Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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É tudo (in)verdade?

Por Leonardo Cazes em 18/09/2012 na edição 712

“Cara Wikipédia, eu sou Philip Roth. Recentemente, tive motivos para ler, pela primeira vez, o verbete sobre meu romance A marca humana. O texto contém uma séria distorção que gostaria que fosse retirada.” Assim começa a carta aberta publicada pelo escritor americano no blog Page-Turner, da revista The New Yorker, a última etapa de uma briga para que o verbete sobre seu livro fosse corrigido. Na enciclopédia colaborativa estava escrito que A marca humana (Companhia das Letras), lançado em 2000 nos Estados Unidos e em 2002 no Brasil, seria baseado na história de Anatole Broyard, famoso crítico de cultura do jornal The New York Times, morto em 1990. Roth, entretanto, afirma que o romance foi inspirado, na verdade, pelo professor de sociologia de Princeton Melvin Tumin.

Informações imprecisas ou erradas na enciclopédia virtual não são incomuns. Cristovão Tezza e Milton Hatoum são algumas das “vítimas” de equívocos provocados pela edição colaborativa. No caso de Roth, chamou atenção a justificativa do administrador da Wikipedia em inglês para não mudar o texto: “Entendo que o autor é a maior autoridade sobre sua obra, mas nós exigimos fontes secundárias.” Após a repercussão da carta aberta, o escritor conseguiu a correção, mas a referência a Broyard foi mantida, com o argumento de que diversos críticos o apontaram como inspiração para o livro.

“Preferi a literatura ao título de doutor”

Já no verbete de Tezza há uma afirmação de que ele trabalhou na marinha mercante. Na verdade, o autor ingressou na Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante (Efomm) em 1971, após concluir o ensino médio no Colégio Estadual do Paraná, em Curitiba, mas se desligou no mesmo ano. Procurado, o escritor confirmou os erros na enciclopédia, mas disse que pessoalmente não se importava. “Há vários erros na página, pensei até em escrever alguma coisa, mas já tenho meu site oficial onde tem praticamente todas as informações. Se você entrar na Wikipédia em polonês, está mais correto porque uma tradutora de lá fez uma tese de doutorado sobre a minha obra e criou uma página”, afirma Tezza. “Mas sou um entusiasta do projeto. Foi uma revolução das fontes de informação. O conceito é absolutamente fantástico, colocar os verbetes nas mãos das pessoas que mais se interessam pelo assunto. Eu mesmo uso muito. Não é a última palavra sobre um assunto, mas representa a alma da internet, aquela coisa flutuante, a informação viva.”

Milton Hatoum é menos otimista em relação às oportunidades criadas pela rede. Ele afirma que, ao contrário do que está escrito no seu verbete, não é doutor em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo (USP) nem pela Sorbonne, em Paris. Hatoum começou os dois cursos, mas não chegou a terminá-los. “Nunca terminei meu doutorado, nem na Sorbonne nem na USP. De fato, comecei a frequentar um curso de pós-graduação nessas universidades, mas em ambas interrompi o doutorado para escrever um romance. Preferi a literatura ao título de doutor”, diz o escritor.

Parcerias com universidades brasileiras

Na sua opinião, mais grave do que a “fofoca literária, que não é nada e logo será esquecida”, é o total descontrole sobre as barbaridades que ganham visibilidade na rede. “Todas as infâmias e baixezas podem ser publicadas na internet. É impossível controlar essa caótica comunidade de ódio. Um exemplo recente é o filme de um tal Sam Bacile, que provocou reações iradas de alguns muçulmanos e, consequentemente, a morte de diplomatas americanos na Líbia. O filme é um lixo abominável, o ‘diretor’ e os produtores são cúmplices dessa barbárie divulgada pela internet”, critica Hatoum.

Se há casos verossímeis que não são verdadeiros, por outro lado há informações aparentemente duvidosas, mas que estão corretas. É o caso do verbete sobre Ricardo de Carvalho Duarte, o poeta Chacal. Logo na terceira linha há uma explicação de que ele se dedicou à poesia por ser incapaz de desenhar um cavalo. O próprio Chacal confirma a história. “É isso mesmo, eu tinha um amigo que desenhava um cavalo muito bem e eu ficava louco, não tinha o menor jeito para aquilo. Eu já li o que foi escrito sobre mim, achei bem correto, correto até demais”, observa o poeta.

Recentemente, a Wikimedia Foundation, responsável pela Wikipedia, fechou parcerias com instituições brasileiras como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) e a USP para melhorar a qualidade das informações oferecidas.

***

[Leonardo Cazes, do suplemento “Prosa&Verso”, de O Globo]

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