na Suécia, rezando no altar do arquivo compartilhado

Por John Tagliabue em 14/08/2012 na edição 707
Reproduzido da Folha de S.Paulo/The New York Times, 13/8/2012; intertítulos do OI

Em quase todos os países, as pessoas usam computadores para baixar músicas e outros materiais, muitas vezes ignorando os direitos autorais. Mas só na Suécia compartilhar arquivos é uma religião.

Apesar das pressões dos grandes conglomerados de mídia contra a prática, o governo sueco neste ano registrou como religião um grupo que tem como dogma central o caráter sagrado do compartilhamento de arquivos.

“Para mim, é uma espécie de crença em valores mais profundos do que os valores mundanos”, disse Isak Gerson, aluno de filosofia na Universidade de Uppsala, que ajudou a fundar a Igreja e tem o título de missionário-chefe.

A religião chamada kopimismo -nome oriundo da frase “copie-me”, em sueco- diz ter mais de 8.000 fiéis.

Ela solicitou o direito de celebrar casamentos e de receber os subsídios estatais concedidos a outras organizações religiosas e já trata agora de adquirir um templo, embora a maior parte das suas atividades seja pela internet.

“Temos algo semelhante a clérigos regulares”, disse Gerson, 20, que afirma ter no seu smartphone um vínculo com o divino. “Não há tantos rituais assim.”

Tendência clara

Os kopimistas surgiram do crescente movimento europeu pró-pirataria, nascido há uma década na Suécia.

Nas eleições de 2009, para o Parlamento europeu, o Partido Pirata local obteve 7,1% dos votos, mas despencou na eleição nacional do ano seguinte. O movimento já se espalhou para pelo menos nove outros países europeus.

Mas Gerson garante que a igreja não se mete em política. “O cristianismo pegou o judaísmo e o transformou em algo novo e os muçulmanos fizeram o mesmo. Somos parte de uma tradição.”

Gustav Nipe, 23, outro fundador, diz que o objetivo do kopimismo não é promover diretamente o compartilhamento ilegal de arquivos, e sim enfatizar os valores da partilha de informações.

O governo não se opõe, desde que os seguidores não violem leis.

“É nossa responsabilidade registrar comunidades religiosas que cumpram certos critérios”, disse Mareta Grondal, funcionária da agência que registrou a igreja. “Não olhamos como as comunidades agem na prática.”

Os critérios incluem a redação de um estatuto e o pagamento de uma taxa anual, atualmente em cerca de US$ 70.

Embora Grondal diga que o governo “não pode, e não deve, interferir no que as pessoas acreditam”, ele não dá sinais de que aceitará violações de direitos autorais em nome da liberdade religiosa.

“Cada vez mais compartilhadores de arquivos estão sendo detidos, especialmente no último ano”, disse Anna Troberg, líder do Partido Pirata Sueco, que tem cerca de 8.500 filiados.

“As grandes produtoras de cinema e as grandes gravadoras querem que alguém vá a julgamento.”

No entanto, afirmou, com estimados 2 milhões de suecos envolvidos em atividades de compartilhamento de arquivos, “é mais fácil ser atingido por um raio do que ir a julgamento”.

A tendência, porém, é clara. Numa comunicação diplomática divulgada no ano passado pelo WikiLeaks, a Embaixada dos EUA solicitava ao governo sueco que contivesse as violações aos direitos autorais.

Formas de remuneração

Em maio, um tribunal holandês determinou que os provedores de internet bloqueassem, sob pena de multas pesadas, o site Pirate Bay, ligado ao Partido Pirata. A Alta Corte britânica emitiu um veredicto semelhante em abril.

Para Nipe, trata-se de “uma espécie de inquisição -como queimar gente”.

Muitos suecos veem os kopimistas de forma positiva. Para Jennifer Hallberg, 32, “se eles encontrarem uma forma para remunerar os artistas de forma justa por seu trabalho, mas sem que os usuários precisem pagar, eles merecem um Prêmio Nobel”.

***

[John Tagliabue, do New York Times]

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