Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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Steve Jobs, a entrevista

Por Cora Rónai em 09/10/2012 na edição 715

Steve Jobs: a entrevista perdida” não é um filme. É exatamente o que o título promete, nem mais nem menos – uma longa entrevista com Steve Jobs, feita em 1995, com uma única câmera parada fechada no protagonista. A entrevista, honra se lhe faça, não tinha intuitos cinematográficos. A ideia do entrevistador Robert Cringely, então levada adiante, era apenas usar alguns trechos no documentário O triunfo dos nerds, do canal público PBS. A fita bruta, com a íntegra do material, sumiu entre uma edição e outra. Até que, no ano passado, um dos editores encontrou uma cópia em VHS na garagem de casa. Foi a partir dela que se criou o atual filme: uma curiosidade, um documento que pode eventualmente funcionar em televisão ou, quem sabe, como extra de uma possível edição especial do documentário.

Feita essa ressalva, vale a pena, sim, assistir à entrevista. Na época, Jobs se encontrava no ponto mais baixo da sua vida profissional. Havia sido demitido da Apple dez anos antes, e seu novo projeto, o Next, estava empacado. Sabia-se falível: talvez por isso tenha se exposto tanto. Conversa com sinceridade e sentimento. Quando relembra o momento em que saiu da Apple e teve que deixar sala e mesa fica genuinamente comovido, muito perto das lágrimas.

Previsivelmente, ele é duríssimo com John Sculley, o executivo da Pepsi que, num sensacional erro de julgamento, levou para a empresa. Não tenho nenhuma pena de Sculley, que ganhou muito dinheiro para levar a Apple à beira da falência, mas não posso deixar de pensar na ironia da situação. Quantos executivos já não ganharam fortunas quebrando as empresas mais sólidas? No entanto, seus nomes são logo esquecidos pelo público e eles podem tocar a vida como se nada houvesse acontecido. John Sculley, porém, será para sempre o incompetente denunciado por Jobs – e, pior, o responsável por afastar da Apple o seu criador genial. Mais vingança dos nerds, impossível.

Jobs fala longamente sobre os primórdios da companhia e da era da computação individual; da sua relação com Wozniak; e da Microsoft, que acusa de não ter gosto. Jobs diz taste , literalmente “gosto”, traduzido na entrevista como “imaginação”. Não está errado. O sentido do taste que Jobs propõe é mais do que um puro e simples gosto; é algo entre senso estético e imaginação.

Senso estético

O diagnóstico é fantástico. A Microsoft sempre foi inteiramente desprovida tanto de um quanto de outra. Jobs cita o exemplo das fontes e do espaçamento entre elas, coisa que só se aprende vendo livros bonitos. Perfeito! Esta é uma sutileza que nunca fez parte do DNA da Microsoft. O que ele parece não ter percebido é que essa falta de senso estético beneficiou muito a Apple, que se tornou a favorita entre os profissionais das artes não só pelos seus méritos, como pela falta de jeito da concorrência.

Quando Cringely lhe pergunta como vê a Apple naquele momento, Jobs diz que a empresa está a um passo da morte, num processo de decadência que ele considera irreversível. Aqui o diagnóstico estava errado. Cerca de um ano depois da entrevista, Jobs reassumiria o controle da companhia e partiria para a maior virada da indústria.

É dentro da perspectiva da morte iminente da Apple, contudo, que lamenta o que a Microsoft representa, o triunfo de um padrão rastaquera. Para Steve Jobs, o ser humano deve se cercar do que há de mais belo, do que há de melhor na civilização. Esse senso estético quase mórbido levou à criação de equívocos como o Cube, um dos computadores mais lindos e menos usáveis de todos os tempos; mas ele estava certo no atacado, e em relação à mediocridade funcional que sempre reinou no mundo PC. Beleza, como já dizia um certo poeta tropical, é fundamental.

***

[Cora Rónai é jornalista e colunista de O Globo]

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