Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Smartphone pesa no orçamento familiar

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 02/10/2012 na edição 714

Famílias norte-americanas estão economizando em vestuário, diversão, viagens e outras formas de lazer para pagar as salgadas contas dos smartphones. O gasto com despesas com os supertelefones está crescendo em plena crise, num jogo de soma-zero com as indústrias de lazer e vestuário, principalmente: o que as operadoras de telefonia móvel ganham é equivalente ao prejuízo que as indústrias de restaurantes, roupas, cinema e viagens são obrigadas a assimilar. O resultado da conta é igual a zero. O Wall Steet Journal (27/09) publicou:

“Mais de metade da população com celular nos Estados Unidos tem um aparelho como o iPhone, uma mudança que desestruturou o orçamento de famílias por todo o país. Dados do governo mostram que o americano gastou mais com a conta de telefone nos últimos quatro anos, período no qual cortou a verba para comer fora, se vestir e se divertir – corte sentido na carne pelas indústrias de restaurantes, vestuário e cinema.”

O periódico informou também que o cenário aponta para uma expansão ainda maior no setor da telefonia móvel. Uma família americana padrão gastava cerca de US$ 1.100 por ano em telefonia celular. Ano passado, o montante subiu para US$ 1.226. “Famílias com mais de um smartphone já gastam muito mais do que a média – em certos casos, mais de US$ 4.000 por ano (ou R$ 8.080,00) – superando facilmente o que pagam por TV a cabo e internet em casa”, informou o periódico. O americano médio gasta o equivalente a R$ 202 por mês, em média, em telefonia móvel e seus pacotes de dados.

Consumidores intensivos de energia

As grandes companhias de telefonia móvel, como a AT&T e a Verizon Wireless, apostam no crescimento do setor. Acreditam na máxima contemporânea do marketing que prega que o consumidor “sempre pode pagar mais por algum produto ou serviço”. Essa filosofia acaba por gerar consumo irracional por parte do consumidor. Já foi responsável pela orgia consumista que antecedeu a crise de 2008, mas continua em vigor para os vendedores de novidades gastadeiras.

As grandes operadoras estão atrás do mercado de alta renda. Não se preocupam nem se sentem responsáveis pelo que fazem para acumular lucros. Não querem saber se os lucros com smartphones vêm sendo mantido a custa do prejuízo em outros negócios da economia. Tampouco projetam um cenário do que significam, em termos globais, para a economia e o bolso do consumidor, os gastos excessivos das famílias com telefonia móvel em tempo de crise. Pouco importa se a poupança das famílias foi destruída na crise.

O Wall Street Journal perguntou-se até que ponto a economia vai suportar os altos gastos as contas com celulares móveis, até que outros setores sejam afetados pelos cortes que as famílias terão que fazer em outros itens do orçamento familiar. E eu acrescentaria mais um punhado de questões: de onde vem tanto deslumbre pelos smartphones? Por que o público parece decidido a eleger a navegação móvel como a forma de lazer mais importante no mundo contemporâneo? O aparelho, que nada mais é do que um celular com sistema operacional, ainda tem um sério limite pouco mencionado nos sites de vendas, mas muito comentado nos fóruns especializados da web: a pequena duração de suas baterias. Os smartphones e iPhones são consumidores intensivos de energia. Mesmo propriamente regulados, seu gasto absurdo das baterias acaba com a autonomia do aparelho e anula suas vantagens trazidas pela mobilidade.

Uma mistura explosiva

O fascínio pelos smartphones também chegou forte ao Brasil. Mas as formas de uso dos celulares navegadores não é a mesma. Para muita gente, o acesso à internet banda larga só é possível através dos planos de dados das operadoras. Os aparelhos funcionam como roteadores, isto é, podem conectar um laptop ou PC à internet com um gasto muito menor que a banda larga fixa cara do Brasil. Mariana Mazza, da Band.com, explicou que este tipo de uso, somado ao subsídio do governo aos aparelhos fabricados no país, compromete ainda mais nossa precária infraestrutura em telefonia móvel. Há poucos meses, o governo puniu três grandes operadoras nacionais por seus serviços de baixa qualidade e ausência de planos de investimentos. Mazza fez a crítica certeira:

“O esquisito nesta história é o mesmo governo que acabou de constatar que o excesso de demanda por dados móveis está colocando a telefonia celular em colapso adotar justamente agora uma medida que irá estimular esse crescimento de interesse pelo serviço.”

A autora acrescentou que a qualidade do serviço “passou em brancas nuvens”, enquanto o Ministério das Comunicações estimulava a venda de aparelhos fabricados no Brasil. Mazza tem razão. O aumento do número de aparelhos num cenário de baixo investimento e má qualidade dos serviços pode levar a um estrangulamento no setor. A realidade é que governo, consumidores e operadoras estão a colocar seus interesses por cima do que o país pode oferecer. A sede de lucros, impostos e consumo irracional é uma mistura explosiva.

Consumo da internet mobile

O setor cresceu 590% desde dezembro de 2009, informou a Folha de S.Paulo (28/08). No mesmo período, a banda larga fixa teve um acréscimo de 64% de novos pontos instalados. A demanda pelos serviços móveis de telefonia é imensa, e não pode ser contemplada com a precária infraestrutura brasileira. O que gera um aumento de preços para arrefecer a procura frenética por estes serviços. Por enquanto, os gastos com telefonia móvel, apesar de seu crescimento, não estão a afetar outros setores da economia. A melhoria nas condições de vida das classes C e D também fez crescer a demanda por viagens, saídas noturnas, restaurantes e outras formas de lazer. Por enquanto, a situação é de muita euforia, por parte das operadoras, e cuidado e atenção, por parte do governo. O consumidor ainda continua estimulado e desorientado. Existe gente que prefere morrer a ficar sem seu smartphone.

A pesquisa da Gazelle.com (uma empresa que negocia com celulares de consumidores), publicada no Consumidor Moderno (6/9). mostrou que:

“15% dos entrevistados preferem ficar sem fazer sexo ao final de semana a passar alguns dias sem seus aparelhos, 4% já usaram enquanto estavam tendo relações íntimas, 40% preferem ficar sem tomar banho a deixar de usar o smartphone, e outros surpreendentes 65% afirmam que preferem morrer e ficar sem (o smartphone).”

É isso mesmo, leitor. Quase 70% preferem morrer a ficar sem smartphone nos Estados Unidos. Parece mais propaganda disfarçada do que informação segura. No Brasil, onde apenas 16% da população possuem banda larga móvel no smartphone (informação do Ibope Nielsen, estudo especial mobile), 57% dos aparelhos são pré-pagos e 47% pós-pago. A maioria das conexões é feita através de redes “wi-fi”, seguida por redes 3G.

Um estudo muito interessante da companhia privada de pesquisas Ypsos OTX sobre o uso dos smartphones no Brasil foi publicado num site de compartilhamento de apresentações. O estudo, intitulado “Comportamento de consumo da internet mobile no Brasil (2012)”, mostra que, numa comparação com outras mídias, “88% das pessoas usam smartphones, enquanto 26% leem jornais e revistas, 29% assistem a filmes, 63% ouvem música, 46% assistem TV, 55% usam a internet, 18% jogam videogames e apenas 15% leem um livro”, diz o estudo.

De olho no bolso

Curiosamente, 96% dos acessos são feitos de residências, uma maioria esmagadora. Outros 82% acessam do trabalho, 69% de restaurantes, 66% em lojas, 60% no transporte público, 53% no consultório médico, 52% em eventos sociais, e 49% na escola. O alto número de acessos vindos de residências pode ser lido como proporcional ao custo dos serviços móveis no país. O amplo uso do “wi-fi” também demonstra cuidado com gados com os planos de dados. O número alto de acessos em lugares públicos de convivência social obrigatória e anônima (como nos transportes e consultórios médicos) pode estar a indicar uma fuga do embaraço urbano provocado pelo convívio próximo entre estranhos.

Comprar dados para um smartphone é um problema para o usuário brasileiro. Poucos sabem identificar e medir suas necessidades em megabytes, ou gigabytes. As operadoras não explicam com correção quanto o cliente está a comprar, exatamente. O Globo online (14/04) identificou a dificuldade dos nossos consumidores. Eduardo Tude, presidente da consultora em telecomunicações Teleco, explicou que um megabyte equivale, aproximadamente, “ao acesso a dez páginas na web”.

O periódico da web também apontou outro limite importante para nossa banda larga móvel: a péssima qualidade do serviço. Mesmo que o governo interfira, e anuncie um plano de acesso à web sem contratação de planos de dados (é o “banda larga 0800”, ainda em fase de testes), e que a outra ponta abastada do mercado consumidor absorva os salgados preços das operadoras, ainda estaremos presos a nossa péssima infraestrutura e ao baixo investimento até o momento das operadoras do setor. As operadoras não podem atender a demanda crescente de smartphones e fornecimento de dados no país.

O Brasil, que hoje ocupa a 10ª posição no mundo em quantidade de telefones inteligentes. O dado é da consultoria digital IDC, que acredita que seremos o quarto colocado no “ranking mundial de smartphones”. Mas aconselho cautela, por enquanto, com as previsões das pesquisas de marketing que prometem maravilhas para o futuro da telefonia móvel. Mal absorvemos a tecnologia 3G e já estamos com a 4G a bater a porta. Precisamos aumentar muito nossos investimentos em banda larga móvel para obtermos qualidade de serviço e capacidade para atender à demanda que só tende a subir com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Até lá, de olho no bolso, e lembre-se que a tendência do consumidor é comprar mais dados do que realmente necessita.

***

[Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor]

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